Mais um no bonde

Ontem o Partido Progressista ofereceu um almoço a presidente Dilma, em Brasília, e anunciou apoio a reeleição da pré candidata. Quem fez a declaração foi Ciro Nogueira, o presidente nacional do partido. Ele aproveitou o encontro para entregar a Dilma um documento com onze pontos que servirão para o programa de governo do PT, uma das sugestões é que o Estado seja mais enxuto e menos interventor.

Mas nem tudo são flores no PP, a presidência nacional enfrenta algumas dissidências pelo país e pode ser que a Convenção marcada para 25 de junho retire o apoio a presidente. Muitos delegados desejam que o partido seja neutro nas eleições presidenciais, como aconteceu em 2010. O maior exemplo da falta de unidade partidária foi a ausência da senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), que é a pré candidata do partido ao governo do Rio Grande do Sul. Além de não ter ido ao almoço, ela apoiará a candidatura de Aécio Neves (PSDB-MG) e fará campanha para que o partido se mantenha independente nas eleições.

Há resistência ao apoio de Dilma em outros estados como Acre e Alagoas, que ainda não definiram apoio a nenhum partido. Diferentemente do Rio de Janeiro, que parece pender para o lado de Aécio Neves também. Já Paulo Maluf (PP-SP) declarou apoio a Dilma e afirmou que apoiará o candidato do partido, Alexandre Padilha, ao governo do estado (leiam ESSA notícia e tirem suas próprias conclusões sobre esse apoio incondicional).

Agora vamos entender a importância do PP para o PT. Já falei algumas vezes que nossa eleição é decidida por tempo de televisão durante a campanha e o motivo disso é muito simples: as pessoas não se aprofundam, elas não têm interesse em conhecer mais de perto a atuação do candidato antes dele brotar na tela da TV todos os dias durante três meses. Claro que estou generalizando, mas o fato é que quanto mais bonita a propaganda e mais íntegro o candidato parecer mais votos ele receberá. Principalmente se ele não for um desconhecido completo, porque aí o corpo a corpo terá que ser maior.

Tendo isso em mente as alianças partidárias têm como objetivo principal o aumento do tempo de exposição dos candidatos na propaganda eleitoral veiculada diariamente, a partir de julho, em horário nobre. Ainda não se sabe qual será a tabela utilizada pelo TSE, porque no ano passado a Câmara dos Deputados aprovou uma nova divisão de tempo entre os partidos. Surpreendentemente, a mudança favoreceu o PT, que ganhou mais de dois minutos de propaganda. O PSDB ganhou alguns segundos e o PSB perdeu outros segundos, mas no fim das contas os grandes perdedores foram os partidos menores, pois todos estão com menos tempo de TV de acordo com a nova diretriz. Um exemplo disso é o PSDC, que tinha 55 segundos e agora terá apenas 18 segundos. Minha pergunta é: O que um candidato vai apresentar em menos de 60 segundos?

Enfim, o jornal O Globo, no fim do ano passado publicou essa tabela com o tempo de TV de cada partido. O tempo definido considera uma propaganda eleitoral de 25 minutos, ou seja, por dia o PT terá direito a pouco mais de três minutos de exposição. Dá uma olhada no PP e no PDT, que já demonstraram interesse em se aliar ao PT e sente a força que Dilma terá em julho.

PARTIDO NOVA BANCADA* TEMPO DE TV*
PT 86 03’03”26
PMDB 71 02’34”02
PSD 49 01’51”13
PSDB 49 01’51”13
PP 40 01’33”54
PR 31 01’16”04
PSB 27 01’08”25
Solidariedade 23 01’00”45
DEM 21 00’56”55
PTB 19 00’52”65
Pros 18 00’50”70
PDT 14 00’42”91
PCdoB 14 00’42”91
PSC 13 00’40”96
PV 11 00’37”06
PRB 8 00’31”21
PPS 6 00’27”31
PTdoB 4 00’23”41
PSOL 3 00’21”46
​Demais 6 03’58”31
TOTAL 513 25min​​
Fonte: Câmara dos Deputados e TSE / *sujeito a alterações

Ao que tudo indica, a coligação do governo poderá ter mais de sete partidos, vamos torcer para que as pessoas se preocupem mais com o conteúdo e menos com a forma.

