Democracia?

Ainda sou bastante jovem e nunca tinha vivenciado um momento de instabilidade política, confesso que estou um pouco assustada com a proporção que cada comentário ganha. Imagino que isso seja muito novo até mesmo para quem já é velho de guerra porque a era da informação é uma coisa nova para todo mundo.

Hoje em dia não é mais possível derrubar um governo com meia dúzia de milicos marchando para a sede do poder executivo, a Turquia nos mostrou isso. Mas quando se consegue dividir a opinião pública a ponto de nenhum dos lados representar uma maioria que dite regras, as coisas ficam diferentes.

Para quem detém o poder o arsenal é bem variado, há os jornais de grande circulação, a TV, os blogs, as redes sociais e vários outros meios que são acessados por milhões de brasileiros diariamente. Outra coisa que pesa é que em tempos de Facebook e Twitter parece que pega mal você não exprimir opinião sobre o assunto do momento mesmo que você nunca tenha ouvido falar daquilo até então.

Todo mundo é livre para falar o que quiser, claro, mas eu fico impressionada com a falta de cuidado com a apuração dos fatos e com o excesso de paixão com que argumentos frágeis são defendidos. Talvez repetidos seja uma palavra que se encaixe melhor porque quando se tenta aprofundar o debate, a maioria das pessoas não sai do lugar comum e da superficialidade.

A situação que vivemos hoje no país é bastante complicada e não há donos da verdade, não há lado que valha a pena defender e, apesar de um dos lados falar insistentemente que luta pela democracia, o que está em jogo são interesses individuais. Vejo com clareza que o final dessa história já está escrito, mas surpresas podem acontecer, mesmo que seja improvável.

Para mim, a lição que fica é a de que ainda temos muito o que aprender sobre democracia, argumentação e embasamento de ideias porque quando um país inteiro é ludibriado por uma pequena parcela que está no poder é sinal de que ainda precisamos avançar no entendimento das ações dos nossos governantes. E mais do que só entender, precisamos fiscalizar, já que os poderes só o fazem quando estão com o orgulho ferido ou quando alguém com força e apoio suficiente resolve tomar a função para si, mas de forma completamente enviesada.

Tenho certeza que alguns vão dizer que a democracia brasileira estará morta no fim do dia de hoje. No auge da minha juventude arrisco dizer que nunca soubemos como ela é de fato, uma vez que vivemos em um modelo de fantasia desde que um certo milico resolveu proclamar a república movido pelos interesses da elite da época.

O episódio de hoje serve para mostrar que nada mudou, pequenos grupos continuam fazendo o que querem com o país e, apesar de ter ganhado voz na internet, o povo brasileiro ainda não consegue usar a força que tem. Precisamos aprender que discursos não garantem muita coisa quando são proferidos por políticos, eles se preocupam em dizer as palavras certas (em nome da moral e dos bons costumes) para o momento, não o que pensam e nem o que é correto.

Hoje eu ainda não sei dizer o que precisamos fazer para não sermos mais enganados dessa forma, mas tenho certeza que está na hora de refletir para tentar ver onde foi que erramos…

OP

Por Ana Paula Ramos

Bel Pesce e o poder da Internet

Essa semana um dos fatos que movimentou a internet foi o Crowdfunding criado pela Bel Pesce para a divulgação da hamburgueria Zebeléo, que ela, o Zé do blog Do Pão ao Caviar e o Léo, vencedor do 3º Masterchef estão abrindo. Se você não sabe nada do que estou falando, eu explico.

zebeleo

Após a final do programa da Band, cujo vencedor foi um dos sócios da empreitada, todo mundo tomou conhecimento do Crowdfunding (fundo de financiamento coletivo) que eles tinham feito para a hamburgueria. Não cheguei a ver o texto que eles usaram para motivar a campanha, porque fiquei sabendo do que estava acontecendo por uma notícia do HuffPost que um amigo mandou num grupo do Telegram.

Imagino que muitos tenham sabido da aventura da mesma forma que eu ou pelo Twitter, porque depois que esse post caiu na rede social, tomou uma proporção enorme que acabou levando os três sócios a desistirem da empreitada. Nessa outra matéria do HuffPost você consegue ver alguns comentários que foram feitos pelos usuários e você vai entender como a rede é terra de ninguém.

Tudo chega ao Twitter, e com uma velocidade incrível coisas pequenas podem se tornar uma bola de neve, claro que de cara também não achei lá muito adequada a ideia de financiar uma hamburgueria de pessoas que poderiam conseguir outra forma de arrecadação, mas percebi que a maior parte das críticas centrava-se no fato de Crowdfunding ser usado para dar vida a projetos sociais, não a negócios.

Aqui entra a primeira ponderação que fiz quando vi as notícias: “Pô, a Bel Pesce é meio grilo feliz, mas ela sabe o que ela tá fazendo, né?! Ela não ia usar a plataforma errada para viabilizar o negócio dela, eu acho.” Assim, bem incerta mesmo, porque eu achei a matéria bem sarcástica e costumo não gostar de cara de matérias como essa, porque a parcialidade do jornalista fica muito na cara…

Aí resolvi pesquisar o conceito e vi que logo de cara o financiamento coletivo é usado para criar projetos que deem retorno para a sociedade. Então apesar da prática de usar para projetos sociais, poderia não ser um pecado usar para outras ideias, desde que tragam retorno para sociedade. Logo de cara não consegui imaginar o que eles entregariam de volta e como a resposta deveria estar na própria campanha fui atrás, mas me deparei com a nota da Bel Pesce dizendo que ia encerrar o projeto deixando claro ali qual seria a contrapartida que a hamburgueria inovadora promoveria.

Mas colocar na nota é uma coisa, né?! Será que isso estava claro para qualquer um que tivesse acesso a campanha? Quando abri a página, o vídeo de divulgação ainda estava no ar e pude assistir aos 8 minutos para ajudar a formar minha opinião. Eles usaram metade do tempo para apresentar cada um e dizer como os três se conheceram, depois mostraram como surgiu a ideia da hamburgueria e que queriam trazer muita inovação com ela. Por fim, a Bel entra em cena para dizer que a ideia era multiplicar o conhecimento adquirido no processo para ajudar pessoas que tem ideias empreendedoras a abrir o próprio negócio.

Opa! Isso pode ser considerado retorno para a sociedade, né?! E confesso que achei bem diferente, já que normalmente as pessoas estão preocupadas em manter o negócio vivo e não em multiplicar o conhecimento que vão ganhando com as experiências que passam. Mesmo sem ter acesso ao texto completo da campanha eu continuei achando que o foco tinha que ter sido maior nessa parte e não na maneira como eles se conheceram, mas eu nem sou comunicadora, então resolvi pesquisar um pouco mais para tentar entender essa loucura.

Nesse ponto eu já sabia o conceito, já vi que eles tinha errado na forma de apresentação, mas que cumpriam com o princípio básico do financiamento coletivo. Ainda assim é bem estranho ver um negócio sendo financiado dessa maneira… Parece que você vai estar botando grana em uma coisa que nem é sua e vai dar lucro para outros, é bem louco mesmo.

Foi aí que descobri que existe uma coisa chamada Equity Crowdfunding, que tem basicamente a mesma ideia, mas em vez de consumidor de um produto você passa a ser investidor em um negócio. E existem plataformas específicas para isso como a do link ali de cima. Essa modalidade já está em vigor no Brasil desde 2010 e, nos EUA, foi autorizada pela CVM de lá no fim do ano passado.

Ou seja, os níveis de investimento podem ser levados a outros níveis por essa modalidade, mas ficou claro pela nota da Bel que não era esse tipo de investimento que eles queriam e que o conceito de Crowdfunding vai além de vaquinha digital. Onde eu quero chegar com tudo isso? Na velha história de que brasileiro (não estou excluindo o resto do mundo, mas não sei dizer como a sociedade de outros países funciona, desculpa aí faltou intimidade) não corre atrás de informações concretas antes de emitir opinião.

O grupo que o amigo enviou aquele link da matéria sarcástica fervilhou de debates da noite de quinta até sexta a tarde, porque eu não conseguia aceitar no meu coração que uma pessoa conhecida por disseminar o empreendedorismo apostaria tão errado em um negócio. Mas o fato é: o trio pecou em vários aspectos, principalmente por não trabalhar a ideia de que o financiamento coletivo não é só para projeto social, uma coisa já bastante difundida fora do país.

Mas o que nós vimos de novo foi uma enxurrada de críticas que, na maioria dos casos, era só por repetição, não fruto de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. E como tudo no mundo é interligado (tô interiorizando essa ideia) isso serve para mostrar porque a nossa situação política é tão complicada. Estamos acostumados a formar opinião pelo que os outros falam não por investigação em várias fontes aí quando criticamos, não sabemos defender nosso argumento com propriedade porque eles não são nossos, são apenas reprodução de algo que aparentemente faz sentido. O problema é que é apenas um dos lados e não um quadro mais completo da situação.

