O fanatismo e a tecnologia

Texto para ler falando sobre os mais diversos assuntos é o que não falta, mas esse que eu vou compartilhar hoje fala sobre um livro que me deu muita vontade de ler e que talvez jogue uma luz sobre os acontecimentos do início do ano em Paris. Deixei para publicá-lo só agora porque os ânimos estão mais calmos e normalmente pensamos melhor quando não estamos tão tocados pelos fatos. O texto foi escrito por Martin Wolf e foi publicado no Financial Times originalmente e traduzido por Sergio Blum:

Como compartilhar o mundo?

Como devemos entender os acontecimentos da semana passada em Paris? Por que pessoas se dispõem a matar e morrer por suas crenças? Como deveriam reagir as democracias liberais? Muitas pessoas devem estar se fazendo essas perguntas. Um homem notável, Eric Hoffer, abordou-as em um livro publicado em 1951: “The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements” (o verdadeiro crente: pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massa). As ideias em seu livro, desenvolvidas em resposta ao nazismo e ao comunismo, reverberam poderosamente ainda hoje.

Hoffer nasceu na virada do século XX e morreu em 1983. Ele trabalhou em restaurantes, como mão de obra agrícola migrante, como garimpeiro e, durante 25 anos, como estivador em San Francisco. Autodidata, ele era capaz de penetrar o núcleo de um tema com frases brilhantes e límpidas. “The True Believer” é um de meus livros favoritos. É, novamente, um guia inestimável.

Quem, então, é um verdadeiro crente? Said e Cherif Kouachi e Amedy Coulibaly, os homens responsáveis pelos ataques terroristas na semana passada em Paris, eram verdadeiros crentes. Também verdadeiros crentes são os que atuam na al-Qaeda, no Taleban, no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis) ou no Boko Haram. Também crentes verdadeiros eram os nazistas e os comunistas. Os verdadeiros crentes, defende Hoffer, não são caracterizados pelo conteúdo de sua fé, mas pela natureza de suas afirmações. Suas crenças reivindicam certeza absoluta e exigem lealdade absoluta. Crentes verdadeiros são aqueles que aceitam essas reivindicações e saúdam essas demandas. Eles estão dispostos a matar e morrer por sua causa, porque o êxito delas no mundo é mais importante, para eles, do que suas próprias vidas ou mesmo a vida de qualquer pessoa. O verdadeiro crente é, portanto, um fanático.

Devemos nos manter fiéis às nossas crenças. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. No fim, isso também vai passar

O fanático é um personagem familiar na história. O fanatismo nasce de temperamento, não de ideias. O temperamento fanático pode expressar-se de muitas maneiras. A era em que Hoffer viveu foi uma era de religiões seculares. A realidade exterminou as religiões que prometiam salvação na Terra. Mas não pode exterminar as religiões que prometem eternidade. Essas são, agora, novamente, a mais poderosa forma de crença, embora o nacionalismo ainda possa competir de perto.

Com efeito, religião e nacionalismo frequentemente reforçaram-se mutuamente: Deus, afinal de contas, é muito frequentemente considerado em “nosso campo”. Por essa razão, diz Hoffer, “o nacionalismo nos tempos modernos é a mais copiosa e renovável fonte de entusiasmo das massas e é preciso recorrer ao fervor nacionalista para que as drásticas mudanças projetadas e iniciadas pelo entusiasmo revolucionário possam ser consumadas”.

Um das intuições de Hoffer é que não é a pobreza o que transforma alguém num verdadeiro crente; é a frustração. É o sentimento de que alguém merece algo muito melhor. Não é de estranhar que alguns daqueles envolvidos em terrorismo sejam “peixes pequenos” do mundo do crime. Hoffer argumenta “que os frustrados predominam entre os primeiros adeptos de todos os movimentos de massa e que eles geralmente aderem por vontade própria”. Uma de suas características é que eles podem sentir que não se encaixam em suas sociedades.Isso não é improvável no caso de alguns filhos de minorias imigrantes. O vínculo com a cultura de origem de suas famílias e a identificação com a cultura da terra de suas famílias são, ambos, provavelmente muito frágeis.

O que a crença, então, oferece? Em essência, ele oferece uma resposta: a crença diz aos adeptos o que pensar, o que sentir e o que fazer. Ela proporciona uma comunidade abrangente para o crente viver. Ela oferece uma razão para viver, matar e morrer. Ela substitui o vazio por plenitude e a falta de rumo por propósito. Ela oferece uma causa. Ela é às vezes nobre e por vezes abjeta, mas é uma causa, e isso é o que importa. “Todos os movimentos de massas geram, em seus adeptos, uma…propensão para ação unida”, observa Hoffer. “Todos os movimentos de massa, independentemente da doutrina que pregam…, fomentam fanatismo, entusiasmo, esperança fervorosa, ódio e intolerância”. Todos exigem “fé cega e adesão sincera e dedicada”.

O comunismo minguou. O mesmo se deu, em muitos lugares, com o secularismo. A religião assumiu seu lugar. A falência moral e intelectual dos governantes seculares – especialmente dos déspotas seculares corruptos – fomentou esse recrudescimento. Mas as democracias ocidentais seculares são vulneráveis a assaltos também de verdadeiros crentes do islamismo militante. Guerras poderão controlá-los. Mas violência não os eliminará, como o Ocidente aprendeu tanto no Iraque como no Afeganistão. O inimigo não é o “terrorismo”; o inimigo é a noção da qual o terrorismo é fruto. Dissuadir pessoas dispostas a morrer é difícil. Matar ideias é difícil. Matar ideias religiosas é quase impossível. Essas ideias somente se dissiparão em face de ideias mais atraentes. Possivelmente, as ideias mais extremadas poderão morrer por exaustão. Mas isso pode levar muito tempo. Lembremo-nos que as ideias de Lutero desencadearam 130 anos de guerras religiosas na Europa. É um precedente preocupante.

O que deve ser feito? Não reivindico nenhuma expertise nessa área. Mas tenho pelo menos um interesse legítimo: o de cidadão de uma democracia liberal, condição que desejo manter. Minhas respostas são as seguintes. Em primeiro lugar, aceitar que estamos jogando um jogo – de longo prazo – de contenção. Em segundo lugar, reconhecer que o coração da luta está em outro terreno. O Ocidente pode ajudar. Mas não tem como vencer essas guerras. Em terceiro lugar, oferecer a noção vivida de igualdade como cidadãos, como alternativa para a jihad violenta. Em quarto lugar, apreciar e responder às frustrações que muitos agora sentem. Em quinto lugar, aceitar a necessidade de medidas para garantir segurança. Mas lembrar que segurança absoluta nunca é possível. Por último, nos mantermos fiéis às nossas crenças, pois sem elas nada temos a oferecer para esse esforço. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias.

Mais uma vez, os verdadeiros crentes querem fazer-nos mal. Mas a ameaça que eles representam não é comparável às que a democracia liberal sobreviveu no Século XX. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. Ao final, isso também vai passar.

A teoria levantada por Hoffer é muito interessante, podem dizer! Eu estou louca de vontade de ler esse livro, mas ainda não encontrei em nenhum lugar para comprar, parece que só tem em português de Portugal. Acho que vou ter que encarar em inglês mesmo…

O que você acha desse ponto de vista?

Por Ana Paula Ramos.

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