Para Entender: Venezuela

Percebi que vocês gostaram bastante do post sobre a Ucrânia (não leu? Clica AQUI) por isso resolvi fazer um Para Entender sobre a Venezuela. Vocês estão acompanhando os protestos que tem acontecido por todo o país? Se a resposta for não, não se preocupe vou explicar tudo nesse post.

Como tudo começou?

Em março do ano passado, vocês devem se lembrar, o presidente Hugo Chavez (aquele que dizia que o Bush cheirava a enxofre) faleceu por conta de um câncer. Com a vacância do cargo de presidente, o vice Nicolás Maduro, assumiu o cargo interinamente, mas os venezuelanos precisariam eleger um novo representante. A partir de então Maduro entrou em campanha afirmando que daria continuidade as políticas Chavistas e a oposição, liderada por Henrique Capriles, viu a eleição como uma oportunidade única de mudar o rumo da Venezuela.

Quarenta dias após a morte de Chavez o povo foi as urnas e elegeu Maduro para a presidência. A vitória foi apertada 50,66% contra 49,07% de acordo com dados oficiais. O candidato da oposição acusou o governo de fraude e pediu recontagem dos votos, mas o resultado não foi modificado.

A partir da confirmação de Maduro na presidência passamos a conhecer mais de suas facetas e, com o passar do tempo, ele foi se mostrando ainda mais autoritário que seu sucessor. Maduro polarizou o cenário político de tal forma que se a pessoa não concorda com as ações de seu governo é opositora. O velho nós e eles. O problema é que a repressão aos “opositores” é violenta e prisões sem motivo passaram a ser cada vez mais frequentes no país.

E foi por conta da prisão de universitários durante manifestações contra o governo que no dia 12 de fevereiro, o Dia da Juventude, estudantes e simpatizantes da oposição se reuniram na Praça Venezuela. Eles reivindicavam a libertação dos manifestantes detidos e também criticavam a política econômica de Maduro. Em contrapartida, militantes chavistas reuniram-se em diversos pontos do país para comemorar a Batalha da Vitória (que deu a independência a Venezuela). A passeata dos militantes chavistas foi amplamente transmitida pela televisão estatal e acabou se transformando em um ato em defesa do presidente. A manifestação dos opositores não foi mostrada e teve destaque apenas em canais privados.

Entendam uma coisa aqui nesse ponto, as manifestações estavam acontecendo a mais ou menos uma semana, mas no dia 12 começaram a ser contidas com mais violência. O governo percebeu que não era mais suficiente apenas prender as pessoas, pois isso estava fortalecendo as manifestações pelo país. Deliberadamente ele decidiu que deveria conter as pessoas com mão de ferro e o dia da juventude marcou a escalada da violência. Nesse dia, três pessoas foram mortas, mais de 100 ficaram feridas e 99 foram presas durante o protesto.

Venezuela

A garota no colo do rapaz era miss turismo da Venezuela.

Foi morta no dia 18/02 durante os protestos.

O que motivou os protestos?

Para não restar dúvidas, os protestos inicialmente eram contra os altos índices de criminalidade. Para quem não sabe, a Venezuela tem uma das taxas de homicídio mais altas do mundo. Alguns grupos da sociedade civil denunciam a impunidade existente no país e acusam as milícias de participar de atos de violência. Além disso, a inflação, a falta de bens de consumo básicos, o mercado negro de dólares e os apagões acabaram sendo incorporados aos gritos populares.

Táchira

Poucos falam desse estado Venezuelano, mas os protestos começaram lá. A maior parte da população é contra o governo e para conter as reivindicações, Maduro resolveu cortar a distribuição de serviços estatais de primeira necessidade para a região. Sem água e luz a população foi as ruas reafirmar sua insatisfação com o governo. Aos poucos eles foram se espalhando pelo país e em pouco tempo os universitários, conhecidos por conquistar mudanças  para o país, aderiram ao movimento.

Como o governo se justifica?

Para o governo, a manifestação do dia 12 foi uma tentativa de golpe de estado por nazifascistas. Para ele, o uso da força policial foi necessário para impedir manifestações não autorizadas (OI?) e os bloqueios das ruas. Constantemente o governo chama os opositores conservadores de fascistas, mas ainda não consegui encontrar semelhanças entre a ação dos opositores e a da Gestapo ou dos integralistas…

No mesmo dia da manifestação Maduro foi a tv pedir paz, mas garantiu que os agitadores não ficariam impunes. No dia seguinte, o governo emitiu uma ordem de prisão contra Leopoldo López, que estava liderando os protestos. Com o aumento da tensão o governo ameaçou suspender o fornecimento de gasolina para as áreas revoltosas.

