Pensando na morte da bezerra…

Eu estava aqui divagando e pensando nas manifestações de março e desse mês e como sempre chego a mesma conclusão: as pessoas querem algo, mas não sabem o que e nem como conseguir. No final das contas todo mundo quer a mesma coisa, menos corrupção e excelência nos serviços públicos, mas falta organização para cobrar com mais consistência.

Acho que o problema não é explicar o que queremos, os políticos estão carecas de saber. Só precisamos de um sistema de cobrança organizado e para isso precisamos olhar com atenção o que é feito pelos deputados e senadores talvez seja uma forma de começar. Se você clama por mudanças no nosso sistema político e não sabe que desde fevereiro os deputados estão reunidos na Comissão Especial da Reforma Política, é bom dar uma olhada nessa página AQUI e ver tudo o que já aconteceu por lá.

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Entre audiências públicas e seminários, muitos assuntos já foram levantados e o que agrada grande parte dos deputados é o financiamento exclusivamente público de campanhas. Lembra aquela coisa que eu falei em um dos posts daqui sobre o fato de errarmos o timing das reivindicações? Então, se quisermos ingerir sobre o processo da Reforma Política a hora é ESSA! Veja os deputados que compõem a comissão e cobrem o posicionamento deles. Organizem-se em grupos, quanto mais pessoas defendendo a mesma ideia melhor para ouvi-la.

As audiências públicas em sua maioria acontecem fora de Brasília, então se a próxima for no seu estado e você puder, participe, entenda o que está sendo debatido, converse com amigos e espalhe o tema. Quanto mais gente sabendo dessa comissão e da possibilidade de participar, melhor. A nossa democracia só tem a crescer com isso.

Sabemos que as ruas são apartidárias, mas essa união em torno de grupos que estou falando não precisa ser um partido. Pode ser um monte de gente interessada em participar mais dos processos da Câmara, o que importa é que precisa haver uma unidade e talvez em algum momento seja necessário a presença de um porta voz, que traduz os anseios do grupo para o mundo. Não tem como 50 pessoas falarem ao mesmo tempo e serem compreendidas, então pensem nessa pessoa como alguém com boa oratória e capacidade de negociação. A ideia é que a pessoa apenas seja um elo e não a dona do grupo ou das ideias defendidas por ele.

Na minha cabeça essa coisa de impeachment é uma bandeira meio esquisita porque, tirando o fato de que não há provas concretas do envolvimento da presidente nos escândalos, as reações disso podem tomar dimensões catastróficas. Não basta só pedir impeachment, é preciso entender quem assume, como fica a situação já frágil do país e principalmente a situação política. Dois impeachments em 21 anos é de arrepiar até cabelo de ovo, é um sinal claro de instabilidade política que com certeza pioraria ainda mais nossa situação econômica.

Não sei quem conseguiu incutir isso na cabeça de tantos brasileiros, mas deixei aqui uma dica que considero mais eficaz que essa. Se você tá cansado de tanta roubalheira, fique de olho nas comissões do Congresso e participe dos debates.

Por Ana Paula Ramos

E se mudarmos o olhar?

Essa semana fiquei olhando os textos de opinião em busca de algo que pudesse me dizer o que podemos esperar dos nossos governantes após as manifestações do dia 15. Claro que a gente espera que nossos problemas sejam resolvidos, mas costumamos colocar tudo na conta da presidente esquecendo que nos estados existem Chefes do Executivo também…

Nessa procura achei um texto do Renato Janine, no Jornal Valor Econômico, e ele tentou lançar uma nova hipótese para que possamos pensar e analisar a situação de Dilma. Confesso que nunca tinha olhado as coisas sob essa lente e acho que vale muito a pena ler e dar o benefício da dúvida a essa nova conjectura.

Não a assumo como verdade, mas acho que é uma hipótese possível, como várias outras. Lança uma luz diferente sob a incapacidade de governar de Dilma e nos faz pensar como esse é o objetivo principal do blog compartilho o texto com todos para que discordem, concordem ou criem suas próprias análises:

Será que desejamos o Impossível?

Por Renato Janine, no Valor Econômico

Queremos um governo que seja eficiente e honesto, mas sabemos que ter as duas coisas é bem difícil no Brasil de hoje

Um princípio básico da ciência é que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que dê melhor conta deles. Este princípio me ocorreu há poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da República por seu estilo de pouca negociação. Até ficamos espantados: como sobe à presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas aí parei. Nunca é bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer política. Só que…

Se isso não for óbvio? Se nosso ponto de partida estiver errado?

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e até mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas – inclusive a Terra – em torno do Sol descrevem órbitas mais regulares. Essa, a lição científica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da política, indagar o que ela efetivamente pretende.

Dá para governar bem e ser honesto no Brasil?

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questioná-la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num País em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, trânsito livre pelo mundo dos políticos?

Essa é a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma política competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem está a sua volta, o que politicamente é inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da política. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode até governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detestá-las para superá-las?

A hipótese passa a ser: e se o “momentum” Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nós? Em nós, analistas da política e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade.

