Democracia?

Ainda sou bastante jovem e nunca tinha vivenciado um momento de instabilidade política, confesso que estou um pouco assustada com a proporção que cada comentário ganha. Imagino que isso seja muito novo até mesmo para quem já é velho de guerra porque a era da informação é uma coisa nova para todo mundo.

Hoje em dia não é mais possível derrubar um governo com meia dúzia de milicos marchando para a sede do poder executivo, a Turquia nos mostrou isso. Mas quando se consegue dividir a opinião pública a ponto de nenhum dos lados representar uma maioria que dite regras, as coisas ficam diferentes.

Para quem detém o poder o arsenal é bem variado, há os jornais de grande circulação, a TV, os blogs, as redes sociais e vários outros meios que são acessados por milhões de brasileiros diariamente. Outra coisa que pesa é que em tempos de Facebook e Twitter parece que pega mal você não exprimir opinião sobre o assunto do momento mesmo que você nunca tenha ouvido falar daquilo até então.

Todo mundo é livre para falar o que quiser, claro, mas eu fico impressionada com a falta de cuidado com a apuração dos fatos e com o excesso de paixão com que argumentos frágeis são defendidos. Talvez repetidos seja uma palavra que se encaixe melhor porque quando se tenta aprofundar o debate, a maioria das pessoas não sai do lugar comum e da superficialidade.

A situação que vivemos hoje no país é bastante complicada e não há donos da verdade, não há lado que valha a pena defender e, apesar de um dos lados falar insistentemente que luta pela democracia, o que está em jogo são interesses individuais. Vejo com clareza que o final dessa história já está escrito, mas surpresas podem acontecer, mesmo que seja improvável.

Para mim, a lição que fica é a de que ainda temos muito o que aprender sobre democracia, argumentação e embasamento de ideias porque quando um país inteiro é ludibriado por uma pequena parcela que está no poder é sinal de que ainda precisamos avançar no entendimento das ações dos nossos governantes. E mais do que só entender, precisamos fiscalizar, já que os poderes só o fazem quando estão com o orgulho ferido ou quando alguém com força e apoio suficiente resolve tomar a função para si, mas de forma completamente enviesada.

Tenho certeza que alguns vão dizer que a democracia brasileira estará morta no fim do dia de hoje. No auge da minha juventude arrisco dizer que nunca soubemos como ela é de fato, uma vez que vivemos em um modelo de fantasia desde que um certo milico resolveu proclamar a república movido pelos interesses da elite da época.

O episódio de hoje serve para mostrar que nada mudou, pequenos grupos continuam fazendo o que querem com o país e, apesar de ter ganhado voz na internet, o povo brasileiro ainda não consegue usar a força que tem. Precisamos aprender que discursos não garantem muita coisa quando são proferidos por políticos, eles se preocupam em dizer as palavras certas (em nome da moral e dos bons costumes) para o momento, não o que pensam e nem o que é correto.

Hoje eu ainda não sei dizer o que precisamos fazer para não sermos mais enganados dessa forma, mas tenho certeza que está na hora de refletir para tentar ver onde foi que erramos…

OP

Por Ana Paula Ramos

Bel Pesce e o poder da Internet

Essa semana um dos fatos que movimentou a internet foi o Crowdfunding criado pela Bel Pesce para a divulgação da hamburgueria Zebeléo, que ela, o Zé do blog Do Pão ao Caviar e o Léo, vencedor do 3º Masterchef estão abrindo. Se você não sabe nada do que estou falando, eu explico.

zebeleo

Após a final do programa da Band, cujo vencedor foi um dos sócios da empreitada, todo mundo tomou conhecimento do Crowdfunding (fundo de financiamento coletivo) que eles tinham feito para a hamburgueria. Não cheguei a ver o texto que eles usaram para motivar a campanha, porque fiquei sabendo do que estava acontecendo por uma notícia do HuffPost que um amigo mandou num grupo do Telegram.