Por Ana Paula Ramos

Ps.: Quando o TSE decidir como será a tabela eu faço um texto novo avisando.

Ps2.: Essa tabela foi publicada na revista veja em outubro do ano passado. Se quiserem dar uma olhada nela e no texto que a acompanha basta clicar AQUI

Aécio na TV

Eu sei que enrolei para escrever sobre isso, mas antes tarde do que nunca. Estamos em período de propaganda partidária e já falei do programa nacional do PSB nesse post AQUI, agora é hora de fazer considerações sobre o programa do PSDB. Ele foi ao ar mês passado e o garoto propaganda, óbvio, foi Aécio Neves.

Se você não teve a oportunidade de assistir ou não lembra porque já passou muito tempo então assiste aqui embaixo e depois vamos conversar sobre ele

Para começar já gostei da fala da abertura, que nem foi do Aécio, mas foi bastante pertinente:

A política é igual a televisão sem controle remoto. Se você não levantar para mudar vai continuar assistindo o que não quer

A mensagem é simples e clara, não adianta só achar ruim. Tem que fazer alguma coisa para mudar, eu comecei fazendo esse blog com o objetivo de tentar tocar mais pessoas para a necessidade de participação política e você, o que tem feito?

Depois da introdução feita pelo ator quem domina a cena é o Aécio Neves, obviamente que ele se apresenta e mostra as bandeiras que defende

Meu nome é Aécio Neves e eu sou alguém que acredita profundamente na capacidade transformadora da política. Mas da política feita com seriedade, com planejamento, com amor mesmo ao Brasil.

Nesse conjunto de frases ele falou tudo o que nós queríamos ouvir. Pelo menos eu gosto muito de saber que alguém além de mim entende que a política é um meio de atingir um fim, que é o bem comum. Mas claro que essa fala redondinha me intriga, sempre fico atenta aquilo que soa como música aos meus ouvidos porque tudo o que é perfeito demais e se encaixa demais pode ser uma grande arapuca. Então juntem mais peças antes de se entregar a essas duas orações.

Depois ele fala da experiência de vida com os avós (algo bem parecido com o bate papo de Marina e Eduardo falando sobre a família dele em Pernambuco), sim ele é neto de Tancredo Neves, por isso o sobrenome. E falou sobre a influência dos avós e do pai em sua decisão de entrar para a política:

Faziam (os avós e o pai) política porque acreditavam na política, com absoluta integridade pessoal, honestidade de princípios e foi aí que de alguma forma eu passei a compreender a importância da política numa sociedade democrática.

Para continuar o currículo básico eles falaram que Aécio foi eleito deputado federal quatro vezes e em todas foi líder do PSDB na câmara. Tanto que chegou a presidência da Câmara e conseguiu organizar um pouco aquela casa da mãe Joana. Foi em sua gestão que o ponto eletrônico foi instalado no congresso, a imunidade parlamentar foi extinta e conseguiu economizar dinheiro do orçamento da Câmara para devolver ao erário.

A gestão planejada e eficiente é econômica. Não há nenhuma medida de maior alcance social, que melhore mais a vida das pessoas do que a boa aplicação do dinheiro público, com planejamento e transparência.

Eu sei que tem gente do PSDB envolvida no mensalão mineiro e não sei se ele é completamente limpo, mas essa declaração e os resultados que ele apresentou também me parecem bastante interessantes. Eu sempre disse que o problema do nosso país estava na gestão e ouvir alguém falar, finalmente, em gestão planejada parece indicar que há uma luz no fim do túnel.

Depois a pauta passa a ser a gestão dele em Minas, Aécio assumiu o governo com 42 anos quando o estado estava em crise, de acordo com o comercial: “uma das piores crises de sua história”.

O êxito do nosso governo (…) foi em razão das medidas que nós tomamos no princípio, nos primeiros dias. De enxugamento da máquina pública, de redução do número de secretarias, de cargos comissionados, dos exemplos pessoais que eu precisava dar numa situação dramática que vivia o estado. Nós não tínhamos dinheiro sequer para pagar a folha salarial. Cortei pela metade o meu salário, congelei o salário de todo o primeiro escalão e disse o seguinte: olha, vai trabalhar aqui quem quiser me ajudar a transformar Minas Gerais. Eu não tive direito nem condições de estabelecer duas, três, quatro, cinco prioridades. Estabeleci uma: Educação. Então nós criamos as metas para todos os servidores da educação. Hoje, segundo o governo federal e a Prova Brasil, os alunos de Minas são os que tem o melhor desempenho no Ensino Fundamental.