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando o governo estadual – que é do PSDB – negociou com o PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memória.

E ouvi de Drauzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a polícia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso é inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo o crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui-los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto é, num REGIME em que o Congresso pouco decidia, o assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos-leis pelos parlamentares, que ia abrir o “barril de peixe podre”. Imagina-se o odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem.

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: “Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas”. Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. “Não quero nem saber!”

E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?

Esta é uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprová-la e apoiá-la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria política, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto é, a ação – e inação – de Dilma, melhor do que a suposição de que ela é inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanálise não ajuda a entender o ódio crescente a ela. Ódio ao outro é projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, às escâncaras, um dilema que queremos esconder de nós. Queremos a honestidade sem pagar o preço por ela. Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bençãos. O dinheiro que é roubado da sociedade virá a nós como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso dá trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, “informais” dizemos às vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a política não é só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos.

Confesso que achei o texto muito bem escrito e com uma construção de ideias que não me deixou dúvidas de que isso nada mais é que a criação de uma hipótese, o autor não me passou a impressão de querer enfiar essa opinião goela abaixo e nem de que ele próprio acredita nisso com afinco. Passa a ideia de que isso poderia acontecer porque como ele mesmo falou, governar no Brasil com honestidade é uma coisa muito complicada pelo fato de haver uma relação de dependência entre os poderes.

Acrescentei essa nova linha de pensamento no meu caderninho.

Por Ana Paula Ramos.

Sobre panelaço, elite branca e varandas gourmet

Meu namorado me mostrou esse texto e resolvi compartilhar porque ele reflete o meu sentimento com relação a reação do governo ante ao descontentamento da população. Eu sei que hoje a pauta é a manifestação, mas vamos voltar um pouco no tempo e lembrar dos panelaços que algumas cidades, como a minha, viveram no último dia 8.

Eu não bati panela e nem fui a manifestação porque não concordo com o impeachment, na verdade ao acompanhar pela TV percebi que perdi uma boa oportunidade de manifestar minha insatisfação porque essa não foi a bandeira principal, pelo menos aqui em Brasília.

Mas enfim, estou descontente com o governo pelos desvios da petrobrás, pela mentirada durante as eleições, pela tentativa de continuar escondendo sua própria incompetência para conduzir a economia, pela inflação que faz as compras do mês ficarem cada vez mais caras, pelo aumento da energia, pelo assalto dos postos de gasolina, pela dificuldade em agir para salvar a petrobras no mercado financeiro, pela diminuição dos investimentos em educação apesar da afirmação de que somos uma pátria educadora, pelo perdão aos mensaleiros,  por uma lista de coisas que não para de crescer.

Outra coisa que me deixa indignada é essa divisão entre: conformados = petralhas, inconformados = coxinhas; Gente, somos bem melhores do que isso, todo mundo concorda que a situação não está fácil para ninguém e que não tem nada a ver com a ascensão social de seu ninguém. Tem a ver com a perda de poder de compra do real e com serviços básicos que quando são oferecidos não tem qualidade.

Eu sou branca, se é que alguém nesse país pode dizer isso, mas não sou elite e acho que o impeachment traria mais problemas que benefícios a nossa nação. Primeiro porque não temos ideia de quem poderá assumir as rédeas da situação e segundo porque para a economia esse seria o golpe final. Não precisamos adicionar instabilidade política ao nosso cenário já tão volátil.

Precisamos de respeito e de um governo que assuma seus erros e não só seus acertos. Que reconheça que a culpa não é só da crise internacional e que as atitudes não tomadas nos últimos quatro anos contribuíram para o aprofundamento da nossa crise interna.

Nossa situação não é simples e parem de cair nessa pilha de que quem critica o governo tá achando ruim porque os aeroportos foram ampliados e pobre viaja de avião. Ninguém está dando a mínima para isso, ninguém ia bater panela enquanto a presidente fala por uma razão tão pífia e também não iria juntar um milhão em SP e mais uma porrada de gente Brasil a fora, em TODAS as regiões independente da quantidade de manifestantes e da cidade. Até porque não foram só as capitais que tiveram manifestações, alguma cidades interioranas também.

Então não sejam simplistas e rotuladores, nossa situação precisa de bem mais do que isso.

Desabafo feito, leiam esse texto de um dono de varanda gourmet e me digam o que vocês acham do motivo que o levou a bater panela no dia 8. O nome do autor é Cesar Manieri e você pode acessar o texto original no blog dele AQUI:

Eu sou sou proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Esta semana eu li nos sites de notícias e vi comentários de amigos em redes sociais sobre isso e acabei refletindo a nossa atual situação neste país. Sim, moro em um apartamento com “varanda gourmet” e bati panela também, mas após ler um monte de bobagens sobre o panelaço, uma tristeza invadiu meu coração e foi grande quando percebi que fui cerceado do meu direito de ser um digno proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Porque fiquei tão triste e totalmente sem esperança de viver em um país decente? Vou contar minha história, que deve ser muito parecida com quase todos os dignos proprietários de “varandas gourmet” espalhadas pelo país. Foi assim: Meus antepassados e avós paternos foram imigrantes que vieram da Itália no fim do séc. XIX início do séc. XX. Vieram fugindo da fome e da guerra. Fugiram do nazismo e do fascismo que despertava naquele continente. Meus avós paternos se estabeleceram no interior do Paraná. Na “terra rossa”. Passaram fome, enfrentaram doenças enquanto criavam os filhos. Meus avós maternos já nasceram no Brasil do inicio do século XX. Minha avó materna veio de uma família que aparentemente tinha posses, mas por conta da guerra, perderam parte do que tinham. Por isso, minha avó materna (que era descendentes de índios), para fugir do assedio do padrasto, aos 13 anos se casou com o meu avô (que era descendente de africanos mas de origem misteriosa). Ele já tinha mais de 25 anos com certeza. Meus avós paternos tiveram 8 filhos e os maternos 18 (5 morreram). Entre toda essa turma, nasceram meu pai e minha mãe. Todos trabalharam na roça. Todos tiveram muitos filhos. Gente simples. Meu pai veio para São Paulo em 1945 com 13 anos e logo começou a trabalhar nas indústrias da capital. Minha mãe fez o mesmo trajeto e veio trabalhar nas casas das famílias quatrocentonas abastadas dos barões do café e nos palacetes e grandes apartamentos dos industriais paulistanos. Meu pai era técnico de elevadores e por uma coincidência do destino conheceu minha mãe quando ele estava consertando um elevador de um dos prédios onde ela trabalhava. Meu pai trabalhou por 45 anos para nos educar, eu e meus 2 irmãos e minha irmã. Começou construindo sua casa na periferia de São Paulo. Era um porão úmido construído em uma rua lamacenta fruto do loteamento do haras Patente na divisa com São Caetano do Sul. Com apenas o ensino fundamental, sabia que precisaria estudar e trabalhar muito para levantar a casa dele. E foi o que ele fez. Se preparou, estudou e se tornou um ótimo técnico eletrônico e eletricista. Homem correto. Minha mãe lutadora e dona de casa. Meu pai era metalúrgico e do sindicato e já me dizia nos anos 70 sobre a “índole de filho da puta” de muitos de seus integrantes, inclusive do Lula. Meus pais criaram os 4 filhos. Suaram, correram, choraram. Eu segui seus passos com dignidade e retidão. Da minha mãe herdei a força da luta diária, da resignação e da resiliência, do amor a família. Eu trabalhei duro durante 30 anos, estudei tudo que podia, mas estudar nunca é demais, me preparei como meu pai. Construi minha vida assim, como meus pais me mostraram. Trabalhei duro. Por mérito meu e da minha esposa, conseguimos comprar nosso apartamento com “varanda gourmet”  para criar nossos filhos. Paguei cada centavo, cada juro extorsivo e abusivo cobrado pelos bancos. Recentemente fui demitido da indústria, que está ultimamente fracassada nesse país. Então, ouvindo um chamado, a minha voz, resolvi empreender e no momento que nossa pequena empresa iniciou a decolagem fomos surpreendidos por toda essa merda de cenário atual e por toda essa turbulência política. Foi ai que chegamos no dia 8 de Março de 2015. Cento e quinze anos depois da chegada dos meus avós ao Brasil fugindo da crise da Europa. E após ler argumentos de jornalistas de “peso” sobre a “elite branca” que protesta contra a presidente do Brasil e seu partido energúmeno, fiquei profundamente sem palavras. Sim, eu fui ofendido, pois para eu estar aqui na “varanda gourmet” derramei muito suor. Abri mão de muita coisa e muitas vezes escolhi trabalho extra pra ter o que tenho. Não aceito ser tolhido do meu direito de mandar todos os políticos e pessoas corruptas, seus corruptores, a Dilma, o Lula , o PT, Aécios , os comunistas, idiotas úteis e afins e todos os seus simpatizantes Tomar no meio do Cu. Tenho o direito de expressar meu sentimento de indignação e dor. Mando e vou mandar sempre que eu for desrespeitado como brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor dos meus deveres. Eles ofendem meus antepassados e meus descendentes. Eles desrespeitam meus antepassados que viveram e morreram para que eu pudesse ter meu apartamento com “varanda gourmet”. Não aprendi a xingar em casa no seio da família. Meus pais me ensinaram o respeito ao próximo, os valores e as condutas morais e  virtuosas e me deram a liberdade de crer em Deus. Me ensinaram a não pegar nada de ninguém. Pecado gravíssimo. Uma desonra. Aprendi a xingar nas ruas lamacentas e nos terrenos baldios cheios de mato do Jardim Patente quando era desrespeitado em meus simples direitos de moleque de rua, mas mesmo assim sabíamos quando xingar. Tínhamos nosso código de ética. Nunca usarei meu direito de xingar em vão. Portanto, políticos corruptos e seus corruptores e todos os vendidos que apoiam a situação atual, que nem chegaram a condição de merda humana, seus peidos fracassados, lavem a boca antes de falar sobre quem literalmente construiu e constrói esse país, que somos nós, as famílias brasileiras, que criam seus filhos, que tem valores, princípios e conduta moral, que tem história de luta verdadeira, que não tem nada de revolucionária, coisa que vocês, donos do poder, não tem nem ideia do que seja. Ou se tiveram um dia, já se esqueceram, iludidos pela ganancia do poder e pelo dinheiro fácil.