Imagino que muitos tenham sabido da aventura da mesma forma que eu ou pelo Twitter, porque depois que esse post caiu na rede social, tomou uma proporção enorme que acabou levando os três sócios a desistirem da empreitada. Nessa outra matéria do HuffPost você consegue ver alguns comentários que foram feitos pelos usuários e você vai entender como a rede é terra de ninguém.

Tudo chega ao Twitter, e com uma velocidade incrível coisas pequenas podem se tornar uma bola de neve, claro que de cara também não achei lá muito adequada a ideia de financiar uma hamburgueria de pessoas que poderiam conseguir outra forma de arrecadação, mas percebi que a maior parte das críticas centrava-se no fato de Crowdfunding ser usado para dar vida a projetos sociais, não a negócios.

Aqui entra a primeira ponderação que fiz quando vi as notícias: “Pô, a Bel Pesce é meio grilo feliz, mas ela sabe o que ela tá fazendo, né?! Ela não ia usar a plataforma errada para viabilizar o negócio dela, eu acho.” Assim, bem incerta mesmo, porque eu achei a matéria bem sarcástica e costumo não gostar de cara de matérias como essa, porque a parcialidade do jornalista fica muito na cara…

Aí resolvi pesquisar o conceito e vi que logo de cara o financiamento coletivo é usado para criar projetos que deem retorno para a sociedade. Então apesar da prática de usar para projetos sociais, poderia não ser um pecado usar para outras ideias, desde que tragam retorno para sociedade. Logo de cara não consegui imaginar o que eles entregariam de volta e como a resposta deveria estar na própria campanha fui atrás, mas me deparei com a nota da Bel Pesce dizendo que ia encerrar o projeto deixando claro ali qual seria a contrapartida que a hamburgueria inovadora promoveria.

Mas colocar na nota é uma coisa, né?! Será que isso estava claro para qualquer um que tivesse acesso a campanha? Quando abri a página, o vídeo de divulgação ainda estava no ar e pude assistir aos 8 minutos para ajudar a formar minha opinião. Eles usaram metade do tempo para apresentar cada um e dizer como os três se conheceram, depois mostraram como surgiu a ideia da hamburgueria e que queriam trazer muita inovação com ela. Por fim, a Bel entra em cena para dizer que a ideia era multiplicar o conhecimento adquirido no processo para ajudar pessoas que tem ideias empreendedoras a abrir o próprio negócio.

Opa! Isso pode ser considerado retorno para a sociedade, né?! E confesso que achei bem diferente, já que normalmente as pessoas estão preocupadas em manter o negócio vivo e não em multiplicar o conhecimento que vão ganhando com as experiências que passam. Mesmo sem ter acesso ao texto completo da campanha eu continuei achando que o foco tinha que ter sido maior nessa parte e não na maneira como eles se conheceram, mas eu nem sou comunicadora, então resolvi pesquisar um pouco mais para tentar entender essa loucura.

Nesse ponto eu já sabia o conceito, já vi que eles tinha errado na forma de apresentação, mas que cumpriam com o princípio básico do financiamento coletivo. Ainda assim é bem estranho ver um negócio sendo financiado dessa maneira… Parece que você vai estar botando grana em uma coisa que nem é sua e vai dar lucro para outros, é bem louco mesmo.

Foi aí que descobri que existe uma coisa chamada Equity Crowdfunding, que tem basicamente a mesma ideia, mas em vez de consumidor de um produto você passa a ser investidor em um negócio. E existem plataformas específicas para isso como a do link ali de cima. Essa modalidade já está em vigor no Brasil desde 2010 e, nos EUA, foi autorizada pela CVM de lá no fim do ano passado.

Ou seja, os níveis de investimento podem ser levados a outros níveis por essa modalidade, mas ficou claro pela nota da Bel que não era esse tipo de investimento que eles queriam e que o conceito de Crowdfunding vai além de vaquinha digital. Onde eu quero chegar com tudo isso? Na velha história de que brasileiro (não estou excluindo o resto do mundo, mas não sei dizer como a sociedade de outros países funciona, desculpa aí faltou intimidade) não corre atrás de informações concretas antes de emitir opinião.

