Um acordo inegociável

O Mercosul e a União Europeia tentam negociar um acordo de livre comércio desde o ano 2000 e parece que, mais uma vez as negociações vão chegar a um ponto de inflexão. De 2000 a 2006, os dois blocos tentaram negociar um acordo, mas as negociações foram interrompidas quando o bloco sul americano apresentou uma proposta insatisfatória para os europeus. Desde 2011, os esforços para a finalização do processo de negociação foram retomadas, o Mercosul chegou a apresentar uma proposta no último mês, mas a situação não parece estar muito favorável.

O primeiro empecilho são os próprios agricultores europeus. Eles estão fazendo pressão para que a comissão europeia desista do acordo, pois a área que será mais prejudicada com o acordo é a agrícola. Segundo eles, os produtos sul americanos e, principalmente, brasileiros podem desestabilizar a competitividade local.

Como se não bastasse a pressão interna, a comissão europeia está trocando de presidência e, naturalmente, está havendo uma dança das cadeiras dentro da área administrativa do bloco. Isso retarda ainda mais o processo e o tempo estimado para a apresentação da proposta europeia é junho, mas pode ser que demore mais que o esperado.

Ao longo dos últimos anos o negociador chefe do acordo era o português João Machado, mas ele agora está responsável pela área de transportes e a nova equipe parece estar mais preocupada com a negociação de um acordo de comércio e investimentos com os Estados Unidos. O que poderá tornar ainda mais morosa a finalização do acordo.

Depois de catorze anos estamos ainda na rodada inicial de negociações. Nenhum dos dois blocos conseguiu apresentar uma proposta que brilhe os olhos do outro lado da mesa e tenho dúvidas de que isso virá a ocorrer ainda esse ano. O lobby interno dos produtores é forte e a área agrícola é a que mais interessa ao Mercosul. O desentendimento dentro do bloco aparentemente foi superado, mas ainda podemos ser pegos de surpresa em alguma fase da negociação.

A proposta sul americana propõe a abertura de 87% do mercado, mas os negociadores europeus gostariam que fosse mais próxima de 90%. A proposta europeia ainda nem foi apresentada, mas é provável que não corresponda as expectativas. Para que o acordo seja concluído o governo brasileiro terá que se dispor a ceder em alguns setores sensíveis como o de vestuário e medicamentos. O setor privado está cético com relação ao poder de manobra que Dilma terá para liberalizar mais setores industriais, mas o interesse do governo em agradar os europeus (e seus investidores) as vésperas das eleições é grande. Entretanto, o cenário mais otimista para a conclusão do acordo é 2015, mas só se a Argentina não apresentar nenhuma resistência e o lado europeu cooperar.

O sucesso desse acordo depende de tantos fatores desfavoráveis que depois de tantos anos nem consigo mais prever se ele se realizará. Agora nos resta apenas acompanhar e tentar projetar alguns cenários.

Por Ana Paula Ramos

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