O que acharam?

Por Ana Paula Ramos.

E as nossas instituições?

Um dos muitos textos excelentes que me mostraram no mês passado. Li bem umas três vezes e acho que vocês deveriam ler também. Ele foi publicado no Valor Econômico e foi escrito pelo Marcus André Melo:

Por que as instituições se fortalecem no Brasil?

Governantes têm aversão a prestar contas, como nos lembra Soll em seu magistral “The reckoning: financial accountability and the rise and fall of nations”. Na Inglaterra do século XVII, Charles I mandou cortar as orelhas de William Prynne, que chefiava uma comissão de contas criada pelo Parlamento para investigar a gestão das receitas do Estado. Desconfio que nossos governantes tenham tido ímpeto semelhantes em relação a magistrados como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. Mas o corte de orelhas obviamente não se consumou. Nas democracias contemporâneas, a violência física não consta do repertório de ações dos governantes, e, nas mais consolidadas, a interferência nas instituições de controle é mínima. No Brasil a recém-adquirida robustez das instituições de controle latu senso (Judiciário, Ministério Público, TCU) tem chamado a atenção. O que causou seu fortalecimento e de onde vem sua independência?

Há dois argumentos rivais para dar conta desse fortalecimento. O primeiro sustenta que o fator determinante é a retidão de propósitos dos governantes. Assim, as instituições deveriam seu fortalecimento ao reformador que “não rouba nem deixa roubar”. Embora seja normativamente atraente – afinal tem forte apelo sobre nossa consciência moral – as pesquisas mais instigantes na ciência política tem mostrado que as instituições fortes de controle não são produto da ação de governantes, partidos ou movimentos. A recíproca, no entanto, é verdadeira: governantes corruptos tem sido em geral bem sucedidos no objetivo de subjugar as instituições de controle. Muitos partidos, movimentos e indivíduos chegaram ao poder em cruzadas anticorrupção e moralizantes. Caso tornem-se dominantes, inicia-se a degeneração institucional. Há, assim, algo mais que voluntarismo em jogo.

O argumento rival defende que não são cruzadas morais que fortalecem o controle da corrupção e previnem o abuso, mas o desenho institucional voltado para maximizar os incentivos para o controle. Denominemos esse argumento de argumento neomadisoniano em homenagem ao pai fundador da república americana, James Madison. Em “O Federalista nº 51” afirmou “que se os homens fossem anjos, os controles não seriam necessários”. O ponto de partida do madisonianismo é que o poder corrompe. A defesa contra o abuso de poder e a corrupção não é a conversão – a uma ideologia ou princípio moral transcendente – mas um desenho institucional que leve a contraposição de interesses. Dessa forma, os atores institucionais teriam incentivos para se controlar mutuamente. A transparência seria produzida pela competição política e o melhor remédio contra a corrupção seria então uma oposição forte. Só ela teria interesses em desvelar desmandos. A autocontenção (moral) é insuficiente porque o “moral hazard” (risco moral) é alto: governo algum tem interesse em expor suas próprias mazelas, pelo contrário. Nas novas democracias – o caso brasileiro é exemplar – o risco permanente é o conluio entre parceiros em uma coalizão dominante ou o uso da maioria para inibir as instituições de controle.

Só são efetivas no país as instituições antimajoritárias.

O exemplo das instituições de controle dos países da comunidade britânica das nações é ilustrativo. A presidência dos “Public Accounts Committee” é delegada ao líder da oposição que nomeia o titular do National Audit Office – que é o equivalente ao TCU no Brasil. A intuição por trás dessa regra é madisoniana: a maioria parlamentar que dá sustentação ao governo não está interessada em se autocontrolar. Só a oposição alimenta esse interesse. Isto explica porque, por exemplo, as CPIs no Brasil nunca tiveram efetividade, porque controladas pelo governo e sua maioria. Os episódios raros em que surtiram efeito foram apenas porque puderam dar vazão a conflitos no seio de famílias ou “fogo amigo” entre desafetos. Só tem efetividade no país as instituições que fogem a essa lógica por serem antimajoritárias, como o Judiciário e o Ministério Público (urge que o TCU seja reformatado e se converta em instituição judicial!). Mas poderíamos acrescentar também a mídia independente do governo. Nas novas democracias, estas instituições são a última linha de defesa da “res publica”.

Mas o que impede o governo de “cortar as asas” das instituições de controle”? A interferência aberta nessas instituições tem custos que em alguns contextos democráticos podem ser proibitivos: os eleitores punem nas urnas governos que ataquem tais instituições. No limite, a interferência ocorre de forma indireta quando a falta de alternância política se traduz na composição governista dos colegiados dessas instituições. Mas o ataque direto tem um custo reputacional: ele é tanto maior quanto mais independente for a mídia e mais forte a oposição.