Por isso quero deixar registrado aqui que o problema, caro leitor, não é criticar a hamburgueria da Bel Pesce, e sim a forma que você embasou seus argumentos. E isso serve para qualquer tema da vida, principalmente a política, onde os meios de comunicação muitas vezes pertencem aos que são alvo da matéria ou são alimentados por informações que um político ou outro acha que deve divulgar para se promover ou para derrubar algum adversário.

Em tempos de Twitter, falar é muito legal, mas falar com propriedade é habilidade para poucos.

Por Ana Paula Ramos

Tempo, tempo, tempo…

Amanhã faz um ano que escrevi o último post desse blog, não porque não quis mais falar sobre política, mas porque as voltas que a vida dá me deixaram meio que sem saber o que escrever diante de tudo o que vinha ocorrendo. Mas já faz algumas semanas que ando namorando o blog e pensando se deveria voltar a escrever e, mais importante de tudo, o que deveria escrever.

Pode parecer muito fácil para quem lê, mas para quem escreve nem sempre o processo de criação de uma postagem é simples, principalmente quando você colhe informações de fontes secundárias. Em tempos de impeachment isso fica cada vez mais claro, sempre soube que a imprensa nunca foi parcial, mas é muito diferente quando você enxerga manipulações grotescas com os próprios olhos.

Já disse várias vezes que não acho que a minha opinião seja melhor ou pior que a de ninguém, ela só é minha e depois de um ano recolhida senti vontade novamente de escrever. Não para contaminar as pessoas com as minhas ideias, mas para que no futuro eu possa ler o que escrevi hoje e perceber se houve evolução no meu pensamento.

Auto avaliação é uma coisa muito difícil, mas aproveitei o momento de nostalgia e olhei outro blog que escrevia na época da faculdade em conjunto com algumas amigas e foi interessante ver quem eu era naquela época. Cinco anos depois vi que algumas coisas mudaram, alguns argumentos eram rasos demais até para um blog, mas ainda assim eu achava que estava arrasando e me sentia super bem por escrever.

Aproveitando a dica do meu marido, acho que vou continuar a falar de política aqui, só que de uma forma diferente. De um jeito que eu consiga entender melhor os conceitos da Teoria Política e guiada pelos precursores do pensamento político, quem sabe assim essa loucura que está acontecendo não passa a fazer mais sentido…

Sem querer provar que o meu argumento é melhor do que o do outro eu vou seguindo e escrevendo para que a Ana do futuro possa entender como suas opiniões a guiaram até o ponto que ela estará.

Por Ana Paula Ramos

Pensando na morte da bezerra…

Eu estava aqui divagando e pensando nas manifestações de março e desse mês e como sempre chego a mesma conclusão: as pessoas querem algo, mas não sabem o que e nem como conseguir. No final das contas todo mundo quer a mesma coisa, menos corrupção e excelência nos serviços públicos, mas falta organização para cobrar com mais consistência.

Acho que o problema não é explicar o que queremos, os políticos estão carecas de saber. Só precisamos de um sistema de cobrança organizado e para isso precisamos olhar com atenção o que é feito pelos deputados e senadores talvez seja uma forma de começar. Se você clama por mudanças no nosso sistema político e não sabe que desde fevereiro os deputados estão reunidos na Comissão Especial da Reforma Política, é bom dar uma olhada nessa página AQUI e ver tudo o que já aconteceu por lá.

post

Entre audiências públicas e seminários, muitos assuntos já foram levantados e o que agrada grande parte dos deputados é o financiamento exclusivamente público de campanhas. Lembra aquela coisa que eu falei em um dos posts daqui sobre o fato de errarmos o timing das reivindicações? Então, se quisermos ingerir sobre o processo da Reforma Política a hora é ESSA! Veja os deputados que compõem a comissão e cobrem o posicionamento deles. Organizem-se em grupos, quanto mais pessoas defendendo a mesma ideia melhor para ouvi-la.

As audiências públicas em sua maioria acontecem fora de Brasília, então se a próxima for no seu estado e você puder, participe, entenda o que está sendo debatido, converse com amigos e espalhe o tema. Quanto mais gente sabendo dessa comissão e da possibilidade de participar, melhor. A nossa democracia só tem a crescer com isso.

Sabemos que as ruas são apartidárias, mas essa união em torno de grupos que estou falando não precisa ser um partido. Pode ser um monte de gente interessada em participar mais dos processos da Câmara, o que importa é que precisa haver uma unidade e talvez em algum momento seja necessário a presença de um porta voz, que traduz os anseios do grupo para o mundo. Não tem como 50 pessoas falarem ao mesmo tempo e serem compreendidas, então pensem nessa pessoa como alguém com boa oratória e capacidade de negociação. A ideia é que a pessoa apenas seja um elo e não a dona do grupo ou das ideias defendidas por ele.

Na minha cabeça essa coisa de impeachment é uma bandeira meio esquisita porque, tirando o fato de que não há provas concretas do envolvimento da presidente nos escândalos, as reações disso podem tomar dimensões catastróficas. Não basta só pedir impeachment, é preciso entender quem assume, como fica a situação já frágil do país e principalmente a situação política. Dois impeachments em 21 anos é de arrepiar até cabelo de ovo, é um sinal claro de instabilidade política que com certeza pioraria ainda mais nossa situação econômica.

Não sei quem conseguiu incutir isso na cabeça de tantos brasileiros, mas deixei aqui uma dica que considero mais eficaz que essa. Se você tá cansado de tanta roubalheira, fique de olho nas comissões do Congresso e participe dos debates.

Por Ana Paula Ramos

Câmara em Movimento

A Câmara Legislativa do Distrito Federal está com um projeto chamado Câmara em Movimento. O objetivo é levar sessões da Câmara a várias cidades do DF. Na primeira edição, de fevereiro, a sessão foi levada a Rodoviária do Plano Piloto e a segunda edição acontecerá amanhã na Ceilândia.

A partir das 15h, os deputados estarão em frente ao restaurante comunitário da cidade. A escolha tem relação com o aniversário da cidade, que será sexta feira. Depois de seguir a pauta do dia, a sessão será transformada em audiência pública para ouvir as reivindicações dos moradores.

Se você é da cidade e tem algo, que entra nas competências de legislar da Câmara, para reclamar ou reivindicar encaminhe-se ao local da sessão que você tem grandes chances de ser ouvido.

Achei a iniciativa bem interessante, mas ainda não conheci ninguém que tenha ido para saber como foi e se ela realmente é interessante para a população. Se você for ou conhecer alguém que foi, peça para compartilhar a experiência aqui nos comentários ou pelo e-mail do blog!

Boa sessão aos que forem!

Por Ana Paula Ramos.

E se mudarmos o olhar?

Essa semana fiquei olhando os textos de opinião em busca de algo que pudesse me dizer o que podemos esperar dos nossos governantes após as manifestações do dia 15. Claro que a gente espera que nossos problemas sejam resolvidos, mas costumamos colocar tudo na conta da presidente esquecendo que nos estados existem Chefes do Executivo também…

Nessa procura achei um texto do Renato Janine, no Jornal Valor Econômico, e ele tentou lançar uma nova hipótese para que possamos pensar e analisar a situação de Dilma. Confesso que nunca tinha olhado as coisas sob essa lente e acho que vale muito a pena ler e dar o benefício da dúvida a essa nova conjectura.

Não a assumo como verdade, mas acho que é uma hipótese possível, como várias outras. Lança uma luz diferente sob a incapacidade de governar de Dilma e nos faz pensar como esse é o objetivo principal do blog compartilho o texto com todos para que discordem, concordem ou criem suas próprias análises:

Será que desejamos o Impossível?

Por Renato Janine, no Valor Econômico

Queremos um governo que seja eficiente e honesto, mas sabemos que ter as duas coisas é bem difícil no Brasil de hoje

Um princípio básico da ciência é que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que dê melhor conta deles. Este princípio me ocorreu há poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da República por seu estilo de pouca negociação. Até ficamos espantados: como sobe à presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas aí parei. Nunca é bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer política. Só que…

Se isso não for óbvio? Se nosso ponto de partida estiver errado?

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e até mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas – inclusive a Terra – em torno do Sol descrevem órbitas mais regulares. Essa, a lição científica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da política, indagar o que ela efetivamente pretende.

Dá para governar bem e ser honesto no Brasil?

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questioná-la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num País em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, trânsito livre pelo mundo dos políticos?

Essa é a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma política competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem está a sua volta, o que politicamente é inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da política. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode até governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detestá-las para superá-las?

A hipótese passa a ser: e se o “momentum” Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nós? Em nós, analistas da política e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade.

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando o governo estadual – que é do PSDB – negociou com o PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memória.

E ouvi de Drauzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a polícia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso é inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo o crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui-los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto é, num REGIME em que o Congresso pouco decidia, o assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos-leis pelos parlamentares, que ia abrir o “barril de peixe podre”. Imagina-se o odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem.