O grupo que o amigo enviou aquele link da matéria sarcástica fervilhou de debates da noite de quinta até sexta a tarde, porque eu não conseguia aceitar no meu coração que uma pessoa conhecida por disseminar o empreendedorismo apostaria tão errado em um negócio. Mas o fato é: o trio pecou em vários aspectos, principalmente por não trabalhar a ideia de que o financiamento coletivo não é só para projeto social, uma coisa já bastante difundida fora do país.

Mas o que nós vimos de novo foi uma enxurrada de críticas que, na maioria dos casos, era só por repetição, não fruto de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. E como tudo no mundo é interligado (tô interiorizando essa ideia) isso serve para mostrar porque a nossa situação política é tão complicada. Estamos acostumados a formar opinião pelo que os outros falam não por investigação em várias fontes aí quando criticamos, não sabemos defender nosso argumento com propriedade porque eles não são nossos, são apenas reprodução de algo que aparentemente faz sentido. O problema é que é apenas um dos lados e não um quadro mais completo da situação.

Por isso quero deixar registrado aqui que o problema, caro leitor, não é criticar a hamburgueria da Bel Pesce, e sim a forma que você embasou seus argumentos. E isso serve para qualquer tema da vida, principalmente a política, onde os meios de comunicação muitas vezes pertencem aos que são alvo da matéria ou são alimentados por informações que um político ou outro acha que deve divulgar para se promover ou para derrubar algum adversário.

Em tempos de Twitter, falar é muito legal, mas falar com propriedade é habilidade para poucos.

Por Ana Paula Ramos

Tempo, tempo, tempo…

Amanhã faz um ano que escrevi o último post desse blog, não porque não quis mais falar sobre política, mas porque as voltas que a vida dá me deixaram meio que sem saber o que escrever diante de tudo o que vinha ocorrendo. Mas já faz algumas semanas que ando namorando o blog e pensando se deveria voltar a escrever e, mais importante de tudo, o que deveria escrever.

Pode parecer muito fácil para quem lê, mas para quem escreve nem sempre o processo de criação de uma postagem é simples, principalmente quando você colhe informações de fontes secundárias. Em tempos de impeachment isso fica cada vez mais claro, sempre soube que a imprensa nunca foi parcial, mas é muito diferente quando você enxerga manipulações grotescas com os próprios olhos.

Já disse várias vezes que não acho que a minha opinião seja melhor ou pior que a de ninguém, ela só é minha e depois de um ano recolhida senti vontade novamente de escrever. Não para contaminar as pessoas com as minhas ideias, mas para que no futuro eu possa ler o que escrevi hoje e perceber se houve evolução no meu pensamento.

Auto avaliação é uma coisa muito difícil, mas aproveitei o momento de nostalgia e olhei outro blog que escrevia na época da faculdade em conjunto com algumas amigas e foi interessante ver quem eu era naquela época. Cinco anos depois vi que algumas coisas mudaram, alguns argumentos eram rasos demais até para um blog, mas ainda assim eu achava que estava arrasando e me sentia super bem por escrever.

Aproveitando a dica do meu marido, acho que vou continuar a falar de política aqui, só que de uma forma diferente. De um jeito que eu consiga entender melhor os conceitos da Teoria Política e guiada pelos precursores do pensamento político, quem sabe assim essa loucura que está acontecendo não passa a fazer mais sentido…

Sem querer provar que o meu argumento é melhor do que o do outro eu vou seguindo e escrevendo para que a Ana do futuro possa entender como suas opiniões a guiaram até o ponto que ela estará.

Por Ana Paula Ramos

Pensando na morte da bezerra…

Eu estava aqui divagando e pensando nas manifestações de março e desse mês e como sempre chego a mesma conclusão: as pessoas querem algo, mas não sabem o que e nem como conseguir. No final das contas todo mundo quer a mesma coisa, menos corrupção e excelência nos serviços públicos, mas falta organização para cobrar com mais consistência.