Não conheço muitas pessoas em Minas, mas nunca ninguém falou mal da gestão dele para mim, então talvez seja verdade tudo o que ele falou. As iniciativas foram boas, cortou excessos de onde todo mundo sabe que jorra dinheiro e aplicou em um ponto fundamental. Fazer isso no segundo maior colégio eleitoral do país não é fácil, conseguir êxito ao tomar uma atitude dessa a nível nacional poderá ser ainda mais difícil e pouco popular entre o primeiro escalão da política. Duvido que algum deputado aceite que seu salário seja congelado para aplicar o dinheiro em educação…

Mas o que interessa é que, mesmo com essas medidas (ou talvez por causa delas) Aécio foi reeleito com 77% dos votos em primeiro turno na eleição seguinte. Aí ele aproveitou para vender o peixe e dizer que o governo não foi do partido e dos aliados e sim das melhores figuras públicas que ele pode reunir. Obviamente que ele também deu aquela alfinetadinha básica na polarização com o PT

É isso que nós precisamos ver no Brasil, um governo qualificado. Vamos virar essa página, dessa tentativa de fazer uma divisão entre nós e eles. Aqueles que criticam o governo, aqueles que se indignam com o que está acontecendo no Brasil são os pessimistas, são os que não gostam do Brasil. E os que bajulam o governo são os patriotas. Nada disso. Nós temos que ter generosidade e fazer um Brasil que seja de todos porque o Brasil tem jeito, o problema não é o povo, o problema é o governo que está aí. E quando o governo vira o problema, aí a saúde vira problema, a educação vira problema, a segurança pública vira problema. O que nós precisamos é de uma nova visão de Estado.

Essa parte do discurso caiu um pouco por terra essa semana quando o PSDB voltou a atacar o governo Dilma em vez de se preocupar com propostas. O que estamos vendo é uma escalada da polarização entre PSDB e PT e não sei se esses ânimos vão se acalmar até as eleições. O PT jogou a isca e atacou, o PSDB mordeu e tá começando a atacar de volta. Vale a pena continuar conferindo, principalmente porque o PSB está começando a mostrar as garras também ao desfazer o acordo de apoio mútuo ao PSDB (mas isso é tema para outro post ;D).

Com relação as manifestações de junho ele também fez alguns comentários:

O que nós assistimos no Brasil no ano passado foi uma sinalização muito clara de que o brasileiro não aceita mais passivamente o desgoverno. Um governo que não conversa, que se omite nas questões essenciais, como saúde, como segurança. Um governo que acha que pode governar só com a propaganda, e não pode. Se nós não tivemos a partir daqueles eventos de junho uma melhoria na qualidade da saúde, da educação, da mobilidade urbana, da própria segurança, nós tivemos uma modificação profunda na cabeça das pessoas. Os governantes, todos eles, de qualquer partido, tem que estar muito atentos. Ou se dá respostas claras, objetivas, de como fazer ou se explica aquilo que não é possível fazer ou pagarão um preço caro.

A modificação na atitude das pessoas foi tão inesperada que o governo não soube atender as demandas do gigante, que voltou a dormir, mas ninguém tem certeza de até quando. As últimas manifestações estão com um tom diferente das que ocorreram em junho. Já vemos bandeiras de partidos e organização de minorias dentro de alguns segmentos da população e isso é uma combinação perigosa se não for bem acompanhada.

Quanto a parte de governar por propaganda eu gostei bastante. Gente, não dá para negar que uma propaganda bem feita enche os olhos, mas precisamos de mais foco no conteúdo e na coerência entre discursos e ações. Lembrem-se que o mestre da lavagem cerebral por propagandas era o Hitler (e o Goebbles), então fiquem atentos a quem vocês colocam no poder.

No restante da propaganda ele fala da peregrinação dele pelo país, mostra que está disposto a ouvir o povo e que o que ele mais quer é conversar com quem entende dos problemas da população, ou seja, o própria provo.