Os limites à interferência nas instituições são dados pela opinião pública, sobretudo nas democracias maduras. Há um equilíbrio quando os custos de tolerar a oposição e os controles tornam-se maiores que os de reprimi-los. Esse argumento parece ser bem compreendido por protagonistas do “jogo do controle” no Brasil. O juiz federal Sérgio Moro, em texto de 2004 sobre a Operação Mani Pulite, que levou centenas de políticos e empresários para a cadeia, concluiu que “a lição mais importante de todo o episódio seja a de que a ação judicial contra a corrupção só se mostra eficaz com o apoio da democracia… Enquanto ela contar com o apoio da opinião pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados”. Ao deflagrar a Operação Lava-Jato certamente anteviu o massivo apoio que receberia da opinião pública.

No Brasil, as instituições fortaleceram-se e isso foi produto da competição política. O contrafactual é dado por países onde forças políticas tornaram-se hegemônicas e o controle democrático sobre os governos definhou. Estudos comparativos rigorosos na América Latina e na Europa do Leste corroboram amplamente este argumento. O neomadisonianismo não é vacina definitiva contra o corte de orelhas, mas é o começo. Sim, o Brasil vai mal, mas as instituições antimajoritárias funcionam cada vez melhor!

Marcus André Melo é professor da UFPE, foi professor visitante da Yale University e do MIT e é colunista convidado do “Valor”. Maria Cristina Fernandes volta a escrever em fevereiro

Não tem como não pensar pelo menos um pouco no que ele diz. As teorias que ele apresenta pelo menos nunca passaram pela minha cabeça dessa forma, pensava em apenas uma dessas facetas. O que você achou do texto?

Por Ana Paula Ramos

O fanatismo e a tecnologia

Texto para ler falando sobre os mais diversos assuntos é o que não falta, mas esse que eu vou compartilhar hoje fala sobre um livro que me deu muita vontade de ler e que talvez jogue uma luz sobre os acontecimentos do início do ano em Paris. Deixei para publicá-lo só agora porque os ânimos estão mais calmos e normalmente pensamos melhor quando não estamos tão tocados pelos fatos. O texto foi escrito por Martin Wolf e foi publicado no Financial Times originalmente e traduzido por Sergio Blum:

Como compartilhar o mundo?

Como devemos entender os acontecimentos da semana passada em Paris? Por que pessoas se dispõem a matar e morrer por suas crenças? Como deveriam reagir as democracias liberais? Muitas pessoas devem estar se fazendo essas perguntas. Um homem notável, Eric Hoffer, abordou-as em um livro publicado em 1951: “The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements” (o verdadeiro crente: pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massa). As ideias em seu livro, desenvolvidas em resposta ao nazismo e ao comunismo, reverberam poderosamente ainda hoje.

Hoffer nasceu na virada do século XX e morreu em 1983. Ele trabalhou em restaurantes, como mão de obra agrícola migrante, como garimpeiro e, durante 25 anos, como estivador em San Francisco. Autodidata, ele era capaz de penetrar o núcleo de um tema com frases brilhantes e límpidas. “The True Believer” é um de meus livros favoritos. É, novamente, um guia inestimável.

Quem, então, é um verdadeiro crente? Said e Cherif Kouachi e Amedy Coulibaly, os homens responsáveis pelos ataques terroristas na semana passada em Paris, eram verdadeiros crentes. Também verdadeiros crentes são os que atuam na al-Qaeda, no Taleban, no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis) ou no Boko Haram. Também crentes verdadeiros eram os nazistas e os comunistas. Os verdadeiros crentes, defende Hoffer, não são caracterizados pelo conteúdo de sua fé, mas pela natureza de suas afirmações. Suas crenças reivindicam certeza absoluta e exigem lealdade absoluta. Crentes verdadeiros são aqueles que aceitam essas reivindicações e saúdam essas demandas. Eles estão dispostos a matar e morrer por sua causa, porque o êxito delas no mundo é mais importante, para eles, do que suas próprias vidas ou mesmo a vida de qualquer pessoa. O verdadeiro crente é, portanto, um fanático.

Devemos nos manter fiéis às nossas crenças. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. No fim, isso também vai passar

O fanático é um personagem familiar na história. O fanatismo nasce de temperamento, não de ideias. O temperamento fanático pode expressar-se de muitas maneiras. A era em que Hoffer viveu foi uma era de religiões seculares. A realidade exterminou as religiões que prometiam salvação na Terra. Mas não pode exterminar as religiões que prometem eternidade. Essas são, agora, novamente, a mais poderosa forma de crença, embora o nacionalismo ainda possa competir de perto.

Com efeito, religião e nacionalismo frequentemente reforçaram-se mutuamente: Deus, afinal de contas, é muito frequentemente considerado em “nosso campo”. Por essa razão, diz Hoffer, “o nacionalismo nos tempos modernos é a mais copiosa e renovável fonte de entusiasmo das massas e é preciso recorrer ao fervor nacionalista para que as drásticas mudanças projetadas e iniciadas pelo entusiasmo revolucionário possam ser consumadas”.

