A Copa

Demorei bastante tempo para escrever sobre esse tema simplesmente porque ele divide meu coração. Eu gosto de futebol, muito. Sou do tipo que não assiste a todas as partidas, mas tento estar por dentro do que está acontecendo nos campeonatos principais pelo simples fato de achar o esporte fantástico.

Gosto também do que ele representa ao povo brasileiro, de como ele move milhares aos estádios e do poder que um gol tem sobre tantas pessoas. O fato mais curioso disso tudo é que eu não tenho time. Minha mãe sempre me ensinou a assistir jogos, mas nunca disse que eu tinha que escolher um para torcer aí continuei feliz só assistindo.

Minha política é: Sempre torço para o Brasil e quando tem time brasileiro em competição internacional é para ele que vou torcer independente de quem seja. Pensando nisso acho que não tenho um time porque eu sou daquelas torcedoras extremistas, eu assisto o jogo e sofro do início ao fim e cada jogada parece que vai me fazer ter um infarto. E esse meu sofrimento não é só para o futebol. Qualquer esporte tem esse poder sobre mim. Acho que o meu cérebro me poupou desse sofrimento semanalmente optando por não escolher um time, só pode (Eu sei que não faz muito sentido, mas é a vida).

Enfim, essa paixão me dividiu durante muito tempo. Inclusive eu fiquei muito feliz quando soube que a Copa do Mundo seria aqui. Eu assisti todas desde 98 (já disse que eu sou ligeiramente jovem) e estou vivendo para ver o campeonato mais importante do mundo em terras brasileiras. É de empolgar qualquer um e, a menos que você não suporte futebol, é hipócrita dizer o contrário.

Quando o Blatter tirou o papelzinho com o nome do Brasil no sorteio feito em 2009 eu achei espetacular, mas passada a euforia começaram as indagações. Nós já havíamos feito um Pan americano no Rio, uma Copa e uma olimpíada não seria um grande desafio, seria? Depois de dois anos o Brasil descobriu que a Copa seria sim uma pedra no sapato dos governantes e no ano da Copa das Confederações essa falha ficou clara para o resto do mundo.

A impressão que eu tenho hoje é que a Copa foi um grande tiro no pé, porque quando o Lula foi a Zurique defender nossa candidatura ele queria quebrar um paradigma. Ele queria mostrar ao mundo e, principalmente, aos críticos que Copas não são eventos de países ricos. Até porque Uruguai, Chile, México, Argentina e África do Sul já foram palco do espetáculo. Como ele mesmo disse em sua coluna na edição brasileira do jornal El País (se não leu clica AQUI), ele lutou pela Copa não por motivações político-econômicas e sim pelo que o futebol representa para todos.

O discurso é bonito e mostra exatamente a desorganização que vemos hoje. Uma Copa é um evento voltado para o lazer, mas a estrutura para que ele aconteça demanda muito mais do que paixões. Ainda assim acreditei que poderia dar certo e essa seria a chance de vermos nosso sistema funcionando. Foi um grande engano, a decepção que senti ao ver que não conseguiríamos fazer uma Copa como eu havia visto pela televisão foi grande.

Não foi a beleza do evento que me decepcionou, foi a falta de infra estrutura, o desrespeito a população que foi desabrigada em nome do evento, o aumento dos gastos com as obras, a desorganização na entrada do estádio, o desrespeito aos prazos, a ausência de logística e o incrível dado de que menos de 50% das obras necessárias foram concluídas.

O que isso tudo revela? Simplesmente a nossa incompetência. No ano em que o Brasil foi escolhido, o nosso presidente nos vendia como o futuro do mundo, o país que todos deveriam ficar de olho, a potência da América do Sul e uma série de adjetivos que supervalorizavam o nosso país com o objetivo de atrair investidores. Cinco anos depois o mundo viu que douraram demais uma pílula oca e agora todos cobram resultados e a falta deles continua manchando nossa imagem por todo o globo.

Eu gostaria de saber o que passa de verdade pela cabeça do Lula e da Dilma ao ver uma reportagem como a do Financial Times, que associa a nossa presidente aos irmãos Marx (clique AQUI para ler a notícia). E como se não bastasse vincular a imagem dela a de comediantes, eles ainda citam os problemas que a governante tem em mãos como o escândalo da Petrobras e o problema energético. O mais intrigante é que nossa falta de memória é tão conhecida que no final do artigo ele ainda cita que esses problemas provavelmente serão esquecidos caso a Seleção tenha um bom desempenho.

Deve ser realmente intrigante ver que toda a imagem construída ao longo dos oito anos que esteve na presidência está indo por água abaixo por causa de monstro que eles próprios criaram. O fato de a Copa acontecer e tudo dar certo no final não apaga o que deixou de ser feito, não apaga o desalojamento de famílias e nem a dívida que vai ficar para o próximo governante pagar.

O fato é que não há mais o que se fazer com relação a isso já até falei em um dos posts aqui do blog que já fomos derrotados na Copa fora de campo. A essa altura do campeonato não há mais o que fazer, ficamos mais de 20 anos sentados dentro de casa acomodados com tudo o que o governo impunha. Ano passado resolvemos reivindicar, mas esquecemos que é preciso organização até nisso, não dá para quebrar embaixada e fazer protesto faltando um mês para a Copa ou durante a Copa das Confederações. Esse tipo de reivindicação tem que ser feito antes, no ato da nomeação.

Por exemplo, se houver um novo sorteio e escolherem o Brasil novamente para algum evento desse tipo, mobilizem-se para ir a rua assim que o resultado sair e, principalmente, antes das obras começarem. Não deixem as coisas chegarem a esse ponto para se indignar, uma população consciente fica atenta a tudo o que o governo faz para saber a hora de bater o pé. Afinal de contas, quem eles estão representando? Em nome de quem eles agem?

No fim das contas eu continuo querendo assistir o espetáculo da Copa, mas sei quanto ele nos custou e vai custar ao longo dos próximos anos, afinal muitas obras de mobilidade estão inacabadas e um dia elas terão que continuar. Meu coração verde amarelo torce para que a nossa seleção ganhe, mas torce mais ainda para que essa revolta se converta em consciência na hora de apertar confirma em outubro. Mesmo que o Brasil vença, não deixe que isso modifique a sua consciência sobre os fatos, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra e essa vitória não depende de quem trouxe a Copa para o país lembrem-se bem disso.

Por Ana Paula Ramos

Anúncios

Deixe sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s