Democracia?

Ainda sou bastante jovem e nunca tinha vivenciado um momento de instabilidade política, confesso que estou um pouco assustada com a proporção que cada comentário ganha. Imagino que isso seja muito novo até mesmo para quem já é velho de guerra porque a era da informação é uma coisa nova para todo mundo.

Hoje em dia não é mais possível derrubar um governo com meia dúzia de milicos marchando para a sede do poder executivo, a Turquia nos mostrou isso. Mas quando se consegue dividir a opinião pública a ponto de nenhum dos lados representar uma maioria que dite regras, as coisas ficam diferentes.

Para quem detém o poder o arsenal é bem variado, há os jornais de grande circulação, a TV, os blogs, as redes sociais e vários outros meios que são acessados por milhões de brasileiros diariamente. Outra coisa que pesa é que em tempos de Facebook e Twitter parece que pega mal você não exprimir opinião sobre o assunto do momento mesmo que você nunca tenha ouvido falar daquilo até então.

Todo mundo é livre para falar o que quiser, claro, mas eu fico impressionada com a falta de cuidado com a apuração dos fatos e com o excesso de paixão com que argumentos frágeis são defendidos. Talvez repetidos seja uma palavra que se encaixe melhor porque quando se tenta aprofundar o debate, a maioria das pessoas não sai do lugar comum e da superficialidade.

A situação que vivemos hoje no país é bastante complicada e não há donos da verdade, não há lado que valha a pena defender e, apesar de um dos lados falar insistentemente que luta pela democracia, o que está em jogo são interesses individuais. Vejo com clareza que o final dessa história já está escrito, mas surpresas podem acontecer, mesmo que seja improvável.

Para mim, a lição que fica é a de que ainda temos muito o que aprender sobre democracia, argumentação e embasamento de ideias porque quando um país inteiro é ludibriado por uma pequena parcela que está no poder é sinal de que ainda precisamos avançar no entendimento das ações dos nossos governantes. E mais do que só entender, precisamos fiscalizar, já que os poderes só o fazem quando estão com o orgulho ferido ou quando alguém com força e apoio suficiente resolve tomar a função para si, mas de forma completamente enviesada.

Tenho certeza que alguns vão dizer que a democracia brasileira estará morta no fim do dia de hoje. No auge da minha juventude arrisco dizer que nunca soubemos como ela é de fato, uma vez que vivemos em um modelo de fantasia desde que um certo milico resolveu proclamar a república movido pelos interesses da elite da época.

O episódio de hoje serve para mostrar que nada mudou, pequenos grupos continuam fazendo o que querem com o país e, apesar de ter ganhado voz na internet, o povo brasileiro ainda não consegue usar a força que tem. Precisamos aprender que discursos não garantem muita coisa quando são proferidos por políticos, eles se preocupam em dizer as palavras certas (em nome da moral e dos bons costumes) para o momento, não o que pensam e nem o que é correto.

Hoje eu ainda não sei dizer o que precisamos fazer para não sermos mais enganados dessa forma, mas tenho certeza que está na hora de refletir para tentar ver onde foi que erramos…

OP

Por Ana Paula Ramos

Bel Pesce e o poder da Internet

Essa semana um dos fatos que movimentou a internet foi o Crowdfunding criado pela Bel Pesce para a divulgação da hamburgueria Zebeléo, que ela, o Zé do blog Do Pão ao Caviar e o Léo, vencedor do 3º Masterchef estão abrindo. Se você não sabe nada do que estou falando, eu explico.

zebeleo

Após a final do programa da Band, cujo vencedor foi um dos sócios da empreitada, todo mundo tomou conhecimento do Crowdfunding (fundo de financiamento coletivo) que eles tinham feito para a hamburgueria. Não cheguei a ver o texto que eles usaram para motivar a campanha, porque fiquei sabendo do que estava acontecendo por uma notícia do HuffPost que um amigo mandou num grupo do Telegram.

Imagino que muitos tenham sabido da aventura da mesma forma que eu ou pelo Twitter, porque depois que esse post caiu na rede social, tomou uma proporção enorme que acabou levando os três sócios a desistirem da empreitada. Nessa outra matéria do HuffPost você consegue ver alguns comentários que foram feitos pelos usuários e você vai entender como a rede é terra de ninguém.

Tudo chega ao Twitter, e com uma velocidade incrível coisas pequenas podem se tornar uma bola de neve, claro que de cara também não achei lá muito adequada a ideia de financiar uma hamburgueria de pessoas que poderiam conseguir outra forma de arrecadação, mas percebi que a maior parte das críticas centrava-se no fato de Crowdfunding ser usado para dar vida a projetos sociais, não a negócios.