Acho que o problema não é explicar o que queremos, os políticos estão carecas de saber. Só precisamos de um sistema de cobrança organizado e para isso precisamos olhar com atenção o que é feito pelos deputados e senadores talvez seja uma forma de começar. Se você clama por mudanças no nosso sistema político e não sabe que desde fevereiro os deputados estão reunidos na Comissão Especial da Reforma Política, é bom dar uma olhada nessa página AQUI e ver tudo o que já aconteceu por lá.

post

Entre audiências públicas e seminários, muitos assuntos já foram levantados e o que agrada grande parte dos deputados é o financiamento exclusivamente público de campanhas. Lembra aquela coisa que eu falei em um dos posts daqui sobre o fato de errarmos o timing das reivindicações? Então, se quisermos ingerir sobre o processo da Reforma Política a hora é ESSA! Veja os deputados que compõem a comissão e cobrem o posicionamento deles. Organizem-se em grupos, quanto mais pessoas defendendo a mesma ideia melhor para ouvi-la.

As audiências públicas em sua maioria acontecem fora de Brasília, então se a próxima for no seu estado e você puder, participe, entenda o que está sendo debatido, converse com amigos e espalhe o tema. Quanto mais gente sabendo dessa comissão e da possibilidade de participar, melhor. A nossa democracia só tem a crescer com isso.

Sabemos que as ruas são apartidárias, mas essa união em torno de grupos que estou falando não precisa ser um partido. Pode ser um monte de gente interessada em participar mais dos processos da Câmara, o que importa é que precisa haver uma unidade e talvez em algum momento seja necessário a presença de um porta voz, que traduz os anseios do grupo para o mundo. Não tem como 50 pessoas falarem ao mesmo tempo e serem compreendidas, então pensem nessa pessoa como alguém com boa oratória e capacidade de negociação. A ideia é que a pessoa apenas seja um elo e não a dona do grupo ou das ideias defendidas por ele.

Na minha cabeça essa coisa de impeachment é uma bandeira meio esquisita porque, tirando o fato de que não há provas concretas do envolvimento da presidente nos escândalos, as reações disso podem tomar dimensões catastróficas. Não basta só pedir impeachment, é preciso entender quem assume, como fica a situação já frágil do país e principalmente a situação política. Dois impeachments em 21 anos é de arrepiar até cabelo de ovo, é um sinal claro de instabilidade política que com certeza pioraria ainda mais nossa situação econômica.

Não sei quem conseguiu incutir isso na cabeça de tantos brasileiros, mas deixei aqui uma dica que considero mais eficaz que essa. Se você tá cansado de tanta roubalheira, fique de olho nas comissões do Congresso e participe dos debates.

Por Ana Paula Ramos

Câmara em Movimento

A Câmara Legislativa do Distrito Federal está com um projeto chamado Câmara em Movimento. O objetivo é levar sessões da Câmara a várias cidades do DF. Na primeira edição, de fevereiro, a sessão foi levada a Rodoviária do Plano Piloto e a segunda edição acontecerá amanhã na Ceilândia.

A partir das 15h, os deputados estarão em frente ao restaurante comunitário da cidade. A escolha tem relação com o aniversário da cidade, que será sexta feira. Depois de seguir a pauta do dia, a sessão será transformada em audiência pública para ouvir as reivindicações dos moradores.

Se você é da cidade e tem algo, que entra nas competências de legislar da Câmara, para reclamar ou reivindicar encaminhe-se ao local da sessão que você tem grandes chances de ser ouvido.

Achei a iniciativa bem interessante, mas ainda não conheci ninguém que tenha ido para saber como foi e se ela realmente é interessante para a população. Se você for ou conhecer alguém que foi, peça para compartilhar a experiência aqui nos comentários ou pelo e-mail do blog!

Boa sessão aos que forem!

Por Ana Paula Ramos.

E se mudarmos o olhar?

Essa semana fiquei olhando os textos de opinião em busca de algo que pudesse me dizer o que podemos esperar dos nossos governantes após as manifestações do dia 15. Claro que a gente espera que nossos problemas sejam resolvidos, mas costumamos colocar tudo na conta da presidente esquecendo que nos estados existem Chefes do Executivo também…

Nessa procura achei um texto do Renato Janine, no Jornal Valor Econômico, e ele tentou lançar uma nova hipótese para que possamos pensar e analisar a situação de Dilma. Confesso que nunca tinha olhado as coisas sob essa lente e acho que vale muito a pena ler e dar o benefício da dúvida a essa nova conjectura.