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: “Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas”. Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. “Não quero nem saber!”

E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?

Esta é uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprová-la e apoiá-la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria política, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto é, a ação – e inação – de Dilma, melhor do que a suposição de que ela é inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanálise não ajuda a entender o ódio crescente a ela. Ódio ao outro é projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, às escâncaras, um dilema que queremos esconder de nós. Queremos a honestidade sem pagar o preço por ela. Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bençãos. O dinheiro que é roubado da sociedade virá a nós como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso dá trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, “informais” dizemos às vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a política não é só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos.

Confesso que achei o texto muito bem escrito e com uma construção de ideias que não me deixou dúvidas de que isso nada mais é que a criação de uma hipótese, o autor não me passou a impressão de querer enfiar essa opinião goela abaixo e nem de que ele próprio acredita nisso com afinco. Passa a ideia de que isso poderia acontecer porque como ele mesmo falou, governar no Brasil com honestidade é uma coisa muito complicada pelo fato de haver uma relação de dependência entre os poderes.

Acrescentei essa nova linha de pensamento no meu caderninho.

Por Ana Paula Ramos.

Sobre panelaço, elite branca e varandas gourmet

Meu namorado me mostrou esse texto e resolvi compartilhar porque ele reflete o meu sentimento com relação a reação do governo ante ao descontentamento da população. Eu sei que hoje a pauta é a manifestação, mas vamos voltar um pouco no tempo e lembrar dos panelaços que algumas cidades, como a minha, viveram no último dia 8.

Eu não bati panela e nem fui a manifestação porque não concordo com o impeachment, na verdade ao acompanhar pela TV percebi que perdi uma boa oportunidade de manifestar minha insatisfação porque essa não foi a bandeira principal, pelo menos aqui em Brasília.

Mas enfim, estou descontente com o governo pelos desvios da petrobrás, pela mentirada durante as eleições, pela tentativa de continuar escondendo sua própria incompetência para conduzir a economia, pela inflação que faz as compras do mês ficarem cada vez mais caras, pelo aumento da energia, pelo assalto dos postos de gasolina, pela dificuldade em agir para salvar a petrobras no mercado financeiro, pela diminuição dos investimentos em educação apesar da afirmação de que somos uma pátria educadora, pelo perdão aos mensaleiros,  por uma lista de coisas que não para de crescer.

Outra coisa que me deixa indignada é essa divisão entre: conformados = petralhas, inconformados = coxinhas; Gente, somos bem melhores do que isso, todo mundo concorda que a situação não está fácil para ninguém e que não tem nada a ver com a ascensão social de seu ninguém. Tem a ver com a perda de poder de compra do real e com serviços básicos que quando são oferecidos não tem qualidade.

Eu sou branca, se é que alguém nesse país pode dizer isso, mas não sou elite e acho que o impeachment traria mais problemas que benefícios a nossa nação. Primeiro porque não temos ideia de quem poderá assumir as rédeas da situação e segundo porque para a economia esse seria o golpe final. Não precisamos adicionar instabilidade política ao nosso cenário já tão volátil.

Precisamos de respeito e de um governo que assuma seus erros e não só seus acertos. Que reconheça que a culpa não é só da crise internacional e que as atitudes não tomadas nos últimos quatro anos contribuíram para o aprofundamento da nossa crise interna.

Nossa situação não é simples e parem de cair nessa pilha de que quem critica o governo tá achando ruim porque os aeroportos foram ampliados e pobre viaja de avião. Ninguém está dando a mínima para isso, ninguém ia bater panela enquanto a presidente fala por uma razão tão pífia e também não iria juntar um milhão em SP e mais uma porrada de gente Brasil a fora, em TODAS as regiões independente da quantidade de manifestantes e da cidade. Até porque não foram só as capitais que tiveram manifestações, alguma cidades interioranas também.

Então não sejam simplistas e rotuladores, nossa situação precisa de bem mais do que isso.

Desabafo feito, leiam esse texto de um dono de varanda gourmet e me digam o que vocês acham do motivo que o levou a bater panela no dia 8. O nome do autor é Cesar Manieri e você pode acessar o texto original no blog dele AQUI:

Eu sou sou proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Esta semana eu li nos sites de notícias e vi comentários de amigos em redes sociais sobre isso e acabei refletindo a nossa atual situação neste país. Sim, moro em um apartamento com “varanda gourmet” e bati panela também, mas após ler um monte de bobagens sobre o panelaço, uma tristeza invadiu meu coração e foi grande quando percebi que fui cerceado do meu direito de ser um digno proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Porque fiquei tão triste e totalmente sem esperança de viver em um país decente? Vou contar minha história, que deve ser muito parecida com quase todos os dignos proprietários de “varandas gourmet” espalhadas pelo país. Foi assim: Meus antepassados e avós paternos foram imigrantes que vieram da Itália no fim do séc. XIX início do séc. XX. Vieram fugindo da fome e da guerra. Fugiram do nazismo e do fascismo que despertava naquele continente. Meus avós paternos se estabeleceram no interior do Paraná. Na “terra rossa”. Passaram fome, enfrentaram doenças enquanto criavam os filhos. Meus avós maternos já nasceram no Brasil do inicio do século XX. Minha avó materna veio de uma família que aparentemente tinha posses, mas por conta da guerra, perderam parte do que tinham. Por isso, minha avó materna (que era descendentes de índios), para fugir do assedio do padrasto, aos 13 anos se casou com o meu avô (que era descendente de africanos mas de origem misteriosa). Ele já tinha mais de 25 anos com certeza. Meus avós paternos tiveram 8 filhos e os maternos 18 (5 morreram). Entre toda essa turma, nasceram meu pai e minha mãe. Todos trabalharam na roça. Todos tiveram muitos filhos. Gente simples. Meu pai veio para São Paulo em 1945 com 13 anos e logo começou a trabalhar nas indústrias da capital. Minha mãe fez o mesmo trajeto e veio trabalhar nas casas das famílias quatrocentonas abastadas dos barões do café e nos palacetes e grandes apartamentos dos industriais paulistanos. Meu pai era técnico de elevadores e por uma coincidência do destino conheceu minha mãe quando ele estava consertando um elevador de um dos prédios onde ela trabalhava. Meu pai trabalhou por 45 anos para nos educar, eu e meus 2 irmãos e minha irmã. Começou construindo sua casa na periferia de São Paulo. Era um porão úmido construído em uma rua lamacenta fruto do loteamento do haras Patente na divisa com São Caetano do Sul. Com apenas o ensino fundamental, sabia que precisaria estudar e trabalhar muito para levantar a casa dele. E foi o que ele fez. Se preparou, estudou e se tornou um ótimo técnico eletrônico e eletricista. Homem correto. Minha mãe lutadora e dona de casa. Meu pai era metalúrgico e do sindicato e já me dizia nos anos 70 sobre a “índole de filho da puta” de muitos de seus integrantes, inclusive do Lula. Meus pais criaram os 4 filhos. Suaram, correram, choraram. Eu segui seus passos com dignidade e retidão. Da minha mãe herdei a força da luta diária, da resignação e da resiliência, do amor a família. Eu trabalhei duro durante 30 anos, estudei tudo que podia, mas estudar nunca é demais, me preparei como meu pai. Construi minha vida assim, como meus pais me mostraram. Trabalhei duro. Por mérito meu e da minha esposa, conseguimos comprar nosso apartamento com “varanda gourmet”  para criar nossos filhos. Paguei cada centavo, cada juro extorsivo e abusivo cobrado pelos bancos. Recentemente fui demitido da indústria, que está ultimamente fracassada nesse país. Então, ouvindo um chamado, a minha voz, resolvi empreender e no momento que nossa pequena empresa iniciou a decolagem fomos surpreendidos por toda essa merda de cenário atual e por toda essa turbulência política. Foi ai que chegamos no dia 8 de Março de 2015. Cento e quinze anos depois da chegada dos meus avós ao Brasil fugindo da crise da Europa. E após ler argumentos de jornalistas de “peso” sobre a “elite branca” que protesta contra a presidente do Brasil e seu partido energúmeno, fiquei profundamente sem palavras. Sim, eu fui ofendido, pois para eu estar aqui na “varanda gourmet” derramei muito suor. Abri mão de muita coisa e muitas vezes escolhi trabalho extra pra ter o que tenho. Não aceito ser tolhido do meu direito de mandar todos os políticos e pessoas corruptas, seus corruptores, a Dilma, o Lula , o PT, Aécios , os comunistas, idiotas úteis e afins e todos os seus simpatizantes Tomar no meio do Cu. Tenho o direito de expressar meu sentimento de indignação e dor. Mando e vou mandar sempre que eu for desrespeitado como brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor dos meus deveres. Eles ofendem meus antepassados e meus descendentes. Eles desrespeitam meus antepassados que viveram e morreram para que eu pudesse ter meu apartamento com “varanda gourmet”. Não aprendi a xingar em casa no seio da família. Meus pais me ensinaram o respeito ao próximo, os valores e as condutas morais e  virtuosas e me deram a liberdade de crer em Deus. Me ensinaram a não pegar nada de ninguém. Pecado gravíssimo. Uma desonra. Aprendi a xingar nas ruas lamacentas e nos terrenos baldios cheios de mato do Jardim Patente quando era desrespeitado em meus simples direitos de moleque de rua, mas mesmo assim sabíamos quando xingar. Tínhamos nosso código de ética. Nunca usarei meu direito de xingar em vão. Portanto, políticos corruptos e seus corruptores e todos os vendidos que apoiam a situação atual, que nem chegaram a condição de merda humana, seus peidos fracassados, lavem a boca antes de falar sobre quem literalmente construiu e constrói esse país, que somos nós, as famílias brasileiras, que criam seus filhos, que tem valores, princípios e conduta moral, que tem história de luta verdadeira, que não tem nada de revolucionária, coisa que vocês, donos do poder, não tem nem ideia do que seja. Ou se tiveram um dia, já se esqueceram, iludidos pela ganancia do poder e pelo dinheiro fácil.

