Sobre panelaço, elite branca e varandas gourmet

Meu namorado me mostrou esse texto e resolvi compartilhar porque ele reflete o meu sentimento com relação a reação do governo ante ao descontentamento da população. Eu sei que hoje a pauta é a manifestação, mas vamos voltar um pouco no tempo e lembrar dos panelaços que algumas cidades, como a minha, viveram no último dia 8.

Eu não bati panela e nem fui a manifestação porque não concordo com o impeachment, na verdade ao acompanhar pela TV percebi que perdi uma boa oportunidade de manifestar minha insatisfação porque essa não foi a bandeira principal, pelo menos aqui em Brasília.

Mas enfim, estou descontente com o governo pelos desvios da petrobrás, pela mentirada durante as eleições, pela tentativa de continuar escondendo sua própria incompetência para conduzir a economia, pela inflação que faz as compras do mês ficarem cada vez mais caras, pelo aumento da energia, pelo assalto dos postos de gasolina, pela dificuldade em agir para salvar a petrobras no mercado financeiro, pela diminuição dos investimentos em educação apesar da afirmação de que somos uma pátria educadora, pelo perdão aos mensaleiros,  por uma lista de coisas que não para de crescer.

Outra coisa que me deixa indignada é essa divisão entre: conformados = petralhas, inconformados = coxinhas; Gente, somos bem melhores do que isso, todo mundo concorda que a situação não está fácil para ninguém e que não tem nada a ver com a ascensão social de seu ninguém. Tem a ver com a perda de poder de compra do real e com serviços básicos que quando são oferecidos não tem qualidade.

Eu sou branca, se é que alguém nesse país pode dizer isso, mas não sou elite e acho que o impeachment traria mais problemas que benefícios a nossa nação. Primeiro porque não temos ideia de quem poderá assumir as rédeas da situação e segundo porque para a economia esse seria o golpe final. Não precisamos adicionar instabilidade política ao nosso cenário já tão volátil.

Precisamos de respeito e de um governo que assuma seus erros e não só seus acertos. Que reconheça que a culpa não é só da crise internacional e que as atitudes não tomadas nos últimos quatro anos contribuíram para o aprofundamento da nossa crise interna.

Nossa situação não é simples e parem de cair nessa pilha de que quem critica o governo tá achando ruim porque os aeroportos foram ampliados e pobre viaja de avião. Ninguém está dando a mínima para isso, ninguém ia bater panela enquanto a presidente fala por uma razão tão pífia e também não iria juntar um milhão em SP e mais uma porrada de gente Brasil a fora, em TODAS as regiões independente da quantidade de manifestantes e da cidade. Até porque não foram só as capitais que tiveram manifestações, alguma cidades interioranas também.

Então não sejam simplistas e rotuladores, nossa situação precisa de bem mais do que isso.

Desabafo feito, leiam esse texto de um dono de varanda gourmet e me digam o que vocês acham do motivo que o levou a bater panela no dia 8. O nome do autor é Cesar Manieri e você pode acessar o texto original no blog dele AQUI:

Eu sou sou proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Esta semana eu li nos sites de notícias e vi comentários de amigos em redes sociais sobre isso e acabei refletindo a nossa atual situação neste país. Sim, moro em um apartamento com “varanda gourmet” e bati panela também, mas após ler um monte de bobagens sobre o panelaço, uma tristeza invadiu meu coração e foi grande quando percebi que fui cerceado do meu direito de ser um digno proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Porque fiquei tão triste e totalmente sem esperança de viver em um país decente? Vou contar minha história, que deve ser muito parecida com quase todos os dignos proprietários de “varandas gourmet” espalhadas pelo país. Foi assim: Meus antepassados e avós paternos foram imigrantes que vieram da Itália no fim do séc. XIX início do séc. XX. Vieram fugindo da fome e da guerra. Fugiram do nazismo e do fascismo que despertava naquele continente. Meus avós paternos se estabeleceram no interior do Paraná. Na “terra rossa”. Passaram fome, enfrentaram doenças enquanto criavam os filhos. Meus avós maternos já nasceram no Brasil do inicio do século XX. Minha avó materna veio de uma família que aparentemente tinha posses, mas por conta da guerra, perderam parte do que tinham. Por isso, minha avó materna (que era descendentes de índios), para fugir do assedio do padrasto, aos 13 anos se casou com o meu avô (que era descendente de africanos mas de origem misteriosa). Ele já tinha mais de 25 anos com certeza. Meus avós paternos tiveram 8 filhos e os maternos 18 (5 morreram). Entre toda essa turma, nasceram meu pai e minha mãe. Todos trabalharam na roça. Todos tiveram muitos filhos. Gente simples. Meu pai veio para São Paulo em 1945 com 13 anos e logo começou a trabalhar nas indústrias da capital. Minha mãe fez o mesmo trajeto e veio trabalhar nas casas das famílias quatrocentonas abastadas dos barões do café e nos palacetes e grandes apartamentos dos industriais paulistanos. Meu pai era técnico de elevadores e por uma coincidência do destino conheceu minha mãe quando ele estava consertando um elevador de um dos prédios onde ela trabalhava. Meu pai trabalhou por 45 anos para nos educar, eu e meus 2 irmãos e minha irmã. Começou construindo sua casa na periferia de São Paulo. Era um porão úmido construído em uma rua lamacenta fruto do loteamento do haras Patente na divisa com São Caetano do Sul. Com apenas o ensino fundamental, sabia que precisaria estudar e trabalhar muito para levantar a casa dele. E foi o que ele fez. Se preparou, estudou e se tornou um ótimo técnico eletrônico e eletricista. Homem correto. Minha mãe lutadora e dona de casa. Meu pai era metalúrgico e do sindicato e já me dizia nos anos 70 sobre a “índole de filho da puta” de muitos de seus integrantes, inclusive do Lula. Meus pais criaram os 4 filhos. Suaram, correram, choraram. Eu segui seus passos com dignidade e retidão. Da minha mãe herdei a força da luta diária, da resignação e da resiliência, do amor a família. Eu trabalhei duro durante 30 anos, estudei tudo que podia, mas estudar nunca é demais, me preparei como meu pai. Construi minha vida assim, como meus pais me mostraram. Trabalhei duro. Por mérito meu e da minha esposa, conseguimos comprar nosso apartamento com “varanda gourmet”  para criar nossos filhos. Paguei cada centavo, cada juro extorsivo e abusivo cobrado pelos bancos. Recentemente fui demitido da indústria, que está ultimamente fracassada nesse país. Então, ouvindo um chamado, a minha voz, resolvi empreender e no momento que nossa pequena empresa iniciou a decolagem fomos surpreendidos por toda essa merda de cenário atual e por toda essa turbulência política. Foi ai que chegamos no dia 8 de Março de 2015. Cento e quinze anos depois da chegada dos meus avós ao Brasil fugindo da crise da Europa. E após ler argumentos de jornalistas de “peso” sobre a “elite branca” que protesta contra a presidente do Brasil e seu partido energúmeno, fiquei profundamente sem palavras. Sim, eu fui ofendido, pois para eu estar aqui na “varanda gourmet” derramei muito suor. Abri mão de muita coisa e muitas vezes escolhi trabalho extra pra ter o que tenho. Não aceito ser tolhido do meu direito de mandar todos os políticos e pessoas corruptas, seus corruptores, a Dilma, o Lula , o PT, Aécios , os comunistas, idiotas úteis e afins e todos os seus simpatizantes Tomar no meio do Cu. Tenho o direito de expressar meu sentimento de indignação e dor. Mando e vou mandar sempre que eu for desrespeitado como brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor dos meus deveres. Eles ofendem meus antepassados e meus descendentes. Eles desrespeitam meus antepassados que viveram e morreram para que eu pudesse ter meu apartamento com “varanda gourmet”. Não aprendi a xingar em casa no seio da família. Meus pais me ensinaram o respeito ao próximo, os valores e as condutas morais e  virtuosas e me deram a liberdade de crer em Deus. Me ensinaram a não pegar nada de ninguém. Pecado gravíssimo. Uma desonra. Aprendi a xingar nas ruas lamacentas e nos terrenos baldios cheios de mato do Jardim Patente quando era desrespeitado em meus simples direitos de moleque de rua, mas mesmo assim sabíamos quando xingar. Tínhamos nosso código de ética. Nunca usarei meu direito de xingar em vão. Portanto, políticos corruptos e seus corruptores e todos os vendidos que apoiam a situação atual, que nem chegaram a condição de merda humana, seus peidos fracassados, lavem a boca antes de falar sobre quem literalmente construiu e constrói esse país, que somos nós, as famílias brasileiras, que criam seus filhos, que tem valores, princípios e conduta moral, que tem história de luta verdadeira, que não tem nada de revolucionária, coisa que vocês, donos do poder, não tem nem ideia do que seja. Ou se tiveram um dia, já se esqueceram, iludidos pela ganancia do poder e pelo dinheiro fácil.

O que acharam?

Por Ana Paula Ramos.

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2 pensamentos sobre “Sobre panelaço, elite branca e varandas gourmet

  1. De fato eu partilho do mesmo sentimento que você descreveu. Bolsonaro foi vaiado no Rio e vários direitistas assumidos e famosos de renome foram a passeata, mas negando a idéia de impeachment. O povo brasileiro ainda consegue trazer boas surpresas.

    De qualquer modo o que me preocupa é algo dito pelo Vladimir Safatle quando diz que a Nova República, e o modelo de governo que surgiu com o fim da ditadura se esgotou. Diga-se de passagem chegamos a um ponto que até a Carta Capital está criticando a miopia do governo em lidar com o descontentamento popular.
    http://www.cartacapital.com.br/revista/841/a-nova-republica-acabou-2242.html

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