Percepções – Eleições

No Brasil, a maioria das pessoas têm aversão a política nos mais diversos graus, são exceções aqueles que dizem gostar do tema. Durante a eleição quase não fiz postagens porque fiquei tão surpresa com o campo de guerra que virou a internet que preferi me abster de qualquer comentário. Mas ao longo desse período fui percebendo algumas coisas que me intrigaram e depois de passada a tempestade posso compartilhar com vocês.

Sei que a política é suja e que muitos acreditam que vale tudo para ganhar, mas eu acho que pulamos o abismo do bom senso em direção a ruína e nem percebemos. Desde o início sabíamos que a corrida seria difícil e que muitos podres (reais ou não) viriam a tona. É assim que a nossa política vem sendo conduzida há muito tempo, isso não mudaria de uma hora para outra.

Quando o negócio começou a esquentar eu fiquei me perguntando porque aquelas pessoas estavam tão interessadas no cargo máximo do poder Executivo do país. Olhei as atribuições privativas do presidente da República (Art. 84 da Constituição) e vi que o cidadão que se eleger cuidará da administração federal e poderá interagir com o poder legislativo criando, editando ou excluindo leis nos casos previstos. No final das contas entendi que a vontade de todos ali era ter o poder que o cargo oferece. Você pode fazer muito por uma nação estando na Presidência, mas você pode fazer mais ainda por quem estava ao seu lado na caminhada e principalmente pelo seu partido. O problema é que com a presidência não vem só o poder, vem um mundo de abacaxis e pepinos para resolver. Sem falar nos quatro anos (que podem virar oito) de corda bamba e malabarismos…

Chegar a esse cargo não é tarefa fácil e conciliar os interesses daqueles que o manterão no poder é mais difícil ainda. Ainda assim onze brasileiros de coragem se candidataram a vaga. Desde o início sabíamos que as chances reais de vitória se concentravam em três deles, dos quais dois foram ao segundo turno e se digladiaram até a morte em palanques, propagandas e debates.

A morte de Eduardo Campos logo no início do combate desequilibrou tudo o que estava orquestrado para o primeiro turno. Os primeiros dias de luto serviram não só para a família se recompor, mas para os partidos tentarem entender o que representava esse acontecimento imponderável. Não se sabia com certeza quem o substituiria, mas depois da opção por Marina e dos acertos internos parece que abriram as portas do inferno e a ideia do salve-se quem puder ficou nítida quando a candidata do PSB passou a ser considerada a única que conseguiria bater Dilma no segundo turno.

A porta voz da nova política foi contestada duramente pelos adversários e pela mídia sobre o significado real do conceito. Percebi que a galera que foi para a rua em junho não sabia exatamente o que queria e quando surgiu um agente levantando a bandeira de mudança política solicitada muita gente não gostou ou duvidou do que viu. Concordo que não temos que ser crédulos só acho que menos ceticismo não faz mal a ninguém. Havia coisas concretas no discurso de Marina que não poderiam ser desconsideradas sem uma análise mais atenta.

A nova política tinha como expoente o fim do loteamento do governo aos aliados e a reunião dos partidos da coligação em torno de um plano de governo que se mostrou frágil em alguns (muitos) pontos. Para mim, a nova política não pode ser radical porque o radicalismo dificilmente é a saída para a melhoria de um país tão grande como o nosso que vive em uma comunidade internacional e depende deles em para fazer acordos de transferência de tecnologia e para comprar as coisas que produzimos.

Ao escolher o presidente o radicalismo é uma opção que tem que ser vista com muito cuidado e eu notei que muitos encontraram nessa bandeira o refúgio para a sua indignação com o status quo. Respeito as decisões, mas acho que ela deve ser vista com muito cuidado por causa de uma palavrinha muito importante: Governabilidade.

A governabilidade com governos radicais não costuma ser algo fácil. Afinal, a chance de um radical ouvir quem está a mesa negociando com ele e pensar sobre a aplicação do que foi dito é mínima. Radicais tem posições muito firmes e algumas até bem fundamentadas, mas dificilmente tem a capacidade de ouvir e, por isso, são péssimos negociadores. Um presidente precisa negociar muitas coisas então não consigo entender como o radicalismo conseguiu seduzir tanta gente nessa eleição. É preciso tomar cuidado com o que você faz com a sua insatisfação, porque em momentos como esse ela não afeta só você, afeta milhões de lares brasileiros.

Olhando para a base da Marina e os resquícios de radicalismo ainda presentes em seu comportamento optei por deixar a bandeira levantada por ela, que reuniu muitos dos meus sonhos, de lado. Passei a procurar alguma que pudesse me trazer um pouco do sonho, mas com os pés no chão e raízes um pouco mais fortes e profundas.

Minha intenção não é dizer quem era o melhor entre os que estavam concorrendo, nem se quem ganhou tem legitimidade. Só estou fazendo um pequeno desabafo sobre tudo o que percebi ao longo dos últimos quatro meses. Sim, foram só quatro meses, mas tudo foi tão intenso que parece que estamos falando de eleições há eras.

Confesso que até eu que sempre gostei de acompanhar esses jogos políticos estou aliviada por toda essa sujeirada ter acabado. Uma eleição sem discussão de propostas é tão dura que acho que todos devem estar com esse sentimento de alívio também.

De repente todo mundo virou militante de algum partido e tinha alguma prova cabalística para mostrar o porque de não votar em determinado candidato. A política do medo se espalhou pelo país e foi chefiada justamente pelo partido que se auto intitulava a esperança em 2002. É interessante ver como os papeis se invertem ao longo do tempo e como as pessoas defendem situações opostas para se promover.

