Bel Pesce e o poder da Internet

Essa semana um dos fatos que movimentou a internet foi o Crowdfunding criado pela Bel Pesce para a divulgação da hamburgueria Zebeléo, que ela, o Zé do blog Do Pão ao Caviar e o Léo, vencedor do 3º Masterchef estão abrindo. Se você não sabe nada do que estou falando, eu explico.

zebeleo

Após a final do programa da Band, cujo vencedor foi um dos sócios da empreitada, todo mundo tomou conhecimento do Crowdfunding (fundo de financiamento coletivo) que eles tinham feito para a hamburgueria. Não cheguei a ver o texto que eles usaram para motivar a campanha, porque fiquei sabendo do que estava acontecendo por uma notícia do HuffPost que um amigo mandou num grupo do Telegram.

Imagino que muitos tenham sabido da aventura da mesma forma que eu ou pelo Twitter, porque depois que esse post caiu na rede social, tomou uma proporção enorme que acabou levando os três sócios a desistirem da empreitada. Nessa outra matéria do HuffPost você consegue ver alguns comentários que foram feitos pelos usuários e você vai entender como a rede é terra de ninguém.

Tudo chega ao Twitter, e com uma velocidade incrível coisas pequenas podem se tornar uma bola de neve, claro que de cara também não achei lá muito adequada a ideia de financiar uma hamburgueria de pessoas que poderiam conseguir outra forma de arrecadação, mas percebi que a maior parte das críticas centrava-se no fato de Crowdfunding ser usado para dar vida a projetos sociais, não a negócios.

Aqui entra a primeira ponderação que fiz quando vi as notícias: “Pô, a Bel Pesce é meio grilo feliz, mas ela sabe o que ela tá fazendo, né?! Ela não ia usar a plataforma errada para viabilizar o negócio dela, eu acho.” Assim, bem incerta mesmo, porque eu achei a matéria bem sarcástica e costumo não gostar de cara de matérias como essa, porque a parcialidade do jornalista fica muito na cara…

Aí resolvi pesquisar o conceito e vi que logo de cara o financiamento coletivo é usado para criar projetos que deem retorno para a sociedade. Então apesar da prática de usar para projetos sociais, poderia não ser um pecado usar para outras ideias, desde que tragam retorno para sociedade. Logo de cara não consegui imaginar o que eles entregariam de volta e como a resposta deveria estar na própria campanha fui atrás, mas me deparei com a nota da Bel Pesce dizendo que ia encerrar o projeto deixando claro ali qual seria a contrapartida que a hamburgueria inovadora promoveria.

Mas colocar na nota é uma coisa, né?! Será que isso estava claro para qualquer um que tivesse acesso a campanha? Quando abri a página, o vídeo de divulgação ainda estava no ar e pude assistir aos 8 minutos para ajudar a formar minha opinião. Eles usaram metade do tempo para apresentar cada um e dizer como os três se conheceram, depois mostraram como surgiu a ideia da hamburgueria e que queriam trazer muita inovação com ela. Por fim, a Bel entra em cena para dizer que a ideia era multiplicar o conhecimento adquirido no processo para ajudar pessoas que tem ideias empreendedoras a abrir o próprio negócio.

Opa! Isso pode ser considerado retorno para a sociedade, né?! E confesso que achei bem diferente, já que normalmente as pessoas estão preocupadas em manter o negócio vivo e não em multiplicar o conhecimento que vão ganhando com as experiências que passam. Mesmo sem ter acesso ao texto completo da campanha eu continuei achando que o foco tinha que ter sido maior nessa parte e não na maneira como eles se conheceram, mas eu nem sou comunicadora, então resolvi pesquisar um pouco mais para tentar entender essa loucura.

Nesse ponto eu já sabia o conceito, já vi que eles tinha errado na forma de apresentação, mas que cumpriam com o princípio básico do financiamento coletivo. Ainda assim é bem estranho ver um negócio sendo financiado dessa maneira… Parece que você vai estar botando grana em uma coisa que nem é sua e vai dar lucro para outros, é bem louco mesmo.

Foi aí que descobri que existe uma coisa chamada Equity Crowdfunding, que tem basicamente a mesma ideia, mas em vez de consumidor de um produto você passa a ser investidor em um negócio. E existem plataformas específicas para isso como a do link ali de cima. Essa modalidade já está em vigor no Brasil desde 2010 e, nos EUA, foi autorizada pela CVM de lá no fim do ano passado.

Ou seja, os níveis de investimento podem ser levados a outros níveis por essa modalidade, mas ficou claro pela nota da Bel que não era esse tipo de investimento que eles queriam e que o conceito de Crowdfunding vai além de vaquinha digital. Onde eu quero chegar com tudo isso? Na velha história de que brasileiro (não estou excluindo o resto do mundo, mas não sei dizer como a sociedade de outros países funciona, desculpa aí faltou intimidade) não corre atrás de informações concretas antes de emitir opinião.

O grupo que o amigo enviou aquele link da matéria sarcástica fervilhou de debates da noite de quinta até sexta a tarde, porque eu não conseguia aceitar no meu coração que uma pessoa conhecida por disseminar o empreendedorismo apostaria tão errado em um negócio. Mas o fato é: o trio pecou em vários aspectos, principalmente por não trabalhar a ideia de que o financiamento coletivo não é só para projeto social, uma coisa já bastante difundida fora do país.

Mas o que nós vimos de novo foi uma enxurrada de críticas que, na maioria dos casos, era só por repetição, não fruto de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. E como tudo no mundo é interligado (tô interiorizando essa ideia) isso serve para mostrar porque a nossa situação política é tão complicada. Estamos acostumados a formar opinião pelo que os outros falam não por investigação em várias fontes aí quando criticamos, não sabemos defender nosso argumento com propriedade porque eles não são nossos, são apenas reprodução de algo que aparentemente faz sentido. O problema é que é apenas um dos lados e não um quadro mais completo da situação.

Por isso quero deixar registrado aqui que o problema, caro leitor, não é criticar a hamburgueria da Bel Pesce, e sim a forma que você embasou seus argumentos. E isso serve para qualquer tema da vida, principalmente a política, onde os meios de comunicação muitas vezes pertencem aos que são alvo da matéria ou são alimentados por informações que um político ou outro acha que deve divulgar para se promover ou para derrubar algum adversário.

Em tempos de Twitter, falar é muito legal, mas falar com propriedade é habilidade para poucos.

Por Ana Paula Ramos

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