O que acharam?

Por Ana Paula Ramos.

Brasil, Pátria dos desvios

As declarações da Lava Jato continuam dando o que falar e dessa vez quem deixou uma pérola foi o presidente interino do Conselho de Administração da Camargo Corrêa, Celso Ferreira de Oliveira. Na última quinta ele foi chamado para depor como testemunha em audiência da operação que aconteceu Curitiba.

Só para dar uma clareada, alguns executivos da empresa foram presos pelos policiais da operações por desvio de dinheiro, por isso o atual presidente precisou atuar como testemunha. O fato é que durante o depoimento ele estava contando que o Conselho só tomou alguma providência sobre o assunto após as prisões. Até aí tudo bem, mas ao explicar que está sendo feita uma auditoria ele solta:

É normal uma companhia que chegou a ter 70 mil pessoas ter desvios em projetos.

Eu sei que algumas coisas que eu falo aqui mostram o quanto eu pareço sonhadora, mas é um fato que a corrupção é uma doença crônica no nosso país e sabendo do nosso comportamento diário nós tendemos a acreditar que ele está certo. Que é impossível para uma empresa grande ou para um país das nossas proporções ter gente honesta e que não tenta se beneficiar a todo custo.

Não sei se isso vai mudar, mas eu gostaria que as pessoas não considerassem desvio de dinheiro público uma coisa normal. Nossas leis não servem para muita coisa, mas elas estão aí para provar que normal é não haver esse tipo de comportamento, pois não seria necessário ter penalidade para quem comete esse tipo de crime. Mas as pessoas acham que ser esperto é passar pessoas para trás e colocar cada vez mais dinheiro no próprio bolso e isso me entristece.

Quem sabe um dia as pessoas vão perceber que trabalhando em prol da maioria todos ganham?

Menos egoísmo e mais amor, por favor.

Hoje estou poética Hahahaha

Por Ana Paula Ramos

Pique esconde

Parece que a novela da operação Lava Jato ainda nem começou, desde que o ministro Teori Zavascki recebeu o pedido de quebra de sigilo dos nomes investigados nossos políticos estão incomodados. O Congresso em peso é terminantemente  contra a liberação dos nomes e a opinião pública é extremamente a favor.

Teori

A mídia está acompanhando o ministro de perto, é capaz até de dizer quantas vezes por dia ele vai ao banheiro, mas parece que a decisão sairá hoje. Na verdade não sei qual é o prazo limite de Teori, mas imagino que o ministro deva estar se sentindo entre a cruz e a espada. Não deve ser fácil tomar essa decisão que pode contrariar a opinião pública ou as pessoas que o colocaram no cargo que ocupa. O que eu sei é que a decisão terá que ser muito bem fundamentada juridicamente porque provavelmente choverá recursos.

Outra decisão que chamou bastante atenção essa semana foi a do nosso procurador geral da república de pedir arquivamento das investigações contra Aécio Neves e Dilma Rousseff. Prefiro acreditar que de fato ele não deveria ter provas suficientes para indiciar os dois a pensar o que pode ter acontecido por baixo dos panos, mas confesso que a declaração do Aécio de que esse arquivamento foi uma homenagem a ele me deu náuseas.

Vamos deixar uma coisa bem clara aqui:

Homenagem:

1. [História] Juramento de fidelidade que prestava ao soberano o vassalo que recebia feudo.

2. Demonstração de veneração e respeito.

3. [Militar] Lugar que assinala a um detido para poder andar em liberdade

Como o que o PGR Rodrigo Janot fez não foi nenhuma das coisas acima, não existiu homenagem, foi muita conversa ou falta de embasamento jurídico. Nossos políticos deveriam saber escolher melhor as palavras que usam…

O fato é que Yousseff ouviu dizer que Aécio recebeu propina, mas como ele nunca esteve em contato com o senador parece que a polícia não encontrou provas do desvio. O que eu sei é que as vezes onde há fumaça, há fogo. Claro que Aécio fala que a declaração foi uma tentativa do governo de envolver a oposição no esquema da Lava Jato e isso gerou uma onda de insatisfação no Planalto e o porta voz nomeado para dar a resposta foi o ministro da justiça, José Eduardo Cardozo. O ministro disse que achou a declaração de Aécio deplorável e soltou a pérola:

Se no passado governos fizeram isso, este governo não faz (…) Não nos meçam por réguas antigas

Se a gente fingir que nunca existiu mensalão a afirmação pode até se tornar verdadeira… Mas óbvio que a história não parou por aí e Aécio rebateu novamente a declaração dizendo que Cardozo tem agido cada vez mais como militante partidário e como advogado de defesa do PT do que como ministro da Justiça.

Para quem não lembra, o ministro se reuniu em fevereiro com os advogados de algumas empreiteiras para discutir o futuro dos clientes que estão presos na PF de Curitiba. A única coisa que eu sei é que quanto mais se mexe nessa história, mais ela fede.

A impressão que tenho é que a pista de um doleiro levou a um esquema tão grande que nem a própria polícia esperava. Quem podia imaginar que no meio do processo eleitoral seria descoberta a fonte de financiamento de campanhas dos nossos queridos candidatos? Claro que o Congresso inteiro está apreensivo e querendo abafar o maior número de informações possíveis, mas será que isso será suficiente? Será que a PF e o Ministério Público terão forças para enfrentar peixes graúdos?

Acho que o mensalão foi um teste bom, mas a Lava Jato tem proporções bem maiores porque não envolve apenas um partido ou o governo. Envolve a essência da farsa das eleições. Quem quiser entender um pouco do que tô falando pode ler o livro O nobre deputado, do juiz Marlon Reis. No livro ele cria um personagem fictício e explica como funciona o financiamento de campanha. Aposto que depois que você ler, a Lava Jato vai fazer mais sentido na sua cabeça.

Por Ana Paula Ramos

Política sem Mistério

Minha mãe me deu uma dica de canal do youtube bem interessante há um tempo e resolvi compartilhar aqui. Vocês já ouviram falar no Política sem Mistério? É um canal criado pelo deputado Mário Monti com o objetivo de esclarecer em vídeos curtos pontos específicos e meio obscuros da nossa política. Dá uma olhada no vídeo abaixo que ele fala sobre O que é política

Tem muitos outros vídeos interessantes no canal sobre muitos outros temas como o funcionamento dos ministérios, o que é a licitação, medida provisória, enfim muitos outros e dois que chamaram bastante minha atenção:

– O que faz um deputado

– Como cobrar os deputados

Óbvio que também fiz meu dever de casa e pesquisei o perfil do deputado. Você pode clicar AQUI para ver o site dele. Você vai descobrir que ele foi eleito por São Paulo na eleição do ano passado, que ele foi eleito prefeito da cidade dele com 21 anos e foi o prefeito mais novo do Brasil. Fiquei pasma com isso também, ainda mais porque hoje ele já está com mais de 50 e continua na política. Até hoje a gestão dele na prefeitura é considerada uma das melhores de São Manuel, claro que não sei se é verdade porque não conheço ninguém da cidade, mas é o que está escrito no perfil dele.

Não encontrei nada que o vincule a algum ato de improbidade administrativa, o que já é bem interessante. Ele é do PR-SP e faz parte da base aliada ao governo. Observei que ele começou com essas postagens em outubro de 2013, considerando que ele teve quatro mandatos como deputado federal e não conseguiu se eleger em 2010 talvez tenha sido a maneira que ele encontrou de ganhar visibilidade no estado. Tanto que as visualizações dos vídeos são bem baixas, mas as postagens foram interrompidas em junho do ano passado provavelmente porque a agenda eleitoral não dava espaço para a gravação dos vídeos.