Aqui entra a primeira ponderação que fiz quando vi as notícias: “Pô, a Bel Pesce é meio grilo feliz, mas ela sabe o que ela tá fazendo, né?! Ela não ia usar a plataforma errada para viabilizar o negócio dela, eu acho.” Assim, bem incerta mesmo, porque eu achei a matéria bem sarcástica e costumo não gostar de cara de matérias como essa, porque a parcialidade do jornalista fica muito na cara…

Aí resolvi pesquisar o conceito e vi que logo de cara o financiamento coletivo é usado para criar projetos que deem retorno para a sociedade. Então apesar da prática de usar para projetos sociais, poderia não ser um pecado usar para outras ideias, desde que tragam retorno para sociedade. Logo de cara não consegui imaginar o que eles entregariam de volta e como a resposta deveria estar na própria campanha fui atrás, mas me deparei com a nota da Bel Pesce dizendo que ia encerrar o projeto deixando claro ali qual seria a contrapartida que a hamburgueria inovadora promoveria.

Mas colocar na nota é uma coisa, né?! Será que isso estava claro para qualquer um que tivesse acesso a campanha? Quando abri a página, o vídeo de divulgação ainda estava no ar e pude assistir aos 8 minutos para ajudar a formar minha opinião. Eles usaram metade do tempo para apresentar cada um e dizer como os três se conheceram, depois mostraram como surgiu a ideia da hamburgueria e que queriam trazer muita inovação com ela. Por fim, a Bel entra em cena para dizer que a ideia era multiplicar o conhecimento adquirido no processo para ajudar pessoas que tem ideias empreendedoras a abrir o próprio negócio.

Opa! Isso pode ser considerado retorno para a sociedade, né?! E confesso que achei bem diferente, já que normalmente as pessoas estão preocupadas em manter o negócio vivo e não em multiplicar o conhecimento que vão ganhando com as experiências que passam. Mesmo sem ter acesso ao texto completo da campanha eu continuei achando que o foco tinha que ter sido maior nessa parte e não na maneira como eles se conheceram, mas eu nem sou comunicadora, então resolvi pesquisar um pouco mais para tentar entender essa loucura.

Nesse ponto eu já sabia o conceito, já vi que eles tinha errado na forma de apresentação, mas que cumpriam com o princípio básico do financiamento coletivo. Ainda assim é bem estranho ver um negócio sendo financiado dessa maneira… Parece que você vai estar botando grana em uma coisa que nem é sua e vai dar lucro para outros, é bem louco mesmo.

Foi aí que descobri que existe uma coisa chamada Equity Crowdfunding, que tem basicamente a mesma ideia, mas em vez de consumidor de um produto você passa a ser investidor em um negócio. E existem plataformas específicas para isso como a do link ali de cima. Essa modalidade já está em vigor no Brasil desde 2010 e, nos EUA, foi autorizada pela CVM de lá no fim do ano passado.

Ou seja, os níveis de investimento podem ser levados a outros níveis por essa modalidade, mas ficou claro pela nota da Bel que não era esse tipo de investimento que eles queriam e que o conceito de Crowdfunding vai além de vaquinha digital. Onde eu quero chegar com tudo isso? Na velha história de que brasileiro (não estou excluindo o resto do mundo, mas não sei dizer como a sociedade de outros países funciona, desculpa aí faltou intimidade) não corre atrás de informações concretas antes de emitir opinião.

O grupo que o amigo enviou aquele link da matéria sarcástica fervilhou de debates da noite de quinta até sexta a tarde, porque eu não conseguia aceitar no meu coração que uma pessoa conhecida por disseminar o empreendedorismo apostaria tão errado em um negócio. Mas o fato é: o trio pecou em vários aspectos, principalmente por não trabalhar a ideia de que o financiamento coletivo não é só para projeto social, uma coisa já bastante difundida fora do país.

Mas o que nós vimos de novo foi uma enxurrada de críticas que, na maioria dos casos, era só por repetição, não fruto de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. E como tudo no mundo é interligado (tô interiorizando essa ideia) isso serve para mostrar porque a nossa situação política é tão complicada. Estamos acostumados a formar opinião pelo que os outros falam não por investigação em várias fontes aí quando criticamos, não sabemos defender nosso argumento com propriedade porque eles não são nossos, são apenas reprodução de algo que aparentemente faz sentido. O problema é que é apenas um dos lados e não um quadro mais completo da situação.

Por isso quero deixar registrado aqui que o problema, caro leitor, não é criticar a hamburgueria da Bel Pesce, e sim a forma que você embasou seus argumentos. E isso serve para qualquer tema da vida, principalmente a política, onde os meios de comunicação muitas vezes pertencem aos que são alvo da matéria ou são alimentados por informações que um político ou outro acha que deve divulgar para se promover ou para derrubar algum adversário.

Em tempos de Twitter, falar é muito legal, mas falar com propriedade é habilidade para poucos.

Por Ana Paula Ramos