Apesar de se assemelhar um pouco a propaganda do PSB na parte que fala dos avós eu achei bem interessante o jogo de palavras. Falou os nossos problemas estruturais e tentou mostrar uma forma de melhorar o desempenho (não só aumentar números) da educação. Citou as manifestações e falou como um governante deve agir, mas devemos lembrar que durante junho ele estava tão estupefato quanto todos.

Ainda é cedo para decidir, mas vou continuar acompanhando as proposições dele. Em julho o bicho vai pegar.

Por Ana Paula Ramos.

O Brasil quer voltar a sorrir

Aquela propaganda apelativa lançada pelo PT foi alvo de uma releitura e com ela eu tive certeza de que a criatividade do ser humano não tem limites. Ainda não conseguiu ver? Então dá play aí embaixo e foca na fala do narrador:

Conseguiu acompanhar?

“O brasileiro que tanto batalhou por uma vida melhor, hoje olha pessimista para o futuro. Vê conquistas que levaram décadas para serem alcançadas destruídas num piscar de olhos pela incompetência e corrupção. O insignificante crescimento da economia, a volta da inflação e o desemprego assustam. Não podemos continuar do jeito que está. Já deu! O Brasil quer voltar a sorrir.”

A fala foi bem diferente da propaganda veiculada na TV, mas o qual você acha que traduz com mais fidelidade a nossa realidade?

Por Ana Paula Ramos

Setorização de Preferências

O IBOPE divulgou uma pesquisa em que as preferências partidárias do eleitorado brasileiro foram captadas. A mesma pesquisa foi realizada em 1995 e em 2002, o que possibilita uma base de comparação interessante do perfil do eleitorado brasileiro.

Atualmente os eleitores estão divididos da seguinte forma: 43% estão no Sudeste, 26% no Nordeste, 15% no Sul e 15% no Norte/Centro-Oeste. No país inteiro, 39% dos votantes têm até 44 anos e 61% estão acima dos 45 anos.

Com relação aos partidos, o PT é o preferido englobando 21% do total já o PSDB conta apenas com 5% da preferência nacional. Um fato curioso da pesquisa é a modificação do eleitorado petista, em 1995 e em 2002, 27% das pessoas que preferiam o partido possuíam até 24 anos. Hoje essa parcela diminuiu para 17%.

Entretanto quando se olha para o eleitor mais velho observa-se que na pesquisa anterior 25% dos que simpatizavam com o PT tinham mais de 40 anos. Na pesquisa mais recente o IBOPE modificou as faixas etárias dividindo o eleitorado entre votantes que tem até 44 anos e os que tem mais de 45 anos.

Essa nova distribuição etária mostra que 39% dos eleitores têm até 44 anos enquanto 61% tem mais do que isso. Dentre esses, 38% do primeiro grupo e 62% do segundo preferem o PT.

É interessante ver como a população muda suas preferências ao longo dos anos, mas esse tipo de ocorrência não é radical. Apesar de ainda ser o preferido por grande parte do eleitorado, o PT tem perdido adeptos. O PSDB, talvez pela polarização, não consegue ganhar os dissidentes e o cenário eleitoral acaba por favorecer o partido de Lula e Dilma.

O fato de os simpatizantes mais jovens estarem diminuindo também demonstra que a base de renovação do PT pode estar diminuindo, o que pode continuar prejudicando o partido que já sofre com a ausência de sangue novo e potente. Lula não viverá para sempre, como será que o partido se sustentará sem o seu maior cacique?

Por falar em jovens, eu acho que seria interessante fazer uma pesquisa sobre a evolução do ingresso de pessoas até 24 anos em partidos políticos nos últimos vinte anos. Eu tenho a impressão de que a nossa juventude (inclusive eu que me enquadro nessa parcela e não sou filiada a nenhum partido) está cada vez menos participativa nesse quesito, mas nada impede que surpresas aconteçam… Se eu conseguir fazer e compilar a pesquisa um dia me comprometo a publicar aqui no blog, façam o favor de ler!

Por Ana Paula Ramos

Já pode ter um treco

Recebi uma imagem pelo whatsapp. Quando li e vi as referências quase tive um treco! Veja você mesmo:

Blog

A única coisa que consigo pensar é: será que quem inventou isso tava falando sério? Eu sei que o DF viveu uma época de ouro com o Arruda, mas daí a querer que um corrupto volte ao poder quando o país inteiro está tão cansado de ser passado para trás é meio sem sentido, não?