Para a minha surpresa os vídeos voltaram a ser gravados em dezembro do ano passado e no período pós eleição o canal já tem quatro postagens. Resolvi compartilhar por conta disso, talvez o interesse não seja apenas eleitoral e como os vídeos são bem didáticos vale a pena conferir. Claro que ele não esgota os assuntos que trata, porque você não vai saber tudo sobre os três poderes em 4 minutos, mas já é um começo e dá uma noção bem legal dos mais diversos assuntos políticos. Clica AQUI para acessar o canal!

Por Ana Paula Ramos

Pacto por Brasília

Obrigada a todos que participaram da nossa enquete! O tema escolhido pela maioria foram as 21 medidas anunciadas pelo governo do DF para superar a crise deixada pelo governo anterior. Antes de começar quero agradecer também a todos que leram e participaram do blog ao longo desse ano, obrigada a todos que dedicaram parte do tempo para ler os posts, aos que comentaram e expressaram sua opinião, obrigada aos que compartilharam os posts que acharam interessantes em suas redes sociais e eu gostaria de pedir a todos que continuem por aqui e que participem cada vez mais. Se você não tem ideia de como participar é bem simples, primeiro você lê a postagem, depois você pode deixar algum comentário com dúvidas, sugestões para os próximos posts, ou seu ponto de vista sobre o tema e também pode compartilhar para chamar mais pessoas para o blog.

Quanto mais participação, melhor fica o blog. Afinal tudo o que escrevo aqui tem o meu ponto de vista, mas os temas são de interesse de todos. Não deixa de ser um exercício para você começar a acompanhar e dar pitaco em tudo o que diz respeito a política de nosso país. Sem mais delongas, muito obrigada mesmo por esse ano de companhia! Vamos ao tema vencedor:

Pacto por Brasília

Que governar Brasília nos próximos anos seria extremamente difícil não é surpresa para ninguém. Talvez por isso tenhamos um vácuo tão grande de poder em nossa administração. Os políticos conhecidos dispostos a disputar o cargo de governador tem pouco apelo a população em geral ou está impedido de concorrer por ter sido pego na Lei da Ficha Limpa. Não sei se nos outros estados essa lei funciona, mas aqui no DF nossos governadores são seu alvo preferido, já temos José Roberto Arruda e Joaquim Roriz inelegíveis. Não me surpreenderia se Agnelo entrasse para o bonde dos impugnados porque, para mim, essa história de deixar os cofres do governo só tem cheiro de improbidade administrativa.

Mesmo sabendo de tudo isso e da farra que andaram fazendo com o nosso dinheiro, a situação surpreendeu e Rodrigo Rollemberg já no discurso de posse propôs um Pacto por Brasília. No momento do anúncio não ficou muito claro como isso seria feito, mas vinte e sete dias depois o governador lançou o documento Pacto por Brasília, que explica como isso será feito ao longo de 2015 e 2016. O documento completo está disponível AQUI e as medidas adotadas pelo governo foram divididas em três grupos:

– Medidas em andamento

  1. Criação da Governança – DF
  2. Revisão de projetos de incentivo fiscal
  3. Corte de despesas gerais
  4. Corte de carros oficiais
  5. Corte de aluguéis de imóveis
  6. Redução substancial dos cargos comissionados
  7. Redução da estrutura administrativa

– Medidas para 2015

  1. Redução de 25% do valor das dívidas do Estado
  2. Redução de 20% do valor dos contratos
  3. Auditoria da folha de pagamento
  4. Fim da isenção do IPVA para veículos zero km
  5. Antecipação de recursos para saldar benefícios atrasados
  6. Novas estratégias de fiscalização e cobrança para aumentar receitas

– Medidas para 2016

  1. Atualização do valor dos imóveis para cálculo do IPTU – sem aumento das atuais alíquotas praticadas
  2. Cobrança justa da TLP
  3. Cobrança justa do ITBI
  4. Nivelamento do IPVA
  5. Ajuste do ICMS para combustíveis
  6. Ajuste do ICMS para telefonia
  7. Diminuição do ICMS dos genéricos
  8. Diminuição do ICMS de alimentos

De acordo com o governo, esse conjunto de propostas trará impacto de R$ 400 milhões em 2015. Em 2016, o aumento de receita será de R$ 800 milhões. Essa economia ainda não normalizará as contas do governo, mas já indicam um começo.

As medidas em andamento são aquelas que dependem somente do governo, que age para que as despesas do governo gerem uma economia de R$ 200 milhões. A contenção de despesas está a todo vapor. Rollemberg diminuiu as secretarias de 38 para 24 e também as administrações regionais passaram de 31 para 24.

Rollemberg

O governo deseja ainda reduzir 60% dos cargos comissionados para servidores sem vínculo. Alguns imóveis alugados estão sendo devolvidos, a Secretaria de Economia e Desenvolvimento Sustentável foi transferida para o Centro de Convenções e isso representará uma economia de R$ 321 mil mensais. Outras secretarias passarão pelo mesmo processo e espera-se que a economia mensal seja de mais de R$ 1 milhão. Outros cortes também serão feitos e o governo pretende extinguir ou reformular os contratos onerosos e de pouca eficácia. Segundo o governo, os que forem mantidos sofrerão redução nos valores de pelo menos 20%.

Além desses cortes o governo criou a Câmara de Governança Orçamentária, Financeira e Corporativa do Distrito Federal (Governança-DF). Ela é composta pelos titulares das Secretarias de Planejamento, Orçamento e Gestão, de Fazenda e de Gestão Administrativa e Desburocratização, pelo chefe da Casa Civil e pelo procurador-geral do DF. O objetivo dessa câmara é coordenar a programação orçamentária e financeira, ala também participa de decisões estratégicas do governo, especialmente nas que têm repercussões financeiras e orçamentárias.

As medidas para 2015, como vocês podem ver não dependem unicamente do GDF, mas o executivo tem poder para promover essas reduções sozinho. Como o pedido de adiantamento do Fundo Constitucional que ele fez no início do ano para saldar o atraso dos salários dos funcionários da educação e da saúde.

Já as medidas para 2016 dependem, e muito, da Câmara Legislativa (CLDF), pois para modificar a cobrança de impostos, o executivo precisa da aprovação do legislativo. Lembram do sistema de pesos e contrapesos do Montesquieu? É para isso que serve, ele evita que um governante mude as leis de forma indiscriminada. E pensando nisso, o governador esteve na abertura do ano legislativo da CLDF para transmitir sua mensagem aos deputados distritais e deixar os Projetos de Lei que alteram o IPVA, IPTU, ITBI e a TLP.

Se você tiver interesse em conhecer os projetos basta clicar nos temas abaixo:

Antecipação Orçamentária

Medidas Fiscais

Renegociação de dívidas

Depois eu faço um post para esclarecer o que está previsto em cada Projeto de Lei para não perder o foco do post. Ficou claro que o governo está se esforçando para garantir o aumento das receitas da capital, mas nem todo mundo está contente com o tal Pacto por Brasília e no dia seguinte ao anúncio das 21 medidas a bancada do PT na CLDF já manifestou interesse em votar contra qualquer projeto que vise o aumento de impostos.

De acordo com o deputado Chico Vigilante, o governo Rollemberg mentiu sobre a situação do governo e o saldo de $64 mil mostrado no início do ano era referente a apenas uma cinquenta e cinco contas que o governo tem em três bancos. Ele disse que entrou no Sistema Integrado de Gestão Governamental (SIGGO) e pode observar que o governo tinha em caixa $1,06 bilhão. Se o valor é real eu não sei, mas para mim faz mais sentido o GDF ter várias contas e não apenas uma.

O PT tem quatro deputados na câmara, mas ainda tem muitos partidos aliados do período da eleição. O governo vai ter que dançar um bocado para conseguir aprovar o aumento de impostos, pelo menos. Talvez por isso, sabiamente, os projetos tenham sido apresentados separados, pois assim a margem de manobra fica maior.

Não será uma peleja fácil, mas vai ser interessante ver se o governo Rollemberg, que já cometeu vários erros, tem capacidade de negociar com a oposição. E mais interessante ainda vai ser saber o que será oferecido em troca da aprovação.

Espero que tenham gostado da postagem de aniversário!

Por Ana Paula Ramos

Coronéis da Mídia

Não é um segredo que muitos políticos do nosso país são donos de emissoras de rádio e TV. Todos sabemos que a influência política sobre as notícias que acessamos diariamente é grande, principalmente em veículos estaduais. Nem sempre essa propriedade é declarada abertamente e muitos usam inclusive testas de ferro para não aparecer como donos de determinado jornal ou rádio.

Não achem que isso é exclusividade do Brasil, não conseguimos inventar uma nova modalidade de influenciar a mídia. Isso é usado em vários outros países, mas é fato que quanto mais fechada a política maior é a interferência inclusive do próprio governo principal. A China está aí como um dos maiores exemplos de regulação da mídia por interesses políticos.