Um das intuições de Hoffer é que não é a pobreza o que transforma alguém num verdadeiro crente; é a frustração. É o sentimento de que alguém merece algo muito melhor. Não é de estranhar que alguns daqueles envolvidos em terrorismo sejam “peixes pequenos” do mundo do crime. Hoffer argumenta “que os frustrados predominam entre os primeiros adeptos de todos os movimentos de massa e que eles geralmente aderem por vontade própria”. Uma de suas características é que eles podem sentir que não se encaixam em suas sociedades.Isso não é improvável no caso de alguns filhos de minorias imigrantes. O vínculo com a cultura de origem de suas famílias e a identificação com a cultura da terra de suas famílias são, ambos, provavelmente muito frágeis.

O que a crença, então, oferece? Em essência, ele oferece uma resposta: a crença diz aos adeptos o que pensar, o que sentir e o que fazer. Ela proporciona uma comunidade abrangente para o crente viver. Ela oferece uma razão para viver, matar e morrer. Ela substitui o vazio por plenitude e a falta de rumo por propósito. Ela oferece uma causa. Ela é às vezes nobre e por vezes abjeta, mas é uma causa, e isso é o que importa. “Todos os movimentos de massas geram, em seus adeptos, uma…propensão para ação unida”, observa Hoffer. “Todos os movimentos de massa, independentemente da doutrina que pregam…, fomentam fanatismo, entusiasmo, esperança fervorosa, ódio e intolerância”. Todos exigem “fé cega e adesão sincera e dedicada”.

O comunismo minguou. O mesmo se deu, em muitos lugares, com o secularismo. A religião assumiu seu lugar. A falência moral e intelectual dos governantes seculares – especialmente dos déspotas seculares corruptos – fomentou esse recrudescimento. Mas as democracias ocidentais seculares são vulneráveis a assaltos também de verdadeiros crentes do islamismo militante. Guerras poderão controlá-los. Mas violência não os eliminará, como o Ocidente aprendeu tanto no Iraque como no Afeganistão. O inimigo não é o “terrorismo”; o inimigo é a noção da qual o terrorismo é fruto. Dissuadir pessoas dispostas a morrer é difícil. Matar ideias é difícil. Matar ideias religiosas é quase impossível. Essas ideias somente se dissiparão em face de ideias mais atraentes. Possivelmente, as ideias mais extremadas poderão morrer por exaustão. Mas isso pode levar muito tempo. Lembremo-nos que as ideias de Lutero desencadearam 130 anos de guerras religiosas na Europa. É um precedente preocupante.

O que deve ser feito? Não reivindico nenhuma expertise nessa área. Mas tenho pelo menos um interesse legítimo: o de cidadão de uma democracia liberal, condição que desejo manter. Minhas respostas são as seguintes. Em primeiro lugar, aceitar que estamos jogando um jogo – de longo prazo – de contenção. Em segundo lugar, reconhecer que o coração da luta está em outro terreno. O Ocidente pode ajudar. Mas não tem como vencer essas guerras. Em terceiro lugar, oferecer a noção vivida de igualdade como cidadãos, como alternativa para a jihad violenta. Em quarto lugar, apreciar e responder às frustrações que muitos agora sentem. Em quinto lugar, aceitar a necessidade de medidas para garantir segurança. Mas lembrar que segurança absoluta nunca é possível. Por último, nos mantermos fiéis às nossas crenças, pois sem elas nada temos a oferecer para esse esforço. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias.

Mais uma vez, os verdadeiros crentes querem fazer-nos mal. Mas a ameaça que eles representam não é comparável às que a democracia liberal sobreviveu no Século XX. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. Ao final, isso também vai passar.

A teoria levantada por Hoffer é muito interessante, podem dizer! Eu estou louca de vontade de ler esse livro, mas ainda não encontrei em nenhum lugar para comprar, parece que só tem em português de Portugal. Acho que vou ter que encarar em inglês mesmo…

O que você acha desse ponto de vista?

Por Ana Paula Ramos.

Marta Suplicy – Parte 2

Como se não bastasse o bafafá da entrevista dada por Marta Suplicy no início do mês, a Senadora resolveu novamente expressar seu descontentamento com o partido que representa. Dessa vez, o veículo utilizado foi a Folha de São Paulo e o mais curioso é que ela utilizou a coluna chamada debate, que pode ser usada por qualquer leitor que deseja enviar sua contribuição ao jornal, basta enviar um email. Achei bem curioso o canal escolhido e como já era de se esperar ela manteve as críticas ao governo. Leia e veja o que acha dessa nova Marta que põe o dedo na ferida do PT sempre que tem oportunidade:

Marta Suplicy: O diretor sumiu

Tenho pensado muito sobre a delicadeza e a importância da transparência nos dias de hoje. Temos vivido crises de todos os tipos: crise econômica, política, moral, ética, hídrica, energética e institucional. Todas elas foram gestadas pela ausência de transparência, de confiança e de credibilidade.

