Dados que revelam o caráter de um país

O que tem causado o maior bafáfá no Brasil essa semana tirando nosso foco de fatos políticos importantes (aprendam a não ser monotemáticos, a distração é uma tática comumente utilizada por aqueles que desejam conseguir algo como, por exemplo, diminuir a atenção do público sobre o leilão da usina dois irmãos, o escândalo da Petrobrás e o cartel do metrô de São Paulo. Fiquem espertos. Políticos e mídia são mestres em utilizar esse tipo de tática) é a pesquisa divulgada pelo IPEA (uma agência do governo, lembrem-se) sobre a tolerância social a violência contra as mulheres e um estudo sobre o estupro. Para ver as pesquisa completa é só clicar AQUI e se você clicar AQUI poderá ver o estudo que analisa a ocorrência do estupro no Brasil.

Para medir a tolerância social a violência contra a mulher o IPEA pegou 25 frases que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida e pediu para algumas pessoas dizerem se concordavam ou não com as assertivas. Na amostra responderam ao questionário 3.810 pessoas (homens e mulheres) residentes em municípios metropolitanos e não metropolitanos de todas as regiões do país. Do total, 56,7% moram nas regiões sul e sudeste e 29,1% em áreas metropolitanas.

Peguei nove das vinte cinco frases e transformei em gráficos para que vocês entendam um pouco do que essa pesquisa mostra, e sei que boa parte dos leitores não concordarão comigo, mas não é surpresa para ninguém. O nosso Brasil miscigenado é extremamente machista e preconceituoso. Como o próprio IPEA diz em um dos estudos, nossa sociedade foi criada com uma mente patriarcal e isso tem evoluído ao longo dos anos, mas mesmo com o ganho de espaço que as mulheres tiveram e com alguns exemplos de tolerância aos homossexuais que tivemos a maioria de nós ainda é machista e intolerante.

Roupas curtas - Gráfico

Comportamento mulheres - Gráfico

O que mais repercutiu na mídia foi a questão do estupro porque, sem dúvidas, é um absurdo. De acordo com os resultados parece que se um estuprador chegar ao tribunal e falar: “Poxa, meretíssimo, ela tava de roupa curta e se esfregando em mim aí eu queria ir para os finalmentes com ela, mas ela disse não, aí eu fui lá e estuprei ela, afinal ela tava pedindo”. Oi? Uma vez aprendi que a linha que separa uma relação sexual do estupro é o não da mulher ou do homem, afinal eles também são vítimas de estupro. Se a pessoa não está a fim não há conversa, a relação sexual tem que ser consensual independente da forma como a pessoa está agindo ou das roupas que está vestindo. O que determina se a relação tem que acontecer é a vontade das pessoas.

Homens mandando - Gráfico

Toda mulher quer casar - Gráfico

Realização feminina -Gráfico

Mas o machismo não está presente apenas na questão do estupro, está também no fato de que 63,8% dos entrevistados concordam que “Os homens devem ser a cabeça do lar“. Gente, no mundo em que vivemos esse pensamento é tão retrógrado que me dá náuseas. Se homens e mulheres trabalham e resolvem se casar a cabeça dos dois tem que trabalhar cooperativamente para que soluções sejam encontradas. Homens não são melhores que mulheres para serem os donos do lar. Um casamento tem o companheirismo como base então as decisões precisam ser conversadas. Nem homem, nem mulher. Um lar que tem um casal deve ser governado pelos dois, ok? Sem feminismo e com senso. Se o lar só tem o homem, nada mais justo que ele dê as ordens, se o lar só tem a mulher, ela também é a senhora do destino. Agora afirmar que os homens são os responsáveis pelas decisões da casa sempre não é muito sustentável. Casal que toma decisão junto permanece unido. Não tem porque culpar o outro depois já que você também contribuiu na tomada de decisão. É simples, é só usar a cabeça e não tem nada a ver com quem ganha mais ou com quem trabalha ou não. É uma questão de senso comum. Se a decisão afeta o casal, o casal decide.

Ainda sobre machismo, é incrível a generalização existente na seguinte frase “Toda mulher sonha em se casar“. E o mais engraçado é que 78,7% dos respondentes concordaram. Gente, compor família é legal e tal, mas eu conheço algumas mulheres que não querem se casar e são muito bem resolvidas com isso. Então muito cuidado com generalizações, existem outras formas de se constituir famílias além do casamento. E hoje os exemplos de mulheres (e homens) que não querem se casar e/ou ter filhos é crescente então abram a mente de vocês para o novo e aceitem as pessoas como elas são.

Direitos iguais - Gráfico

Casamento homo - GráficoAmor entre homens - GráficoHomens se beijando - Gráfico

Com relação ao homossexualismo (sei que agora estou entrando em um assunto ainda mais delicado) a população se mostra ainda mais intolerante. Na verdade, além da intolerância a gente vê uma certa confusão na cabeça das pessoas, olha só: 50,1% concordou que “Casais de pessoas do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos dos outros casais“, ao mesmo tempo, 51,7% acha que “Casamento de homem com homem ou de mulher com mulher deve ser proibido“. Gente, como é isso? O percentual é praticamente o mesmo, mas como eles vão ter os mesmo direitos dos outros casais se o casamento deve ser proibido? Não consegui entender… Outra questão intrigante é que apesar de casais heterossexuais se beijarem em público, 59,2% afirma que  “Incomoda ver dois homens, ou duas mulheres, se beijando na boca em público“. Mas na outra questão eles não disseram que os casais homo e heterossexuais deveriam ter os mesmos direitos? De que direitos estamos falando então?

Esse resultado confuso mostra como muitas pessoas tem um discurso de que não são preconceituosas com homossexuais, que aceitam bem a opção das pessoas, mas não acham que o relacionamento seja normal ou que seria uma alegria ter homossexuais na família, principalmente se for filho ou filha. Vamos conversar uma coisa de uma vez por todas, se você não acha legal ter um filho homossexual você tem alguma coisa contra e não, você não acha normal. Para de tentar se enganar que vai ser bem mais simples e ninguém vai te crucificar por isso. Só não seja incoerente ao dizer que os homossexuais devem ter o mesmo direito dos outros casais, mas não podem se beijar em público, nem se casar e muito menos ser sangue do seu sangue.

Quando você se aceita como é e se conhece fica mais fácil defender os seus pontos de vista, não tenha medo de defender suas ideias, mas lembre-se que o outro lado também pode fazer a mesma coisa. Eu sou a favor da igualdade de direitos entre casais homo e hétero, acho normal demonstrações de carinho em público (um alerta para os agarramentos exagerados, eles são vulgares para heterossexuais, pq não seriam para os homos?) e se tiver um filho ou filha homossexual vou achar super normal. Isso é o que eu penso, nada contra quem não pensa assim, mas tenha coragem de assumir suas próprias bandeiras e entenda a natureza delas. Fazer discurso de que apoia o homossexualismo desde que fora das suas vistas e da sua casa é que não faz o menor sentido.

Por Ana Paula Ramos.

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2 pensamentos sobre “Dados que revelam o caráter de um país

  1. E considerando o erro depois assumido pelo IPEA? Uma sugestão é o livro “A Cabeça do Brasileiro”, várias coisas batem, mas acho que ele faz um retrato mais nítido.

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