Pensando nesse problema inevitável, o Intervozes (Clique AQUI para conhecer) fez um vídeo para a Semana Nacional da Comunicação no fim do ano passado com objetivo de divulgar ações que foram feitas em várias cidades do país para expor esse problema. Não conhecia essa instituição, mas gostei da forma como eles abordaram o tema, me pareceu bastante séria e não levanta nenhuma bandeira contra partidos específicos. Visa apenas a proteção do direito a comunicação. Veja o vídeo e entenda:

Você também pode acessar o site criado para divulgar o movimento e conhecer os coronéis que eles tanto abominam, basta clicar AQUI.

Eu sei que mídia completamente sem influência política é quase impossível, mas não custa manter olhos bem abertos sobre essa interferência e até que ponto ela pode ser considerada legal.

Por Ana Paula Ramos

Vem pitaquear!

É carnavaaal! O país está em festa e o OP também! Como já contei em outro post, nosso blog faz um ano no próximo dia 24 e como comemoração farei um post com tema escolhido pelos leitores do blog. Os temas estão na enquete abaixo e você pode votar em qualquer um deles e também pode sugerir um tema diferente através de um comentário.

Se você estiver pensando: “Ah, não vou sugerir um tema novo porque a chance de ganhar é menor”, não se engane! Vou olhar sua sugestão e utilizar como inspiração para outros posts também! Então toda contribuição é bem vinda e espero que vocês voltem mais vezes e com mais sugestões também!

Esse espaço é nosso, a política interfere em nossa rotina e por mais que a gente esperneie e diga que não goste não tem como correr disso. Quanto mais nos informarmos e fizermos questão de participar de cada detalhe mais poder de interferência teremos, porque assim saberemos o que queremos.

Vota, compartilha e comenta!

Por Ana Paula Ramos

E as nossas instituições?

Um dos muitos textos excelentes que me mostraram no mês passado. Li bem umas três vezes e acho que vocês deveriam ler também. Ele foi publicado no Valor Econômico e foi escrito pelo Marcus André Melo:

Por que as instituições se fortalecem no Brasil?

Governantes têm aversão a prestar contas, como nos lembra Soll em seu magistral “The reckoning: financial accountability and the rise and fall of nations”. Na Inglaterra do século XVII, Charles I mandou cortar as orelhas de William Prynne, que chefiava uma comissão de contas criada pelo Parlamento para investigar a gestão das receitas do Estado. Desconfio que nossos governantes tenham tido ímpeto semelhantes em relação a magistrados como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. Mas o corte de orelhas obviamente não se consumou. Nas democracias contemporâneas, a violência física não consta do repertório de ações dos governantes, e, nas mais consolidadas, a interferência nas instituições de controle é mínima. No Brasil a recém-adquirida robustez das instituições de controle latu senso (Judiciário, Ministério Público, TCU) tem chamado a atenção. O que causou seu fortalecimento e de onde vem sua independência?

Há dois argumentos rivais para dar conta desse fortalecimento. O primeiro sustenta que o fator determinante é a retidão de propósitos dos governantes. Assim, as instituições deveriam seu fortalecimento ao reformador que “não rouba nem deixa roubar”. Embora seja normativamente atraente – afinal tem forte apelo sobre nossa consciência moral – as pesquisas mais instigantes na ciência política tem mostrado que as instituições fortes de controle não são produto da ação de governantes, partidos ou movimentos. A recíproca, no entanto, é verdadeira: governantes corruptos tem sido em geral bem sucedidos no objetivo de subjugar as instituições de controle. Muitos partidos, movimentos e indivíduos chegaram ao poder em cruzadas anticorrupção e moralizantes. Caso tornem-se dominantes, inicia-se a degeneração institucional. Há, assim, algo mais que voluntarismo em jogo.

O argumento rival defende que não são cruzadas morais que fortalecem o controle da corrupção e previnem o abuso, mas o desenho institucional voltado para maximizar os incentivos para o controle. Denominemos esse argumento de argumento neomadisoniano em homenagem ao pai fundador da república americana, James Madison. Em “O Federalista nº 51” afirmou “que se os homens fossem anjos, os controles não seriam necessários”. O ponto de partida do madisonianismo é que o poder corrompe. A defesa contra o abuso de poder e a corrupção não é a conversão – a uma ideologia ou princípio moral transcendente – mas um desenho institucional que leve a contraposição de interesses. Dessa forma, os atores institucionais teriam incentivos para se controlar mutuamente. A transparência seria produzida pela competição política e o melhor remédio contra a corrupção seria então uma oposição forte. Só ela teria interesses em desvelar desmandos. A autocontenção (moral) é insuficiente porque o “moral hazard” (risco moral) é alto: governo algum tem interesse em expor suas próprias mazelas, pelo contrário. Nas novas democracias – o caso brasileiro é exemplar – o risco permanente é o conluio entre parceiros em uma coalizão dominante ou o uso da maioria para inibir as instituições de controle.

Só são efetivas no país as instituições antimajoritárias.

O exemplo das instituições de controle dos países da comunidade britânica das nações é ilustrativo. A presidência dos “Public Accounts Committee” é delegada ao líder da oposição que nomeia o titular do National Audit Office – que é o equivalente ao TCU no Brasil. A intuição por trás dessa regra é madisoniana: a maioria parlamentar que dá sustentação ao governo não está interessada em se autocontrolar. Só a oposição alimenta esse interesse. Isto explica porque, por exemplo, as CPIs no Brasil nunca tiveram efetividade, porque controladas pelo governo e sua maioria. Os episódios raros em que surtiram efeito foram apenas porque puderam dar vazão a conflitos no seio de famílias ou “fogo amigo” entre desafetos. Só tem efetividade no país as instituições que fogem a essa lógica por serem antimajoritárias, como o Judiciário e o Ministério Público (urge que o TCU seja reformatado e se converta em instituição judicial!). Mas poderíamos acrescentar também a mídia independente do governo. Nas novas democracias, estas instituições são a última linha de defesa da “res publica”.

Mas o que impede o governo de “cortar as asas” das instituições de controle”? A interferência aberta nessas instituições tem custos que em alguns contextos democráticos podem ser proibitivos: os eleitores punem nas urnas governos que ataquem tais instituições. No limite, a interferência ocorre de forma indireta quando a falta de alternância política se traduz na composição governista dos colegiados dessas instituições. Mas o ataque direto tem um custo reputacional: ele é tanto maior quanto mais independente for a mídia e mais forte a oposição.

Os limites à interferência nas instituições são dados pela opinião pública, sobretudo nas democracias maduras. Há um equilíbrio quando os custos de tolerar a oposição e os controles tornam-se maiores que os de reprimi-los. Esse argumento parece ser bem compreendido por protagonistas do “jogo do controle” no Brasil. O juiz federal Sérgio Moro, em texto de 2004 sobre a Operação Mani Pulite, que levou centenas de políticos e empresários para a cadeia, concluiu que “a lição mais importante de todo o episódio seja a de que a ação judicial contra a corrupção só se mostra eficaz com o apoio da democracia… Enquanto ela contar com o apoio da opinião pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados”. Ao deflagrar a Operação Lava-Jato certamente anteviu o massivo apoio que receberia da opinião pública.

No Brasil, as instituições fortaleceram-se e isso foi produto da competição política. O contrafactual é dado por países onde forças políticas tornaram-se hegemônicas e o controle democrático sobre os governos definhou. Estudos comparativos rigorosos na América Latina e na Europa do Leste corroboram amplamente este argumento. O neomadisonianismo não é vacina definitiva contra o corte de orelhas, mas é o começo. Sim, o Brasil vai mal, mas as instituições antimajoritárias funcionam cada vez melhor!

Marcus André Melo é professor da UFPE, foi professor visitante da Yale University e do MIT e é colunista convidado do “Valor”. Maria Cristina Fernandes volta a escrever em fevereiro

Não tem como não pensar pelo menos um pouco no que ele diz. As teorias que ele apresenta pelo menos nunca passaram pela minha cabeça dessa forma, pensava em apenas uma dessas facetas. O que você achou do texto?

Por Ana Paula Ramos

Novidades de aniversário!

Bem amigos do OP!

Oficialmente começam hoje as festividades de aniversário do nosso blog. No dia 24 de fevereiro faremos um ano de postagens, sei que deixei vocês na mão em vários momentos, mas as coisas estão ficando mais tranquilas e estou conseguindo manter um ritmo legal de postagens.

Comecei as alterações acrescentando uma categoria nova: Textos para pensar. Agora é hora de fazer uma enquete, que para dar certo precisa da participação de cada um de vocês. Basta escolher o tema que mais te interessa entre os que estão listados na enquete, caso você prefira que eu falei sobre outro tema basta sugeri-lo nos comentários do post.

Compartilhe com os seus amigos e vote até o dia 19 desse mês. O resultado sai no dia 20 e o texto será publicado no dia 24, quando o blog completa um ano. Conto com a participação de vocês!