Não a assumo como verdade, mas acho que é uma hipótese possível, como várias outras. Lança uma luz diferente sob a incapacidade de governar de Dilma e nos faz pensar como esse é o objetivo principal do blog compartilho o texto com todos para que discordem, concordem ou criem suas próprias análises:

Será que desejamos o Impossível?

Por Renato Janine, no Valor Econômico

Queremos um governo que seja eficiente e honesto, mas sabemos que ter as duas coisas é bem difícil no Brasil de hoje

Um princípio básico da ciência é que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que dê melhor conta deles. Este princípio me ocorreu há poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da República por seu estilo de pouca negociação. Até ficamos espantados: como sobe à presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas aí parei. Nunca é bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer política. Só que…

Se isso não for óbvio? Se nosso ponto de partida estiver errado?

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e até mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas – inclusive a Terra – em torno do Sol descrevem órbitas mais regulares. Essa, a lição científica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da política, indagar o que ela efetivamente pretende.

Dá para governar bem e ser honesto no Brasil?

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questioná-la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num País em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, trânsito livre pelo mundo dos políticos?

Essa é a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma política competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem está a sua volta, o que politicamente é inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da política. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode até governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detestá-las para superá-las?

A hipótese passa a ser: e se o “momentum” Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nós? Em nós, analistas da política e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade.

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando o governo estadual – que é do PSDB – negociou com o PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memória.

E ouvi de Drauzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a polícia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso é inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo o crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui-los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto é, num REGIME em que o Congresso pouco decidia, o assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos-leis pelos parlamentares, que ia abrir o “barril de peixe podre”. Imagina-se o odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem.

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: “Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas”. Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. “Não quero nem saber!”

E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?

Esta é uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprová-la e apoiá-la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria política, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto é, a ação – e inação – de Dilma, melhor do que a suposição de que ela é inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanálise não ajuda a entender o ódio crescente a ela. Ódio ao outro é projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, às escâncaras, um dilema que queremos esconder de nós. Queremos a honestidade sem pagar o preço por ela. Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bençãos. O dinheiro que é roubado da sociedade virá a nós como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso dá trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, “informais” dizemos às vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a política não é só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos.

Confesso que achei o texto muito bem escrito e com uma construção de ideias que não me deixou dúvidas de que isso nada mais é que a criação de uma hipótese, o autor não me passou a impressão de querer enfiar essa opinião goela abaixo e nem de que ele próprio acredita nisso com afinco. Passa a ideia de que isso poderia acontecer porque como ele mesmo falou, governar no Brasil com honestidade é uma coisa muito complicada pelo fato de haver uma relação de dependência entre os poderes.

Acrescentei essa nova linha de pensamento no meu caderninho.

Por Ana Paula Ramos.

Sobre panelaço, elite branca e varandas gourmet

Meu namorado me mostrou esse texto e resolvi compartilhar porque ele reflete o meu sentimento com relação a reação do governo ante ao descontentamento da população. Eu sei que hoje a pauta é a manifestação, mas vamos voltar um pouco no tempo e lembrar dos panelaços que algumas cidades, como a minha, viveram no último dia 8.

Eu não bati panela e nem fui a manifestação porque não concordo com o impeachment, na verdade ao acompanhar pela TV percebi que perdi uma boa oportunidade de manifestar minha insatisfação porque essa não foi a bandeira principal, pelo menos aqui em Brasília.

Mas enfim, estou descontente com o governo pelos desvios da petrobrás, pela mentirada durante as eleições, pela tentativa de continuar escondendo sua própria incompetência para conduzir a economia, pela inflação que faz as compras do mês ficarem cada vez mais caras, pelo aumento da energia, pelo assalto dos postos de gasolina, pela dificuldade em agir para salvar a petrobras no mercado financeiro, pela diminuição dos investimentos em educação apesar da afirmação de que somos uma pátria educadora, pelo perdão aos mensaleiros,  por uma lista de coisas que não para de crescer.

