Sobre cartas e brasileiros

Durante as eleições de 2002, Lula fez bem antes do período eleitoral um discurso que ficou conhecido como Carta aos Brasileiros. Vocês lembram o que ele disse na ocasião? Vou ajudar vocês a refrescar um pouco a memória com alguns trechos do texto, mas se você tiver interesse de le-lo na íntegra basta clicar AQUI.

Antes de começar eu gostaria de propor um exercício: Esqueça a data de elaboração da carta e veja o que acontece com as bandeiras levantadas. Vamos ao que interessa:

“O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos. Há em nosso país uma poderosa vontade popular de encerrar o atual ciclo econômico e político.”

O que tem ficado claro em todas as pesquisas desse ano? Que o brasileiro deseja mudança, mas que não sabem exatamente como alcança-la. Então eu me pergunto como é possível que, depois de 12 anos de PT no poder, essa mudança seja promovida. Como? Já estamos no PAC 3 e eu não consegui ver a conclusão nem do PAC 1. O governo tem utilizado artimanhas para omitir e maquiar dados para que os números não pareçam tão ruim aos olhos do povo. A base governista acha que não pode haver reforma política e também acham que abrir uma CPI em tempo de eleição será fatal. Fatal por que? Se o espírito de mudança retornou ao povo algo na forma como as políticas estão sendo conduzidas deve estar fora do contexto atual.

“Se em algum momento, ao longo dos anos, o atual modelo conseguiu despertar esperanças de progresso econômico e social, hoje a decepção com os seus resultados é enorme. Oito anos depois, o povo brasileiro faz o balanço e verifica que as promessas fundamentais foram descumpridas e as esperanças frustradas.”

A falta de resultados atinge a todas as camadas sociais e, principalmente, a economia. A maneira como essas políticas estão sendo conduzidas não são mais sustentáveis por um simples fato: Não estamos sozinhos no mundo e o cenário externo mudou. As crises de 2008 e a crise do euro em 2011 tiveram impactos diferentes no país. Se a primeira nos atingiu como uma marolinha, a segunda nos desestabilizou e apesar de continuarmos crescendo percebemos que os nossos índices estão cada vez mais pessimistas e instáveis. Para quem acompanha dados econômicos mensalmente a luz amarela já está acesa desde o ano passado e isso não é a mídia quem diz, são os números.

Sobre as esperanças e as promessas, o que sabemos é que o governo petista levanta a bandeira da igualdade social, pois quem tem menos renda tem que ter os mesmos benefícios de quem tem mais. Para mim isso é perfeitamente aceitável, mas dar benefícios em detrimento do desenvolvimento do país não parece ser o caminho mais adequado.

Os benefícios tem que ter prazo para acabar pelo simples fato de serem um meio e não o fim do desenvolvimento. Ele tem que vir com algo mais, que no caso seria o investimento na educação pública para que a qualidade do nosso ensino aumente e, por consequência, o nível técnico dos alunos também. Algo mais como o investimento em saúde, pois assim as famílias não precisariam gastar tanto com plano de saúde ou ter tantas experiências traumáticas e acabaria sobrando para investir em lazer, por exemplo. Muitos acabam esquecendo, mas o investimento em lazer se torna importante (não mais que os outros) por conta da formação cultural de um país. Esse aprendizado, esse olhar apurado para o que nos inspira e diverte não é conquistado somente na escola, é preciso um pouco mais de interesse e incentivo para isso.

Investimentos em infraestrutura também deveriam vir junto com os benefícios, pois facilitando a logística do país, mais empregos serão criados e mais competitividades terão nossas empresas fora do país. Eu sei que o PAC existe para isso, mas eu não consigo quantificar os benefícios que ele trouxe. Talvez isso tenha relação com o investimento menor aqui no DF, mas eu olho para o PAC e vejo um grande elefante branco principalmente quando penso nas obras do Rio São Francisco. A verdade é que muito disso parece ter uma finalidade eleitoreira e o que importa é que a população veja a obra e não que ela seja executada de fato.

Um fator do PAC que me intriga bastante também é o Minha Casa Minha Vida. Eu sei que muitas pessoas tem dificuldade para comprar a própria casa, mas qual a necessidade de um governo gastar bilhões destinados a infraestrutura com isso? Nossa realidade é cheia de ferrovias sucateadas e estradas, inclusive as recém reformadas, em estado crítico. O povo precisa de casa, mas se o governo fizer a parte dele com eficiência a condição para comprar vem como consequência. Enfim, vamos voltar a carta…

“O sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se. Por isso, o país não pode insistir nesse caminho, sob pena de ficar numa estagnação crônica ou até mesmo de sofrer, mais cedo ou mais tarde, um colapso econômico, social e moral.”

