Da série: Coisa para inglês ver

Existem muitas explicações acerca do surgimento da expressão “para inglês ver” a que mais faz sentido para mim é a apresentada pelo filólogo João Ribeiro, que nos leva ao período imperial. Segundo ele, as autoridades brasileiras tomaram providências de mentira para combater o tráfico de escravos, pois sofriam pressões da Inglaterra para acabar com o mercado escravocrata. Com a criação de leis nossos dirigentes do período regencial mostravam aos ingleses que estavam ampliando o combate ao tráfico negreiro, mas na prática não havia nenhum esforço para fazer com que a lei fosse cumprida.

A partir daquela época a expressão para inglês ver se popularizou e passou a ser utilizada para toda situação que envolvia medidas paliativas para ludibriar que quer que seja. Para quem quiser se aprofundar mais um pouco basta procurar detalhes sobre as leis Feijó de 1831 e Eusébio de Queirós de 1850.

Não quero que você seja um profundo entendedor de história, apenas quero mostrar que a história continua a se repetir. Se você acompanhou as notícias de segunda deve ter percebido que a Secretaria de Educação de São Paulo informou que os estudantes das escolas municipais da cidade serão aprovados mesmo se tiverem nota vermelha em todos os bimestres.

A notícia por si só já é bem louca porque se um aluno tirou notas vermelhas em todos os bimestres claramente não tem condição de passar para a próxima série. O que piora um pouco a situação foi a medida de aumentar a quantidade de séries em que o aluno poderá ser retido adotada por Fernando Haddad no início do ano.

Até o ano passado, o Ensino Fundamental da cidade era composto por dois ciclos. O primeiro ia do primeiro ao quinto ano e somente no último ano o aluno poderia ser retido. O segundo ia do sexto ao nono ano e o aluno também só podia ser reprovado no ano final do ciclo.

Por ordem de Haddad, a partir de janeiro desse ano houve uma modificação na divisão que passou a ter três ciclos. O primeiro vai do primeiro ao terceiro ano e só há reprovação neste último. O segundo vai do quarto ao sexto ano e também só há reprovação no último ano do ciclo. Já no terceiro ciclo há retenção em todos os anos que o compõe (sétimo ao nono ano).

Anteriormente os alunos do Ensino Fundamental da rede pública só podiam ser reprovados no quinto e no nono ano. Agora a reprovação passa a ser válida no terceiro ano e do sexto ao nono ano. Aparentemente a medida serviu para verificar melhor o aprendizado dos alunos e passar somente aqueles que possuem condições de acompanhar a série seguinte, principalmente nas séries finais que exigem maior acumulação de conhecimento.

O problema de tudo foi a orientação dada aos professores para reprovar no máximo 10% da turma e o pedido do secretário de educação para fazer a análise do processo inteiro. Mesmo que um aluno tenha notas vermelhas em todos os bimestres pode ser aprovado por estar evoluindo. Entendeu agora o motivo de ser uma medida para inglês ver?

Um dos carros chefes do Haddad ao se eleger foi a melhoria do ensino público da capital, então ele se sentiu pressionado a tomar alguma providência que significasse alguma coisa para a população e os professores. Para não ter problemas com os índices, lembrem-se que os governos petistas são bem apegados aos números, optou por sugerir que os professores deixem a portaria de lado. Só a título de informação, em 2013 a taxa de reprovação 2,2% e a de abandono foi 1,7%, óbvio que se você aumenta em mais de 100% a quantidade de séries que podem reprovar esse número será maior. E como a reprovação leva a evasão, é melhor continuar passando todo mundo.

Ninguém se importa com o que o aluno sabe de fato. Ele é apenas um número nas estatísticas e o professor? Bom, os professores não são considerados nem para fins estatísticos, mas na hora de conseguir voto junto ao sindicato todo mundo lembra que eles existem.

Nada mudou de 1831 para cá, nada.

Por Ana Paula Ramos

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