Outra coisa que me deixa indignada é essa divisão entre: conformados = petralhas, inconformados = coxinhas; Gente, somos bem melhores do que isso, todo mundo concorda que a situação não está fácil para ninguém e que não tem nada a ver com a ascensão social de seu ninguém. Tem a ver com a perda de poder de compra do real e com serviços básicos que quando são oferecidos não tem qualidade.

Eu sou branca, se é que alguém nesse país pode dizer isso, mas não sou elite e acho que o impeachment traria mais problemas que benefícios a nossa nação. Primeiro porque não temos ideia de quem poderá assumir as rédeas da situação e segundo porque para a economia esse seria o golpe final. Não precisamos adicionar instabilidade política ao nosso cenário já tão volátil.

Precisamos de respeito e de um governo que assuma seus erros e não só seus acertos. Que reconheça que a culpa não é só da crise internacional e que as atitudes não tomadas nos últimos quatro anos contribuíram para o aprofundamento da nossa crise interna.

Nossa situação não é simples e parem de cair nessa pilha de que quem critica o governo tá achando ruim porque os aeroportos foram ampliados e pobre viaja de avião. Ninguém está dando a mínima para isso, ninguém ia bater panela enquanto a presidente fala por uma razão tão pífia e também não iria juntar um milhão em SP e mais uma porrada de gente Brasil a fora, em TODAS as regiões independente da quantidade de manifestantes e da cidade. Até porque não foram só as capitais que tiveram manifestações, alguma cidades interioranas também.

Então não sejam simplistas e rotuladores, nossa situação precisa de bem mais do que isso.

Desabafo feito, leiam esse texto de um dono de varanda gourmet e me digam o que vocês acham do motivo que o levou a bater panela no dia 8. O nome do autor é Cesar Manieri e você pode acessar o texto original no blog dele AQUI:

Eu sou sou proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Esta semana eu li nos sites de notícias e vi comentários de amigos em redes sociais sobre isso e acabei refletindo a nossa atual situação neste país. Sim, moro em um apartamento com “varanda gourmet” e bati panela também, mas após ler um monte de bobagens sobre o panelaço, uma tristeza invadiu meu coração e foi grande quando percebi que fui cerceado do meu direito de ser um digno proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Porque fiquei tão triste e totalmente sem esperança de viver em um país decente? Vou contar minha história, que deve ser muito parecida com quase todos os dignos proprietários de “varandas gourmet” espalhadas pelo país. Foi assim: Meus antepassados e avós paternos foram imigrantes que vieram da Itália no fim do séc. XIX início do séc. XX. Vieram fugindo da fome e da guerra. Fugiram do nazismo e do fascismo que despertava naquele continente. Meus avós paternos se estabeleceram no interior do Paraná. Na “terra rossa”. Passaram fome, enfrentaram doenças enquanto criavam os filhos. Meus avós maternos já nasceram no Brasil do inicio do século XX. Minha avó materna veio de uma família que aparentemente tinha posses, mas por conta da guerra, perderam parte do que tinham. Por isso, minha avó materna (que era descendentes de índios), para fugir do assedio do padrasto, aos 13 anos se casou com o meu avô (que era descendente de africanos mas de origem misteriosa). Ele já tinha mais de 25 anos com certeza. Meus avós paternos tiveram 8 filhos e os maternos 18 (5 morreram). Entre toda essa turma, nasceram meu pai e minha mãe. Todos trabalharam na roça. Todos tiveram muitos filhos. Gente simples. Meu pai veio para São Paulo em 1945 com 13 anos e logo começou a trabalhar nas indústrias da capital. Minha mãe fez o mesmo trajeto e veio trabalhar nas casas das famílias quatrocentonas abastadas dos barões do café e nos palacetes e grandes apartamentos dos industriais paulistanos. Meu pai era técnico de elevadores e por uma coincidência do destino conheceu minha mãe quando ele estava consertando um elevador de um dos prédios onde ela trabalhava. Meu pai trabalhou por 45 anos para nos educar, eu e meus 2 irmãos e minha irmã. Começou construindo sua casa na periferia de São Paulo. Era um porão úmido construído em uma rua lamacenta fruto do loteamento do haras Patente na divisa com São Caetano do Sul. Com apenas o ensino fundamental, sabia que precisaria estudar e trabalhar muito para levantar a casa dele. E foi o que ele fez. Se preparou, estudou e se tornou um ótimo técnico eletrônico e eletricista. Homem correto. Minha mãe lutadora e dona de casa. Meu pai era metalúrgico e do sindicato e já me dizia nos anos 70 sobre a “índole de filho da puta” de muitos de seus integrantes, inclusive do Lula. Meus pais criaram os 4 filhos. Suaram, correram, choraram. Eu segui seus passos com dignidade e retidão. Da minha mãe herdei a força da luta diária, da resignação e da resiliência, do amor a família. Eu trabalhei duro durante 30 anos, estudei tudo que podia, mas estudar nunca é demais, me preparei como meu pai. Construi minha vida assim, como meus pais me mostraram. Trabalhei duro. Por mérito meu e da minha esposa, conseguimos comprar nosso apartamento com “varanda gourmet”  para criar nossos filhos. Paguei cada centavo, cada juro extorsivo e abusivo cobrado pelos bancos. Recentemente fui demitido da indústria, que está ultimamente fracassada nesse país. Então, ouvindo um chamado, a minha voz, resolvi empreender e no momento que nossa pequena empresa iniciou a decolagem fomos surpreendidos por toda essa merda de cenário atual e por toda essa turbulência política. Foi ai que chegamos no dia 8 de Março de 2015. Cento e quinze anos depois da chegada dos meus avós ao Brasil fugindo da crise da Europa. E após ler argumentos de jornalistas de “peso” sobre a “elite branca” que protesta contra a presidente do Brasil e seu partido energúmeno, fiquei profundamente sem palavras. Sim, eu fui ofendido, pois para eu estar aqui na “varanda gourmet” derramei muito suor. Abri mão de muita coisa e muitas vezes escolhi trabalho extra pra ter o que tenho. Não aceito ser tolhido do meu direito de mandar todos os políticos e pessoas corruptas, seus corruptores, a Dilma, o Lula , o PT, Aécios , os comunistas, idiotas úteis e afins e todos os seus simpatizantes Tomar no meio do Cu. Tenho o direito de expressar meu sentimento de indignação e dor. Mando e vou mandar sempre que eu for desrespeitado como brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor dos meus deveres. Eles ofendem meus antepassados e meus descendentes. Eles desrespeitam meus antepassados que viveram e morreram para que eu pudesse ter meu apartamento com “varanda gourmet”. Não aprendi a xingar em casa no seio da família. Meus pais me ensinaram o respeito ao próximo, os valores e as condutas morais e  virtuosas e me deram a liberdade de crer em Deus. Me ensinaram a não pegar nada de ninguém. Pecado gravíssimo. Uma desonra. Aprendi a xingar nas ruas lamacentas e nos terrenos baldios cheios de mato do Jardim Patente quando era desrespeitado em meus simples direitos de moleque de rua, mas mesmo assim sabíamos quando xingar. Tínhamos nosso código de ética. Nunca usarei meu direito de xingar em vão. Portanto, políticos corruptos e seus corruptores e todos os vendidos que apoiam a situação atual, que nem chegaram a condição de merda humana, seus peidos fracassados, lavem a boca antes de falar sobre quem literalmente construiu e constrói esse país, que somos nós, as famílias brasileiras, que criam seus filhos, que tem valores, princípios e conduta moral, que tem história de luta verdadeira, que não tem nada de revolucionária, coisa que vocês, donos do poder, não tem nem ideia do que seja. Ou se tiveram um dia, já se esqueceram, iludidos pela ganancia do poder e pelo dinheiro fácil.

O que acharam?

Por Ana Paula Ramos.