Vamos conversar sobre números?

Hoje me deparei com um Guia Simplificado do Bolsa Família para idiotas, esse é exatamente o nome que Bruno Barros deu para o compilado de notícias sobre o programa que ele utilizou para ensinar as pessoas o funcionamento do programa e os benefícios que ele trouxe ao país. O guia é bem didático e se você tiver interesse pode acessá-lo AQUI.

Soube do guia através da página do Lula no Facebook e o comentário dele foi o seguinte:

Cerca de 50 milhões de pessoas são atendidas hoje pelo Bolsa Família. Pré-requisitos básicos do programa já transformaram as estatísticas brasileiras. Você sabia, por exemplo, que 96% das crianças e jovens inscritos superaram o índice mínimo de frequência escolar? Que as mulheres são 90% dos titulares do programa? Ou ainda que dos 3,8 milhões de Microempreendedores Individuais (MEI) do país, cerca de 390 mil são beneficiários da iniciativa? Conheça alguns resultados conquistados ao longo dos dez anos do Bolsa Família

Que o programa funciona a gente sabe e inclusive falei dele no post que escrevi sobre a Carta aos Brasileiros (não leu? clica AQUI). O assistencialismo sempre funciona, mas não é isso que está em cheque. O que eu critico é a falta de complementação ao programa e principalmente a ideia vitalícia que ele passa. Eu sei que ele beneficia apenas famílias com crianças até 15 anos e adolescentes até 17, mas ainda assim a ideia de uma família entrar em um programa desse tipo e passar 17 anos recebendo dinheiro do governo, para mim, é meio absurda. Uma família que não consegue sair de uma situação de dependência em um período de tempo tão grande provavelmente sofre com outros problemas além da falta de dinheiro. São esses problemas que tem que ser resolvidos para que ela tenha como andar com as próprias pernas rapidamente e não precise passar tanto tempo recebendo benefício do governo.

Outra questão que me incomoda muito quando falamos desses programas e dos resultados deles é a preocupação quase que exclusiva com os números. A impressão que tenho é que o governo quer mostrar que estamos diminuindo rápido a evasão e que estamos aumentando a quantidade de anos estudados em tempo recorde quando na realidade esses números não nos mostram a qualidade do ensino, que é incontestavelmente mais importante que números vazios. Até porque o ensino público de qualidade por si só atrairá mais alunos e diminuirá a evasão, entendem como o Bolsa Família isolado é uma tentativa de tampar o sol com a peneira?

O fato de o aluno estar dentro da escola não significa que ele está aprendendo, primeiro porque não há professores suficientes para todos e a estrutura de muitas escolas não contribui para o aprendizado dos alunos. O Bolsa Família é uma forma de manter os alunos na escola porque é a condição básica para que os pais recebam o benefício, mas o outro lado da moeda não é trabalhado. Para que o aluno otimize o aprendizado ele precisa de apoio em casa e o fato de a família enviá-lo para a sala de aula não significa que também está indo as reuniões e acompanhando o desenvolvimento escolar do filho.

Então gostaria de deixar bem claro que eu entendo como o programa funciona e, por isso mesmo, o critico. Do jeito que as coisas são feitas o governo atua dando o peixe, mas esquece que para haver desenvolvimento de fato ele precisa ensinar a pescar.

Por Ana Paula Ramos

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4 pensamentos sobre “Vamos conversar sobre números?

  1. Bem, o programa não existe no vácuo. Ele influencia e é influenciado por outros programas. Por exemplo, alguns especialistas consideram que a melhora das médias brasileiras no PISA está mais ligada ao impacto do bolsa família que a melhora dos sistema educacional em si. Afinal, gente que tem um mínimo para sobreviver pode se concentrar mais nos estudos, não? O outro efeito foi que essas pessoas estão cobrando mais do sistema educacional, o qual realmente ainda precisa de muita melhoria. Ainda vai levar muitos anos para sairmos desse atoleiro de progressão continuada para chegarmos num sistema mais efetivos, mas esse movimento já começou. Mas concordo contigo que ainda é incipiente. http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/pisa-2012-preciso-melhorar-gestao-em-educacao-valorizar-professor-diz-especialista-10952472

    Outro ponto, sim o programa tem porta de saída e você mesma o citou a comentar sobre os MEI. Essa porta se chama microcrédito é baseado em uma idéia do genial “banqueiro dos pobres” e vencedor do prêmio Nobel Muhammad Yunus. Recomendo seriamente o livro dele, Um mundo sem pobreza. Detalhe, o sujeito é claramente um defensor do capitalismo. O programa de microcrédito brasileiro, especialmente o nordestino funciona como essa porta que você sente falta no Bolsa Família. http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,microcredito-e-porta-de-saida-do-bolsa-familia,183815,0.htm

    O programa tem problemas? Certamente. o fato de se basear em auto declaração é um risco de estelionato. Acho a autodeclaração o calcanhar de aquiles da maioria desses programas, seja o bolsa família ou as cotas. É preciso criar mecanismos para obter indicadores mais sofisticados e confiáveis sobrem quem realmente precisa de benefício, tem de ir para quem precisa e fará bom uso dele, o resto é desperdício.

    Outro problema está na gestão municipal do sistema onde prefeitos corruptos ladrões de galinha que usam o sistema para seus prórios fins. Isso demanda um monitoramento constante num país que já não é famoso por ter boa governança e, a meu ver, as punições por fraude são brandas demais.

    Nào me leve a mal, mas para quem quer falar sobre números acho que você apresentou poucos. Em termos de pesquisa achei sua base um tanto restita. Sugiro começar a procurar os dados primários sobre o assunto como o Portal da transparência ou memos ONG’s como a transparência brasil. Apesar de desagradável ver tanta roubalheira, ainda acredito que essa transparência ainda vai salvar esse país. 🙂

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    • Muito boa sua contribuição, Renato. Mas não tinha pensado em apresentar números e sim em falar da preocupação que o governo tem em mostrar resultados com ele sem dar qualidade como contrapartida. Talvez eu não tenha escolhido o melhor título, mas gostei muito das suas sugestões! Vou ler para aprender mais sobre os temas. Muito obrigada e volte mais vezes 🙂

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      • Sim, eu achei que o título não batia com o texto. E apesar de eventuais discordâncias continue, precisamos de mais gente como você, que pensa e discute a política do que a manada reproduzindo frases feitas e agindo como massa de manobra para o interesse alheio, seja que de lado for.

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  2. Paula, desculpe esqueci de mudar o usuário…
    Eu particularmente acreditaria e poria mais fé neste programa se além de amparar as famílias essas crianças das famílias beneficiadas tivessem uma meta de aprendizado minima a ser alcançada, não para discriminar ou excluir ninguém, mas para que as famílias se preocupassem também com a aprendizagem dos filhos que muitas vezes são deixados na escola sem dar a eles nenhum estímulo ou acompanhamento. Assim muitas crianças não passam de meros “caixas” de benefícios.

    Lini

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