Brasil, pátria educadora

Ontem foi o primeiro dia do ano e também dia da posse da presidente Dilma. Após uma eleição com direito a vale tudo e uma “transição” de muitos ataques as medidas adotadas pelo governo nos últimos dias de 2014 parecia que esse dia nunca chegaria. Os comentaristas políticos estavam ansiosos para saber o tom do novo mandato, mas pelo público presente na Esplanada parece que esqueceram de avisar a população que era dia de posse. Mas esse vazio não foi surpresa, pois todos sabem que a presidente não é bem cotada na capital.
POSSE DA PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF - BRASÍLIA - 01/01/2015O discurso feito pela presidente no Congresso Nacional pode ser lido integralmente AQUI. Como era de se esperar, ela fez o dever de casa e falou de todos os temas que interessam aos brasileiros, não deixou de fora nem a reforma política, mas durante o discurso no Congresso não mencionou o plebiscito que fez parte do discurso da vitória em 26 de outubro. Considerando que ela estava dentro da casa que barrou a proposta de plebiscito feita em 2013 isso pode ter sido estratégia para não criar inimizades logo na entrada do mandato.Falou também da Petrobras, que eu achei que seria deixada de fora, mas optou pelo discurso padrão de punir quem agiu de má fé e insistiu em dizer que estão sofrendo ataques externos. Aproveitou também para dar uma alfinetada na Venina Velosa, mas para o texto não ficar

desconexo por ir e vir no que foi falado vou destacar os pontos que mais me chamaram a atenção:

Resgatamos 36 milhões da extrema pobreza, 22 milhões apenas em meu primeiro governo

Esses números estão batidos, todos sabem que os 36 milhões correspondem ao número total de atendido pelo programa, mas segundo o IPEA de 2003 para cá, a quantidade de pessoas retiradas da extrema pobreza é de 8,4 milhões. Não estou desvalorizando os oito milhões, só acho que é importante deixar claro a quem ouve que existe uma diferença entre o número de atendidos e número de pessoas retiradas da miséria…

Nunca o salário mínimo e os demais salários se valorizaram por tanto tempo e com tanto vigor

Dilma herdou o “nunca antes na história desse país” do Lula, mas fazendo a correção de valores o salário mínimo  da época de JK era bem maior que o atual, que passará a ser de $788 esse mês. Não quero ser cri cri, só acho um absurdo essa ideia de que só o PT faz coisas boas pelo brasileiro. Eu não engulo essa, mas as pessoas tem preguiça de conhecer sua própria história e as vezes é importante mostrar que o PT não inventou a roda e que, por incrível que pareça, outros governantes também fizeram coisas úteis ao povo.

Nunca o Brasil viveu um período tão longo sem crises institucionais. Nunca as instituições foram tão fortalecidas e respeitadas, e nunca se apurou e puniu com tanta transparência a corrupção

Gente, de que tipo de crise ela está falando? Por que até onde eu sei a confiança no próprio governo, no congresso e no STF estão diminuindo. Para quem não lembra nossa corte superior, ao final de 2018 terá todos os ministros indicados pelo PT. A Petrobras está parecendo uma bomba relógio. O Congresso continua mais sujo que pau de galinheiro e para completar se vendeu para aprovar a diminuição do superávit primário. Quem anda pelos corredores da justiça sabe que entre os altos escalões do judiciário o que importa é a influência, não o delito. Olhando para o Mensalão e os escândalos que derrubaram Erenice Guerra e metade dos ministros da Dilma já no início de seu primeiro mandato, eu gostaria realmente de saber que ausência de crises institucionais é essa.

Assim como provamos que é possível crescer e distribuir renda, vamos provar que se pode fazer ajustes na economia sem revogar direitos conquistados ou trair nossos compromissos sociais

Só clica AQUI e lê a notícia.

É inadiável, também, implantarmos práticas políticas mais modernas e éticas e por isso mesmo mais saudáveis. É isso que torna urgente e necessária a reforma política

Eu acho que ela tem razão, precisamos de uma reforma política sim, precisamos de sangue novo, precisamos que os brasileiros sejam mais patriotas e queiram lutar não apenas pelo seu próprio bem, mas pelo bem da nação. Só que falar isso é muito fácil, difícil é ver Gim Argello, José Sarney, Renan Calheiros, Ricardo Berzoini e Erenice Guerra ao lado dela na TV e acreditar em uma vírgula que ela disse.

Na economia, temos com o quê nos preocupar, mas também temos o que comemorar

Depois de dizer que não havia problemas na economia, finalmente nossa presidente resolveu reconhecer que estamos em maus lençóis… Aécio deve estar chateado depois de tantas tentativas de fazê-la reconhecer a situação real do país. O fato é: o mar não está para peixe, o governo tem que cortar gastos ou o país quebra. O início de tudo foram os $18 bilhões dos direitos trabalhistas e o baixo reajuste do salário mínimo se comparado a anos anteriores. Mas isso não é nem um terço do que já devia ter sido feito, vejamos o que será proposto pelo novo mago das finanças Joaquim Levy. Espero que ele não seja adepto da Contabilidade Criativa, porque nem ela salvou as contas do governo em 2014.