Incrível como as coisas são cíclicas, né?! A diferença é que o governo FHC tomou medidas e fez reformas que asseguraram o crescimento da era Lula. Não se enganem pensando que tudo foi obra dele. Ele se propôs a manter um programa que havia sido iniciado anos antes e quando isso se uniu a um momento de saída de crise mundial tudo conspirou para que a Era Lula acontecesse. Não foi uma ação isolada, foi um conjunto de variáveis que ele teve a sabedoria de administrar e manter. Agora o mundo está saindo de uma crise novamente e nós não temos reformas para impulsionar nosso crescimento. O discurso dos próximos anos, caso Dilma vença, vai ser bem interessante. A quem eles irão culpar?

“A sociedade está convencida de que o Brasil continua vulnerável e de que a verdadeira estabilidade precisa ser construída por meio de corajosas e cuidadosas mudanças que os responsáveis pelo atual modelo não querem absolutamente fazer.”

Alguém sabe o que aconteceu com a Reforma Agrária, a Reforma Tributária e a Reforma Previdenciária? Nunca vi acontecer e ultimamente mal ouço falar…

“Quer abrir o caminho de combinar o incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e criativas. O caminho das reformas estruturais que de fato democratizem e modernizem o país, tornando-o mais justo, eficiente e, ao mesmo tempo, mais competitivo no mercado internacional.”

As reformas estruturais não aconteceram. A educação continua sem qualidade, a saúde continua caótica, a segurança também não está lá essas coisas. Se ser um país justo é “a empregada poder comprar o mesmo perfume que a madame pagando em 18x” (isso foi dito por Lula em uma entrevista dizendo que a insatisfação com o governo que tanto falam é puro recalque de quem tem poder aquisitivo) algo deve estar muito errado comigo. O senso de justiça que eu aprendi é muito diferente disso.

Com relação a eficiência nem preciso dizer muita coisa. Basta olhar para as obras da copa e do próprio PAC e veremos o atestado de ineficiência do nosso governo (não vou falar da educação e da saúde de novo para não ser repetitiva). E sobre competitividade não preciso falar muito também. Basta procurar qualquer ranking mundial sobre o tema e você vai ver que nos últimos anos nos tornamos cada vez menos competitivos.

“O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos não será compensado em oito dias.”

E o que se desfez ou se deixou de fazer em doze anos? Quanto tempo vai levar para compensar?

Depois desse trecho a Carta chega exatamente no motivo pelo qual foi escrita, pois apesar do nome ela foi direcionada ao mercado financeiro e os investidores externos. Com ela o Lula queria demonstrar que apesar de o PT ser considerado de esquerda ele não iria deixar de honrar os compromissos do país e que eles poderiam ficar tranquilos e continuar deixando o dinheiro deles aqui. Observem o que tem acontecido com a bolsa quando a Dilma cai nas pesquisas e vocês vão entender.

“Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país. As recentes turbulências do mercado financeiro devem ser compreendidas nesse contexto de fragilidade do atual modelo e de clamor popular pela sua superação.”

Nesse quesito a promessa foi cumprida, quem rompeu contratos inadvertidamente foram nossos vizinhos. Mas a conta para quem perde confiança internacional é tão alta que não ia valer a pena quebrar contratos.

“À parte manobras puramente especulativas, que sem dúvida existem, o que há é uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho da economia e com sua fragilidade atual, gerando temores relativos à capacidade de o país administrar sua dívida interna e externa. É o enorme endividamento público acumulado no governo Fernando Henrique Cardoso que preocupa os investidores.”

Vamos esclarecer uma coisa, o endividamento público do governo FHC foi acumulado anos antes. Veio desde o regime militar, se intensificou no governo Collor por conta da abertura do mercado interno e com o descontrole da inflação foi só piorando. Leiam uns livros de história e vocês vão entender.

Ele finalizou a carta com o seguinte chamamento:

“O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.”

O saldo foi positivo, mudamos muitas coisas, mas as mudanças estruturais que farão com que o nosso país cresça continuam sendo deixadas de lado. Então no final das contas em que avançamos nos últimos doze anos? Não consigo ver tudo aquilo que foi prometido em campanha e não vejo meios de apenas quatro anos modificarem tudo o que precisamos. Se não foi feito em doze, porque será feito em quatro?

As vezes é bom lembrar de algumas coisas

Por Ana Paula Ramos

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