Fiquei surpresa com a falta de respeito aos adversários no trabalho de desconstrução de imagem. O que importou foi fazer o maior número de pessoas acreditar que o outro era mentiroso e ia governar apenas para uma parcela da população enquanto o país só está no patamar atual por causa das ações do governo dos últimos doze anos. Nós não precisamos dos governantes anteriores para nada. Eles não governaram para o povo. Nós fazemos ataques pessoais ao outro por saber que ele é um playboy vazio e não tem cacife para enfrentar a mãe do PAC, a dona do coração valente que vai contra os interesses dos ricos em favor dos pobres.

O que valia ali naquele momento era ampliar o legado do atual governo porque se os outros entrarem na presidência transformarão nossas conquistas em pó. Por mais que não haja explicações sobre o próximo ministro da fazenda e nem sobre as medidas que serão tomadas para conter o avanço da inflação e para injetar ânimo na economia. Isso não importa, só a demonização do outro candidato, seja ele Marina ou Aécio, o que importa é desconstruir. Ninguém tem capacidade para governar o país senão quem já o governa.

Ninguém quer o bem de todos como o partido da situação. E por conta desse discurso eu me perguntava bastante: então só o PT quer o bem do país e o resto quer o poder pelo poder? E se tá todo mundo defendendo tanto a democracia, qual a dificuldade de alternar o poder com outro partido?

Mas a manipulação não foi só com quem depende do governo. O discurso que ganhou bastante força na classe média não assalariada foi o de que a escolha da candidata da situação estava ligada ao altruísmo dessa parcela que não depende do salário mínimo. “Voto nela não por mim, mas pelo que ela faz por quem tem menos”. É tanto altruísmo que meus olhos ficam até marejados, imagina só: Eu tô abrindo mão dos meus benefícios em prol da grande parcela da população que quase não tem nada, eu vivo bem e não preciso do governo, mas eles precisam.

Será que essa pessoa sabe que nos anos do governo FHC 17 estados saíram da classificação muito baixa do IDH? Será que isso é realmente não fazer nada social pelo país? Eu me questionei sobre isso depois que vi esse dado AQUI (no site do PNUD, não foi nenhum jornal que me contou).

Mas a maneira como esse discurso se inflamou e ganhou corpo foi uma surpresa para mim, porque depois de pedir para mudar e vaiar a presidente na Copa, votar no PT virou sinônimo de ser solidário e engajado com a causa dos mais pobres.

Apesar dessas ideias meio frágeis também vi muita gente se posicionando com convicção. Dizendo por A mais B porque votaria na Dilma. Eu tento respeitar todos os pontos de vista, mas a verdade é que só esses ganharam o meu coração de verdade. Para os outros eu tentava entender e logo depois adotava a tática do não enfrentamento.

Percebi também um PSDB perdido depois do boom da Marina. Há quem diga que houve até conselhos para que Aécio desistisse e se coligasse com o PSB. O sorriso sarcástico durante os debates dava a impressão de que ele estava debochando dos adversários, principalmente da Dilma, o tempo todo. Acho que se eu estivesse frente a frente com esse sorrisinho maldito eu teria voado no pescoço dele.

Não acreditei na perfeição de Minas e nem entendi porque bateram tanto nessa tecla. Sobre a vitória do PT no estado, soube que o partido havia saído vitorioso lá em 2002, 2006 e 2010, mas nada justifica a derrota de um filho e ex-governador da terra. Algumas coisas ficaram mal contadas e o candidato evitava falar, mas ainda assim a forma como eles conduziram a campanha me irritou menos que a do PT.

No primeiro debate do segundo turno foi ele que tentou puxar a conversa para as propostas, ainda que mal sucedido. Sabendo que o povo gosta mesmo é de ver o circo pegando fogo optaram por partir para o ataque no segundo e jogaram o irmão de Dilma no cerco. Já que passaram a olhar para todos os detalhes da vida pessoal dele para desqualifica-lo.

Não teve nenhum santo nesse processo. Todo mundo tinha teto de vidro e um calcanhar de Aquiles, mas vi poucas pessoas levantando a mão e pedindo propostas. Vi muita gente procurando meio de fortalecer as acusações em vez de pensar no que se quer fazer com o país nos próximos quatro anos.

No fim das contas, percebi que nosso povo gosta mesmo é de baixaria e de tomar partido sem conhecer os fatos. Nem quando o assunto é o futuro do país a vontade de fazer barraco nos deixa. Foi uma eleição lamentável. Pelo desrespeito, pela falta de conteúdo nos debates e pela capacidade de tomar partido sem ter fatos para dar corpo ao argumento.

Claro que estou generalizando, mas ainda temos muito a aprender no quesito cidadania. E só para deixar bem claro, não acho que há voto certo ou errado e também não acho que quem votou em determinado candidato pensa mais ou menos do que quem votou no outro. Além de ser preconceito isso revela a falta de humildade em reconhecer que somos falhos e nossa opinião pode não ser a melhor. Temos mais quatro anos pela frente e eu gostaria muito que todo mundo continuasse atento ao que acontece na Esplanada dos Ministérios. Somos nós que temos que cobrar o cumprimento das promessas e resultados dos nossos governantes.

Abre o olho! E não deixe que a política e a militância que você fez questão de colocar para fora no último mês sumam. Política é assunto cotidiano, não deve entrar em pauta só de quatro em quatro anos. #ficaadica

Por Ana Paula Ramos.

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