Mais importante: a taxa de desemprego está nos menores patamares já vivenciados na história de nosso país

Muito cuidado quando falar dos índices de desemprego, a metodologia utilizada para quantificar o nível de desemprego foi modifica. Enquanto no governo FHC os maiores de 18 anos que não tinham emprego eram desempregados. Hoje, só é considerado desempregado quem, a partir da maioridade, não tem emprego e está procurando por alguma vaga. Exemplo: Em 1998, um jovem universitário com 19 anos que não possuía emprego era considerado desempregado. Hoje, esse mesmo jovem só é considerado desempregado se estiver procurando emprego, caso não haja interesse em buscar empregos ele não entra nas estatísticas do governo atual. Entendem a sutileza? Entendem como é fácil dizer que é o menor patamar já vivenciado? Não estou dizendo que a metodologia é ruim, nem tenho conhecimento suficiente para isso. Só acho que você tem que saber o que está comparando e nesse caso, não dá para comparar o governo Lula e Dilma com o FHC, por exemplo.

Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer

Que bom que ela sabe, a indústria e seus empregados agradecem a lembrança.

Nosso lema será : BRASIL, PÁTRIA EDUCADORA! Ao bradarmos “BRASIL, PÁTRIA EDUCADORA” estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também que devemos buscar, em todas as ações do governo, um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano

Os números da educação tem aumentado e mostram que a universalização do ensino pode ser possível em breve, mas quem vive a educação pública sabe que a qualidade não tem sido levada em conta. Espero que esse lema indique que o governo priorizará a qualidade e não somente a quantidade como tem feito nos últimos anos.

Vou propor ao Congresso Nacional alterar a Constituição Federal, para tratar a segurança pública como atividade comum de todos os entes federados, permitindo à União estabelecer diretrizes e normas gerais válidas para todo o território nacional

Essa coisa de deixar a União estabelecer regras me deixa em dúvida. Pode ser uma coisa boa ter padrão em tudo, maaaas dependendo de como as coisas sejam conduzidas pode ser um precedente para uma ditadurinha básica. Centralizações em geral acendem uma luz amarela na minha cabeça. Vamos esperar os esclarecimentos para saber como isso vai funcionar de fato.

Nossa inserção soberana na política internacional continuará sendo marcada pela defesa da democracia, pelo princípio de não-intervenção e respeito à soberania das nações, pela solução negociada dos conflitos, pela defesa dos Direitos Humanos, pelo combate à pobreza e às desigualdades, pela preservação do meio ambiente e pelo multilateralismo

Basta ler o artigo 84 da constituição que você vai ver que não há nenhuma novidade aqui. Ela só recitou os princípios que regem as Relações internacionais do Brasil. É uma pena saber que ela está sucateando o Itamaraty e tornando a carreira diplomática pouco atrativa para os que ingressaram recentemente no palácio. Entre as reclamações do corpo diplomático está o desrespeito ao limite de idade dos embaixadores que estão no exterior (ao completar 65 anos, o embaixador deve retornar ao Brasil, mas isso não está acontecendo), a promoção unicamente por tempo de serviço dispensando totalmente o mérito dos funcionários e várias outras questões de ordem administrativa como a diminuição do orçamento, que está quase 50% menor, em comparação com 2010, último ano de Lula no poder.

A Petrobras já vinha passando por um vigoroso processo de aprimoramento de gestão. A realidade atual só faz reforçar nossa determinação de implantar, na Petrobras, a mais eficiente e rigorosa estrutura de governança e controle que uma empresa já teve no Brasil

A realidade atual é reflexo do passado e, coincidentemente, a presidente estava no conselho da Petrobras na época. Se ela vinha passando por melhorias na gestão vamos torcer para que esse resultado apareça logo. Porque Getúlio Vargas deve estar se revirando na tumba com tudo o que está acontecendo. Não foi para servir de cabide de empregos e nem de máquina de financiamento de campanha que a Petrobras foi criada.

A presidente finalizou o discurso dizendo que se aproxima do povo brasileiro por ser sobrevivente e vitoriosa, espero que a gente possa passar de sobrevivente a senhores do nosso destino. Um povo que além de não desistir do sonho, luta para executar e procura formas de ajudar quem está em volta.

A presidente deve retornar a Bahia para descansar, enquanto isso continuamos esperando o que será feito para mudar os rumos do nosso país. Ou será que está na hora de ser mais incisivo e cobrar ações claras e imediatas?

Por Ana Paula Ramos

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Um pensamento sobre “Brasil, pátria educadora

  1. O “pátria educadora” é algo que ainda estou tentando entender. Um dos problemas que bate desde os tempos do FHC é que num sistema educacional é muito difícil se expandir o acesso sem perder a qualidade, ainda mais nessa lógica de 4 anos em que nosso sistema funciona. (sem contar o gosto dos governos por polir estatísticas).

    Acredito que qualidade do sistema antigamente parecia melhor porque os piores eram simplesmente retirados do sistema (a tal evasão escolar). Dos méritos que poderia creditar ao Haddad está a busca por métricas para medir os resultados, creio que era o único jeito de fazer os marqueteiros se interessarem por qualidade na educação. Ainda assim há desafios imensos de gestão.

    O Ioschipe fala que a melhoria dos salários dos professores teria pouco impacto na melhoria da educação. Apesar de meu desprezo por gente rica falando do salário alheio (pimenta no dos outros é refresco) tenho de admitir que até certo ponto ele está certo: a melhoria das condiçoes de trabalho dos professores talvez tenha muito mais impacto que o salário. E isso é algo bem mais complicado que simplesmente botar mais dinheiro no sistema.

    O Cristovam adora falar em federalização da educação, mas eu sou meio cético. Os militares tentaram federalizar praticamente tudo e os resultados não foram duradouros. Ainda que o mobral tenha sido uma ótima experiência que poderia ser refeita.

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