É cada doido que me aparece…

Por Ana Paula Ramos

De reserva a atacante

Marta Suplicy já foi melhor aproveitada pelo PT em outras épocas, mas desde 2010 tem sido deixada em segundo plano. A atual ministra da cultura foi Prefeita de São Paulo de 2001 a 2004 e concorreu algumas vezes ao cargo de governadora do estado, mas nunca ganhou.

Em 2010, sua candidatura ao governo foi substituída pela de Aloízio Mercadante e em 2012 sua aspiração a prefeitura foi barrada por Fernando Haddad. Como prêmio de consolação ela ganhou o ministério da cultura após a saída de Ana de Holanda.

O fato é que Marta Suplicy foi colocada no banco de reservas do PT, não sei se consensualmente, e agora está sendo chamada a linha de ataque novamente. Sua participação na campanha de Dilma dentro da cidade poderá ser fundamental, pois já está integrada o núcleo central das pré campanhas de Padilha e Dilma no estado.

No início do mês já havia participado de uma reunião com Rui Falcão, o presidente nacional do PT, Emídio Souza e Edinho Silva, futuro tesoureiro da campanha de Dilma. O objetivo do encontro era definir qual seria a participação da ex prefeita na campanha dos dois.

Apesar das conversas, dificilmente a ministra assumirá formalmente a coordenação da campanha de Dilma em São Paulo. Mas em setenta dias, ela teve vinte e três compromissos oficiais na cidade. A importância da cidade para a candidata a presidência está ligada a resistência que o setor empresarial adquiriu ao seu governo nos últimos anos.

Marta Suplicy virou peça chave para dialogar com os representantes do empresariado e da área política local, pois Haddad tem recebido avaliações cada vez mais negativas e não tem fôlego para trazer frutos com as conversas. O dinheiro para financiamento da campanha e o voto de um grupo que costuma votar em blocos é o que está em jogo a partir de agora.

Em breve veremos se essa peregrinação renderá frutos ao partido.

Por Ana Paula Ramos

A Copa

Demorei bastante tempo para escrever sobre esse tema simplesmente porque ele divide meu coração. Eu gosto de futebol, muito. Sou do tipo que não assiste a todas as partidas, mas tento estar por dentro do que está acontecendo nos campeonatos principais pelo simples fato de achar o esporte fantástico.

Gosto também do que ele representa ao povo brasileiro, de como ele move milhares aos estádios e do poder que um gol tem sobre tantas pessoas. O fato mais curioso disso tudo é que eu não tenho time. Minha mãe sempre me ensinou a assistir jogos, mas nunca disse que eu tinha que escolher um para torcer aí continuei feliz só assistindo.

Minha política é: Sempre torço para o Brasil e quando tem time brasileiro em competição internacional é para ele que vou torcer independente de quem seja. Pensando nisso acho que não tenho um time porque eu sou daquelas torcedoras extremistas, eu assisto o jogo e sofro do início ao fim e cada jogada parece que vai me fazer ter um infarto. E esse meu sofrimento não é só para o futebol. Qualquer esporte tem esse poder sobre mim. Acho que o meu cérebro me poupou desse sofrimento semanalmente optando por não escolher um time, só pode (Eu sei que não faz muito sentido, mas é a vida).

Enfim, essa paixão me dividiu durante muito tempo. Inclusive eu fiquei muito feliz quando soube que a Copa do Mundo seria aqui. Eu assisti todas desde 98 (já disse que eu sou ligeiramente jovem) e estou vivendo para ver o campeonato mais importante do mundo em terras brasileiras. É de empolgar qualquer um e, a menos que você não suporte futebol, é hipócrita dizer o contrário.

Quando o Blatter tirou o papelzinho com o nome do Brasil no sorteio feito em 2009 eu achei espetacular, mas passada a euforia começaram as indagações. Nós já havíamos feito um Pan americano no Rio, uma Copa e uma olimpíada não seria um grande desafio, seria? Depois de dois anos o Brasil descobriu que a Copa seria sim uma pedra no sapato dos governantes e no ano da Copa das Confederações essa falha ficou clara para o resto do mundo.