Por Ana Paula Ramos

Quando política vira profissão, algo está muito errado

Essa semana estava olhando o burburinho em torno da eleição para presidência da Câmara dos Deputados, que antagonizou Arlindo Chinaglia (PT) e Eduardo Cunha (PMDB). No meio do processo acabei confundindo o nome do Eduardo Cunha com o do atual presidente da casa Henrique Eduardo Alves e me deparei com a seguinte biografia no site da Câmara (clique AQUI).

Presidente da Câmara dos Deputados eleito para o biênio 2013-2014, Henrique Eduardo Alves nasceu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1948. É o decano da Câmara dos Deputados, com 43 anos de vida parlamentar e 11 mandatos seguidos representando o Rio Grande do Norte, sempre pelo mesmo partido, o PMDB.

Foi eleito pela primeira vez em 1970, depois de seu pai, o ex-governador do Rio Grande do Norte Aluizio Alves, ter sido cassado pela ditadura militar. Na Câmara dos Deputados, participou da oposição ao regime, do movimento das Diretas Já e da Assembleia Nacional Constituinte, que resultaram na redemocratização do País, nos anos 1980.

Entre 2007 e 2012, exerceu a liderança da bancada do PMDB na Câmara dos Deputados. Sua atuação foi decisiva na votação do novo Código Florestal. Por suas habilidades de negociador e articulador, ele é reconhecido como um dos parlamentares mais influentes do Congresso Nacional, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Ao longo dos 11 mandatos, apresentou 672 proposições, entre projetos de lei, propostas de emendas à Constituição e outras. Foi relator de 57 matérias, dentre as quais se destacam o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida e o novo regime de distribuição dos royalties do petróleo no pré-sal.

Assim que eu li achei muito engraçado o tom sério que eles dão aos QUARENTA E TRÊS ANOS de vida parlamentar, com 11 mandatos seguidos pelo mesmo estado e o mesmo partido. Depois reclamam quando a gente fala que política virou profissão e que quem entra não quer largar o osso. Tá aí a prova viva disso.

Imagina um estado votando em peso onze eleições seguidas na mesma pessoa, por isso não tem nome novo na nossa política. Não sei o que está mais complicado nisso tudo, nós que não procuramos opções a esses nomes batidos ou eles que encontraram um pote de ouro e não largam. Não vou entrar no mérito da compra de voto para não piorar ainda mais a situação.

E tem gente que diz que a nossa democracia funciona, mas nessas horas eu me pergunto: Onde está a alternância?

Por Ana Paula Ramos

O fanatismo e a tecnologia

Texto para ler falando sobre os mais diversos assuntos é o que não falta, mas esse que eu vou compartilhar hoje fala sobre um livro que me deu muita vontade de ler e que talvez jogue uma luz sobre os acontecimentos do início do ano em Paris. Deixei para publicá-lo só agora porque os ânimos estão mais calmos e normalmente pensamos melhor quando não estamos tão tocados pelos fatos. O texto foi escrito por Martin Wolf e foi publicado no Financial Times originalmente e traduzido por Sergio Blum:

Como compartilhar o mundo?

Como devemos entender os acontecimentos da semana passada em Paris? Por que pessoas se dispõem a matar e morrer por suas crenças? Como deveriam reagir as democracias liberais? Muitas pessoas devem estar se fazendo essas perguntas. Um homem notável, Eric Hoffer, abordou-as em um livro publicado em 1951: “The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements” (o verdadeiro crente: pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massa). As ideias em seu livro, desenvolvidas em resposta ao nazismo e ao comunismo, reverberam poderosamente ainda hoje.

Hoffer nasceu na virada do século XX e morreu em 1983. Ele trabalhou em restaurantes, como mão de obra agrícola migrante, como garimpeiro e, durante 25 anos, como estivador em San Francisco. Autodidata, ele era capaz de penetrar o núcleo de um tema com frases brilhantes e límpidas. “The True Believer” é um de meus livros favoritos. É, novamente, um guia inestimável.

Quem, então, é um verdadeiro crente? Said e Cherif Kouachi e Amedy Coulibaly, os homens responsáveis pelos ataques terroristas na semana passada em Paris, eram verdadeiros crentes. Também verdadeiros crentes são os que atuam na al-Qaeda, no Taleban, no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis) ou no Boko Haram. Também crentes verdadeiros eram os nazistas e os comunistas. Os verdadeiros crentes, defende Hoffer, não são caracterizados pelo conteúdo de sua fé, mas pela natureza de suas afirmações. Suas crenças reivindicam certeza absoluta e exigem lealdade absoluta. Crentes verdadeiros são aqueles que aceitam essas reivindicações e saúdam essas demandas. Eles estão dispostos a matar e morrer por sua causa, porque o êxito delas no mundo é mais importante, para eles, do que suas próprias vidas ou mesmo a vida de qualquer pessoa. O verdadeiro crente é, portanto, um fanático.

Devemos nos manter fiéis às nossas crenças. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. No fim, isso também vai passar

O fanático é um personagem familiar na história. O fanatismo nasce de temperamento, não de ideias. O temperamento fanático pode expressar-se de muitas maneiras. A era em que Hoffer viveu foi uma era de religiões seculares. A realidade exterminou as religiões que prometiam salvação na Terra. Mas não pode exterminar as religiões que prometem eternidade. Essas são, agora, novamente, a mais poderosa forma de crença, embora o nacionalismo ainda possa competir de perto.

Com efeito, religião e nacionalismo frequentemente reforçaram-se mutuamente: Deus, afinal de contas, é muito frequentemente considerado em “nosso campo”. Por essa razão, diz Hoffer, “o nacionalismo nos tempos modernos é a mais copiosa e renovável fonte de entusiasmo das massas e é preciso recorrer ao fervor nacionalista para que as drásticas mudanças projetadas e iniciadas pelo entusiasmo revolucionário possam ser consumadas”.

Um das intuições de Hoffer é que não é a pobreza o que transforma alguém num verdadeiro crente; é a frustração. É o sentimento de que alguém merece algo muito melhor. Não é de estranhar que alguns daqueles envolvidos em terrorismo sejam “peixes pequenos” do mundo do crime. Hoffer argumenta “que os frustrados predominam entre os primeiros adeptos de todos os movimentos de massa e que eles geralmente aderem por vontade própria”. Uma de suas características é que eles podem sentir que não se encaixam em suas sociedades.Isso não é improvável no caso de alguns filhos de minorias imigrantes. O vínculo com a cultura de origem de suas famílias e a identificação com a cultura da terra de suas famílias são, ambos, provavelmente muito frágeis.

O que a crença, então, oferece? Em essência, ele oferece uma resposta: a crença diz aos adeptos o que pensar, o que sentir e o que fazer. Ela proporciona uma comunidade abrangente para o crente viver. Ela oferece uma razão para viver, matar e morrer. Ela substitui o vazio por plenitude e a falta de rumo por propósito. Ela oferece uma causa. Ela é às vezes nobre e por vezes abjeta, mas é uma causa, e isso é o que importa. “Todos os movimentos de massas geram, em seus adeptos, uma…propensão para ação unida”, observa Hoffer. “Todos os movimentos de massa, independentemente da doutrina que pregam…, fomentam fanatismo, entusiasmo, esperança fervorosa, ódio e intolerância”. Todos exigem “fé cega e adesão sincera e dedicada”.

O comunismo minguou. O mesmo se deu, em muitos lugares, com o secularismo. A religião assumiu seu lugar. A falência moral e intelectual dos governantes seculares – especialmente dos déspotas seculares corruptos – fomentou esse recrudescimento. Mas as democracias ocidentais seculares são vulneráveis a assaltos também de verdadeiros crentes do islamismo militante. Guerras poderão controlá-los. Mas violência não os eliminará, como o Ocidente aprendeu tanto no Iraque como no Afeganistão. O inimigo não é o “terrorismo”; o inimigo é a noção da qual o terrorismo é fruto. Dissuadir pessoas dispostas a morrer é difícil. Matar ideias é difícil. Matar ideias religiosas é quase impossível. Essas ideias somente se dissiparão em face de ideias mais atraentes. Possivelmente, as ideias mais extremadas poderão morrer por exaustão. Mas isso pode levar muito tempo. Lembremo-nos que as ideias de Lutero desencadearam 130 anos de guerras religiosas na Europa. É um precedente preocupante.

O que deve ser feito? Não reivindico nenhuma expertise nessa área. Mas tenho pelo menos um interesse legítimo: o de cidadão de uma democracia liberal, condição que desejo manter. Minhas respostas são as seguintes. Em primeiro lugar, aceitar que estamos jogando um jogo – de longo prazo – de contenção. Em segundo lugar, reconhecer que o coração da luta está em outro terreno. O Ocidente pode ajudar. Mas não tem como vencer essas guerras. Em terceiro lugar, oferecer a noção vivida de igualdade como cidadãos, como alternativa para a jihad violenta. Em quarto lugar, apreciar e responder às frustrações que muitos agora sentem. Em quinto lugar, aceitar a necessidade de medidas para garantir segurança. Mas lembrar que segurança absoluta nunca é possível. Por último, nos mantermos fiéis às nossas crenças, pois sem elas nada temos a oferecer para esse esforço. Não devemos abandonar o Estado de direito nem a proibição à tortura. Se o fizermos, já teremos perdido a guerra de ideais e ideias.