Se tivesse havido transparência na condução da economia no governo Dilma, dificilmente a presidente teria aprofundado os erros que nos trouxeram a esta situação de descalabro. Não estaríamos agora tendo de viver o aumento desmedido das tarifas, a volta do desemprego, a diminuição de direitos trabalhistas, a inflação, o aumento consecutivo dos juros, a falta de investimentos e o aumento de impostos, fazendo a vaca engasgar de tanto tossir.

Assim que a presidenta foi eleita, seu discurso de posse acompanhou o otimismo e reiterou os compromissos da campanha eleitoral: “Nem que a vaca tussa!”.

Havia uma grande expectativa a respeito do perfil da equipe econômica que a presidenta Dilma Rousseff escolheria. Sem nenhuma explicação, nomeia-se um ministro da Fazenda que agradaria ao mercado e à oposição. O simpatizante do PT não entende o porquê. Se tudo ia bem, era necessário alguém para implementar ajustes e medidas tão duras e negadas na campanha? Nenhuma explicação.

Imagina-se que a presidenta apoie o ministro da Fazenda e os demais integrantes da equipe econômica. É óbvio que ela sabe o tamanho das maldades que estão sendo implementadas para consertar a situação que, na realidade, não é nada rósea como foi apresentada na eleição. Mas não se tem certeza. Ela logo desautoriza a primeira fala de um membro da equipe. Depois silencia. A situação persiste sem clareza sobre o que pensa a presidenta.

Iniciam-se medidas de um processo doloroso de recuperação de um Brasil em crise. Até onde ela se propõe a ir? Até onde vai o apoio à equipe econômica?

Para desestabilizar mais um pouco a situação, a Fundação Perseu Abramo, do PT, critica as medidas anunciadas, o partido não apoia as decisões do governo e alguns deputados petistas vociferam contra elas. Parte da oposição, por receio de se identificar com a dureza das medidas, perde o rumo criticando o que antes preconizou.

O PT vive situação complexa, pois embarcou no circo de malabarismos econômicos, prometeu, durante a campanha, um futuro sem agruras, omitiu-se na apresentação de um projeto de nação para o país, mas agora está atarantado sob sérias denúncias de corrupção.

Nada foi explicado ao povo brasileiro, que já sente e sofre as consequências e acompanha atônito um estado de total ausência de transparência, absoluta incoerência entre a fala e o fazer, o que leva à falta de credibilidade e confiança.

É o que o mercado tem vivido e, por isso, não investe. O empresariado percebe a situação e começa a desempregar. O povo, que não é bobo, desconfia e gasta menos para ver se entende para onde vai o Brasil e seu futuro.

Acrescentem-se a esse quadro a falta de energia e de água, o trânsito congestionado, os ônibus e metrôs entupidos, as ameaças de desemprego na família, a queda do poder aquisitivo, a violência crescente, o acesso à saúde longe de vista e as obrigações financeiras de começo de ano e o palco está pronto.

A peça se desenrola com enredo atrapalhado e incompreensível. O diretor sumiu.

MARTA SUPLICY é senadora pelo PT-SP. Foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e ministra da Cultura (2012-2014)

Parece que ela está declarando guerra ao PT mesmo, a pergunta que não quer calar é: por que ela ainda não saiu? Alguma coisa não está encaixando… O Miguel Jorge discordou da forma como a política estava sendo conduzida por Lula em 2003 e saiu do partido, ele também era um dos fundadores do partido, mas quando viu a mudança do partido não hesitou em sair. Por que ela não sai e critica de fora? Para mim é meio estranho tanto descontentamento e nenhuma ação de retirada. Será que ela espera ser chamada para colocar o partido nos eixos novamente? Acho essa opção meio difícil, uma vez que ela afrontou Aluizio Mercadante, Dilma e o próprio presidente do partido.

Ainda falta peça nesse quebra cabeça, só acompanhando para ver que figura sairá no fim.

Por Ana Paula Ramos

Dilma + Levy?

Não sei se vocês notaram, mas agora o blog tem uma categoria nova: Textos para pensar. O objetivo é compartilhar textos que considero interessantes e que nos fazem pensar sobre determinadas coisas que acontecem no nosso dia a dia. Vou deixar claro aqui que o fato de trazer o texto para o blog não significa que eu concorde integralmente com o que está escrito, mas reflexão nunca é demais. Nenhum dos textos são meus, em todos vou dizer o nome do autor e se eu souber digo a fonte também. Comecei com a entrevista da Marta Suplicy e agora vou compartilhar um texto bem interessante que o João Bosco escreveu na semana passada sobre o silêncio de Dilma:

Dilema Levyano

Menos pela cobrança da oposição e mais para não sugerir falta de apoio à equipe econômica, e com isso fortalecer o assanhamento da própria base parlamentar, a presidente Dilma não deve tardar em assumir a defesa do programa econômico que começa a ser executado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A reunião ministerial  na Granja do Torto rompe o silêncio da presidente porque impõe seu discurso de abertura do segundo mandato, mas não deveria ser um tópico dentro do longo processo de reajuste das contas públicas. É preciso que seja o começo de uma postura presidencial.