Alguns dias se passaram e Maduro resolveu propor uma Conferência Nacional de Paz com o objetivo de neutralizar os grupos responsáveis pelos atos violentos dos protestos da oposição. Ao mesmo tempo, o governo reconheceu que havia cometido excessos na contenção do protestos, mas justificou que eles aconteceram por descumprimento de ordens.

Após romper com o Panamá, simplesmente porque o país pediu uma reunião na Organização dos Estados Americanos (OEA) para tentar promover o diálogo com a oposição, Maduro resolveu pedir a Unasul que enviasse uma comissão de observação para resolver a situação.

Inquisição contra a oposição

Após a demonstração de violência do dia 12 o governo passou a caçar os líderes da oposição de forma implacável. Tanto que a justiça venezuelana decretou a prisão de Leopoldo López, um dos mais fervorosos defensores da derrubada de Maduro, acusando-o de incitação à delinquência, de intimição pública e homicídio doloso e qualificado. Maduro defende que Leopoldo deve ficar preso por, pelo menos, 10 anos porque os crimes que cometeu foram muito graves. O problema é que não há nenhuma prova de que ele tenha cometido esses crimes.

Além dele Daniel Ceballos, prefeito de San Cristobal, e Enzo Scarano, prefeito de San Diego, também foram presos. O primeiro foi acusado por promover a violência e o segundo foi condenado a dez meses e meio de prisão por não cumprir a determinação do governo de retirar as barricadas da cidade. A deputada oposicionista Maria Corina Machado teve sua imunidade parlamentar retirada em votação dominada por deputados governistas. É provável que ela seja a próxima.

Henrique Caprilles não é tão participativo como Leopoldo, porque não concorda com a deposição imediata de Maduro, mas condenou as ações do governo e apoiou as manifestações. Além disso pediu a Maduro que desse provas da existência do golpe de Estado que tanto teme. Até agora não houve resposta. Talvez por ser menos incisivo que López ainda não tenha sofrido com a caçada, mas do jeito que as coisas andam não posso afirmar que isso continuará assim por muito tempo.

Hoje, durante a Conferência de Paz, o governo mandou prender três generais. Eles não foram identificados, mas estão sendo acusados de orquestrar um golpe contra o governo junto a oposição.

Posicionamento Internacional

Brasil – Tradicionalmente o Brasil não se envolve muito nas brigas dos vizinhos, isso tem a ver com um dos princípios das relações internacionais do nosso país. Para quem tiver interesse em conhecer, clica AQUI e procura o artigo 4º da Constituição. Lá vocês vão ver que seguimos o princípio da não-intervenção. E isso significa que não interferimos em questões internas de outros países. Se vocês repararem, historicamente, o máximo que o país faz em questões externas é lançar notas de repúdio quando o caso é grave, mas partir para ação e exigir posicionamentos dos governos estrangeiros é bem raro. Só se envolver interesses diretos do país, como no caso de Cesare Battisti. Então antes de cobrar determinados posicionamentos do governo, conheça o que está disposto na Constituição.

EUA – O governo Venezuelano expulsou os representantes diplomáticos americanos do país sob a afirmação de que estavam colaborando para os protestos. O Departamento de Estado dos EUA chamou as acusações de falsas e sem fundamento e revelou sua preocupação com a situação do país. O presidente Barack Obama ainda condenou a violência no país e a classificou como inaceitável.

União Europeia – A Alta Representante da União Europeia para Política Externa, Catherine Ashton, pediu as partes que tentem desenvolver um diálogo pacífico.

OEA – O Panamá solicitou uma reunião de emergência na Organização dos Estados Americanos (OEA) com a finalidade de resolver a crise, mas a saída foi refutada pelo governo venezuelano. Maduro não quer que a influência norte americana no orgão atrapalhe seus mandos e desmandos.

Unasul – Após rejeitar a negociação pela OEA, a Venezuela solicitou apoio a Unasul para resolver a situação. A cúpula da organização se reuniu no Chile em 12 de março e decidiu mediar o debate entre os manifestantes e o governo. Por esse motivo, hoje começou, em Caracas, a Conferência Nacional da Paz com o objetivo de instalar a paz e o diálogo no país novamente. A Conferência vai até amanhã.

O motivo que levou o governo venezuelano a descartar a conversa com a OEA e correr para a Unasul é simples. No primeiro a influência dos Estados Unidos é grande e, com certeza, o governo Maduro sairia enfraquecido. Já na Unasul, que é uma espécie de OEA da América do Sul, o país com maior influência é o Brasil e os gritos de Maduro tem mais chances de serem ouvidos.

Se isso vai se confirmar só descobriremos amanhã no final da Conferência de Paz.

Por Ana Paula Ramos

Anúncios

Deixe sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s