A impressão que eu tenho hoje é que a Copa foi um grande tiro no pé, porque quando o Lula foi a Zurique defender nossa candidatura ele queria quebrar um paradigma. Ele queria mostrar ao mundo e, principalmente, aos críticos que Copas não são eventos de países ricos. Até porque Uruguai, Chile, México, Argentina e África do Sul já foram palco do espetáculo. Como ele mesmo disse em sua coluna na edição brasileira do jornal El País (se não leu clica AQUI), ele lutou pela Copa não por motivações político-econômicas e sim pelo que o futebol representa para todos.

O discurso é bonito e mostra exatamente a desorganização que vemos hoje. Uma Copa é um evento voltado para o lazer, mas a estrutura para que ele aconteça demanda muito mais do que paixões. Ainda assim acreditei que poderia dar certo e essa seria a chance de vermos nosso sistema funcionando. Foi um grande engano, a decepção que senti ao ver que não conseguiríamos fazer uma Copa como eu havia visto pela televisão foi grande.

Não foi a beleza do evento que me decepcionou, foi a falta de infra estrutura, o desrespeito a população que foi desabrigada em nome do evento, o aumento dos gastos com as obras, a desorganização na entrada do estádio, o desrespeito aos prazos, a ausência de logística e o incrível dado de que menos de 50% das obras necessárias foram concluídas.

O que isso tudo revela? Simplesmente a nossa incompetência. No ano em que o Brasil foi escolhido, o nosso presidente nos vendia como o futuro do mundo, o país que todos deveriam ficar de olho, a potência da América do Sul e uma série de adjetivos que supervalorizavam o nosso país com o objetivo de atrair investidores. Cinco anos depois o mundo viu que douraram demais uma pílula oca e agora todos cobram resultados e a falta deles continua manchando nossa imagem por todo o globo.

Eu gostaria de saber o que passa de verdade pela cabeça do Lula e da Dilma ao ver uma reportagem como a do Financial Times, que associa a nossa presidente aos irmãos Marx (clique AQUI para ler a notícia). E como se não bastasse vincular a imagem dela a de comediantes, eles ainda citam os problemas que a governante tem em mãos como o escândalo da Petrobras e o problema energético. O mais intrigante é que nossa falta de memória é tão conhecida que no final do artigo ele ainda cita que esses problemas provavelmente serão esquecidos caso a Seleção tenha um bom desempenho.

Deve ser realmente intrigante ver que toda a imagem construída ao longo dos oito anos que esteve na presidência está indo por água abaixo por causa de monstro que eles próprios criaram. O fato de a Copa acontecer e tudo dar certo no final não apaga o que deixou de ser feito, não apaga o desalojamento de famílias e nem a dívida que vai ficar para o próximo governante pagar.

O fato é que não há mais o que se fazer com relação a isso já até falei em um dos posts aqui do blog que já fomos derrotados na Copa fora de campo. A essa altura do campeonato não há mais o que fazer, ficamos mais de 20 anos sentados dentro de casa acomodados com tudo o que o governo impunha. Ano passado resolvemos reivindicar, mas esquecemos que é preciso organização até nisso, não dá para quebrar embaixada e fazer protesto faltando um mês para a Copa ou durante a Copa das Confederações. Esse tipo de reivindicação tem que ser feito antes, no ato da nomeação.

Por exemplo, se houver um novo sorteio e escolherem o Brasil novamente para algum evento desse tipo, mobilizem-se para ir a rua assim que o resultado sair e, principalmente, antes das obras começarem. Não deixem as coisas chegarem a esse ponto para se indignar, uma população consciente fica atenta a tudo o que o governo faz para saber a hora de bater o pé. Afinal de contas, quem eles estão representando? Em nome de quem eles agem?

No fim das contas eu continuo querendo assistir o espetáculo da Copa, mas sei quanto ele nos custou e vai custar ao longo dos próximos anos, afinal muitas obras de mobilidade estão inacabadas e um dia elas terão que continuar. Meu coração verde amarelo torce para que a nossa seleção ganhe, mas torce mais ainda para que essa revolta se converta em consciência na hora de apertar confirma em outubro. Mesmo que o Brasil vença, não deixe que isso modifique a sua consciência sobre os fatos, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra e essa vitória não depende de quem trouxe a Copa para o país lembrem-se bem disso.

Por Ana Paula Ramos