O risco do silêncio da presidente, que realça a condução econômica por Levy, pode não ter a motivação que lhe empresta a oposição, mas deixa espaço para a exploração política nos termos em que se dá.

Além de sugerir que monitora de perto a gestão de um modelo que lhe desagrada, o distanciamento presidencial reforça a leitura de uma campanha eleitoral que dissimulou os problemas do país. Qualquer postura da presidente não a poupará do desgaste de uma economia em sérias dificuldades, agravada pelas crises de água e energia.

Melhor, pois, assumir o programa de ajustes, primeiro porque é a receita recomendável para o contexto de crise. Segundo, porque passa a ideia de um governo que optou pelo comportamento ativo para repor o país nos trilhos. Em síntese, um governo disposto a mostrar serviço.

A oposição do PT à gestão de Levy peca pela perda de viço do partido, com origem na corrosão de sua credibilidade, seja pelo esgotamento da aposta em um modelo populista, de muita assistência e de pouca gestão, seja pela associação à corrupção, que patrocinou em busca de um governo sem contestação.

Não por acaso, quando a situação de agrava na economia e na política, que intensifica o conflito interno, o partido ressuscita a teoria conspiratória com a qual pretende, dia sim, dia não, justificar o controle da mídia – ora em forma de aplicação da regra democrática, ora em forma de pretenso zelo constitucional pela pluralidade de enfoques jornalísticos.

O PT já vive um conflito interno proporcional ao desgaste da legenda, do que é sinal mais ostensivo hoje o comportamento dissidente da ex-ministra da Cultura, Martha Suplicy. Em que pese sua ação se vincule à percepção de que precisa resguardar seu patrimônio político, Martha não disse uma só frase que possa ser desmentida pelo partido.

Prova disso é a entrevista recente do ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vanuchi, eleito para responder à entrevista da ex-senadora ao jornal O Estado de S.Paulo, em que abriu a temporada de críticas ao partido, ao governo e não poupou sequer o ex-presidente Lula, por cuja candidatura em 2014 se empenhara – segundo ela, com aval do mesmo.

Vanucchi não desmente uma só linha da entrevista de Martha, limitando-se ao velho método do PT de desqualificar seus críticos.Com a diferença, agora, que os críticos estão no próprio partido e, no caso de Martha, entre outros, têm a credibilidade da vivência histórica na agremiação.

Exercem a crítica como testemunhas até ontem engajadas nas causas partidárias e, mais, com um currículo de cargos públicos eletivos e também de nomeação avalizada pelo partido para o primeiro escalão de seus governos.

Esse contexto, associado ao da corrupção, mergulha o partido em uma crise que o consome e limita sua capacidade de enfrentar a oposição externa e, por extensão, estancar a sangria eleitoral visível na última campanha, quando perdeu espaços e viu seu principal adversário, o PSDB, aumentar em proporção inversa a bancada legislativa federal.

Trava ainda uma disputa renhida com seu rival principal na base de sustentação governo, o PMDB, prestes a conquistar a presidência da Câmara, o que se não ocorrer agravará a situação do governo, porque o terá mais hostil na convivência congressual.

Agora mesmo, a presidente Dilma se vê em meio ao conflito tentando o malabarismo de não agravar o descontentamento do PMDB, compensando-o com cargos no segundo escalão, prêmio que o PT queria para si.

O dilema da presidente é esse: para manter o PT na órbita palaciana descontentar o PMDB. Para não ter problemas com o PMDB, desagradar ao PT. É onde surge o plano de criação do PL, capítaneado pelo ministro das Cidades, Gilberto Kassab, com a intenção de , mais tarde, fundí-lo ao seu PSD e gerar um partido com número para rivalizar com os dois principais da base, notadamente o PMDB.

Se tentar agradar a todos, Dilma corre o risco de ampliar sua dependência junto a legendas menores e ao novo partido que resultar da fusão em curso no forno de Kassab. A aposta no programa recessivo de Levy é a melhor escolha, porque tem o ônus da impopularidade, em um primeiro momento, mas pode alcançar o objetivo de melhorar as consequências da crise para a população.

À fala presidencial de hoje à tarde será saudável seguir-se, com alguma regularidade, outras que façam o contribuinte perceber a condução da presidente no processo de rearrumação da economia. Do contrário, dada a gravidade da crise e a característica incontornável da receita para superá-la, o presidente, de fato, chamar-se-à, pelo menos por dois anos, Joaquim Levy.

A entrevista que ele cita da Marta Suplicy foi publicada aqui no blog no sábado. Recomendo que vocês leiam para entender melhor o quadro que ele desenhou. Ele falou também que o motivo do silêncio da presidente é a vontade de não desagradar alas internas do partido. Sabendo que as medidas tomadas por Levy seriam tomadas por qualquer ministro, você concorda com o ponto de vista defendido por João Bosco?

Até o próximo texto!

Por Ana Paula Ramos