Mais uma vez, os verdadeiros crentes querem fazer-nos mal. Mas a ameaça que eles representam não é comparável às que a democracia liberal sobreviveu no Século XX. Devemos reconhecer os perigos, mas não reagir exageradamente. Ao final, isso também vai passar.

A teoria levantada por Hoffer é muito interessante, podem dizer! Eu estou louca de vontade de ler esse livro, mas ainda não encontrei em nenhum lugar para comprar, parece que só tem em português de Portugal. Acho que vou ter que encarar em inglês mesmo…

O que você acha desse ponto de vista?

Por Ana Paula Ramos.

Marta Suplicy – Parte 2

Como se não bastasse o bafafá da entrevista dada por Marta Suplicy no início do mês, a Senadora resolveu novamente expressar seu descontentamento com o partido que representa. Dessa vez, o veículo utilizado foi a Folha de São Paulo e o mais curioso é que ela utilizou a coluna chamada debate, que pode ser usada por qualquer leitor que deseja enviar sua contribuição ao jornal, basta enviar um email. Achei bem curioso o canal escolhido e como já era de se esperar ela manteve as críticas ao governo. Leia e veja o que acha dessa nova Marta que põe o dedo na ferida do PT sempre que tem oportunidade:

Marta Suplicy: O diretor sumiu

Tenho pensado muito sobre a delicadeza e a importância da transparência nos dias de hoje. Temos vivido crises de todos os tipos: crise econômica, política, moral, ética, hídrica, energética e institucional. Todas elas foram gestadas pela ausência de transparência, de confiança e de credibilidade.

Se tivesse havido transparência na condução da economia no governo Dilma, dificilmente a presidente teria aprofundado os erros que nos trouxeram a esta situação de descalabro. Não estaríamos agora tendo de viver o aumento desmedido das tarifas, a volta do desemprego, a diminuição de direitos trabalhistas, a inflação, o aumento consecutivo dos juros, a falta de investimentos e o aumento de impostos, fazendo a vaca engasgar de tanto tossir.

Assim que a presidenta foi eleita, seu discurso de posse acompanhou o otimismo e reiterou os compromissos da campanha eleitoral: “Nem que a vaca tussa!”.

Havia uma grande expectativa a respeito do perfil da equipe econômica que a presidenta Dilma Rousseff escolheria. Sem nenhuma explicação, nomeia-se um ministro da Fazenda que agradaria ao mercado e à oposição. O simpatizante do PT não entende o porquê. Se tudo ia bem, era necessário alguém para implementar ajustes e medidas tão duras e negadas na campanha? Nenhuma explicação.

Imagina-se que a presidenta apoie o ministro da Fazenda e os demais integrantes da equipe econômica. É óbvio que ela sabe o tamanho das maldades que estão sendo implementadas para consertar a situação que, na realidade, não é nada rósea como foi apresentada na eleição. Mas não se tem certeza. Ela logo desautoriza a primeira fala de um membro da equipe. Depois silencia. A situação persiste sem clareza sobre o que pensa a presidenta.

Iniciam-se medidas de um processo doloroso de recuperação de um Brasil em crise. Até onde ela se propõe a ir? Até onde vai o apoio à equipe econômica?

Para desestabilizar mais um pouco a situação, a Fundação Perseu Abramo, do PT, critica as medidas anunciadas, o partido não apoia as decisões do governo e alguns deputados petistas vociferam contra elas. Parte da oposição, por receio de se identificar com a dureza das medidas, perde o rumo criticando o que antes preconizou.

O PT vive situação complexa, pois embarcou no circo de malabarismos econômicos, prometeu, durante a campanha, um futuro sem agruras, omitiu-se na apresentação de um projeto de nação para o país, mas agora está atarantado sob sérias denúncias de corrupção.

Nada foi explicado ao povo brasileiro, que já sente e sofre as consequências e acompanha atônito um estado de total ausência de transparência, absoluta incoerência entre a fala e o fazer, o que leva à falta de credibilidade e confiança.

É o que o mercado tem vivido e, por isso, não investe. O empresariado percebe a situação e começa a desempregar. O povo, que não é bobo, desconfia e gasta menos para ver se entende para onde vai o Brasil e seu futuro.

Acrescentem-se a esse quadro a falta de energia e de água, o trânsito congestionado, os ônibus e metrôs entupidos, as ameaças de desemprego na família, a queda do poder aquisitivo, a violência crescente, o acesso à saúde longe de vista e as obrigações financeiras de começo de ano e o palco está pronto.

A peça se desenrola com enredo atrapalhado e incompreensível. O diretor sumiu.

MARTA SUPLICY é senadora pelo PT-SP. Foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e ministra da Cultura (2012-2014)

Parece que ela está declarando guerra ao PT mesmo, a pergunta que não quer calar é: por que ela ainda não saiu? Alguma coisa não está encaixando… O Miguel Jorge discordou da forma como a política estava sendo conduzida por Lula em 2003 e saiu do partido, ele também era um dos fundadores do partido, mas quando viu a mudança do partido não hesitou em sair. Por que ela não sai e critica de fora? Para mim é meio estranho tanto descontentamento e nenhuma ação de retirada. Será que ela espera ser chamada para colocar o partido nos eixos novamente? Acho essa opção meio difícil, uma vez que ela afrontou Aluizio Mercadante, Dilma e o próprio presidente do partido.

Ainda falta peça nesse quebra cabeça, só acompanhando para ver que figura sairá no fim.

Por Ana Paula Ramos

Afinal, o que é o PIB?

Quando o assunto é economia todo mundo insiste em falar em um tal de PIB. Todo mundo sabe que ele é importante para o crescimento e estabilização da economia do país, mas o que significa essas três letrinhas? Acho que a maioria tem uma ideia geral, mas não sabe explicar com exatidão a importância dele para a nossa vida.

Felizmente, o G1 fez uma explicação bem simples para que possamos entender porque o Produto Interno Bruto influencia tanto a nossa vida. Logo de cara eles explicam o que é o PIB e o objetivo de mensurá-lo, em seguida colocam as variáveis que entram e não entram nessa conta. Depois jogam uma luz sobre como é feito o cálculo e para finalizar de onde vem os dados que entram nessa conta.

É o melhor resumo que eu já vi e como eu adoro infográfico e eles usam e abusam desse recurso não podia deixar de compartilha-lo. Espero que depois de ler vocês consigam entender e dividir com os amigos o que é o PIB e porque ele é tão importante para a economia. Clica AQUI e entenda a essência dessas letrinhas.

Por Ana Paula Ramos

Dilma + Levy?

Não sei se vocês notaram, mas agora o blog tem uma categoria nova: Textos para pensar. O objetivo é compartilhar textos que considero interessantes e que nos fazem pensar sobre determinadas coisas que acontecem no nosso dia a dia. Vou deixar claro aqui que o fato de trazer o texto para o blog não significa que eu concorde integralmente com o que está escrito, mas reflexão nunca é demais. Nenhum dos textos são meus, em todos vou dizer o nome do autor e se eu souber digo a fonte também. Comecei com a entrevista da Marta Suplicy e agora vou compartilhar um texto bem interessante que o João Bosco escreveu na semana passada sobre o silêncio de Dilma:

Dilema Levyano

Menos pela cobrança da oposição e mais para não sugerir falta de apoio à equipe econômica, e com isso fortalecer o assanhamento da própria base parlamentar, a presidente Dilma não deve tardar em assumir a defesa do programa econômico que começa a ser executado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A reunião ministerial  na Granja do Torto rompe o silêncio da presidente porque impõe seu discurso de abertura do segundo mandato, mas não deveria ser um tópico dentro do longo processo de reajuste das contas públicas. É preciso que seja o começo de uma postura presidencial.

O risco do silêncio da presidente, que realça a condução econômica por Levy, pode não ter a motivação que lhe empresta a oposição, mas deixa espaço para a exploração política nos termos em que se dá.

Além de sugerir que monitora de perto a gestão de um modelo que lhe desagrada, o distanciamento presidencial reforça a leitura de uma campanha eleitoral que dissimulou os problemas do país. Qualquer postura da presidente não a poupará do desgaste de uma economia em sérias dificuldades, agravada pelas crises de água e energia.

Melhor, pois, assumir o programa de ajustes, primeiro porque é a receita recomendável para o contexto de crise. Segundo, porque passa a ideia de um governo que optou pelo comportamento ativo para repor o país nos trilhos. Em síntese, um governo disposto a mostrar serviço.

A oposição do PT à gestão de Levy peca pela perda de viço do partido, com origem na corrosão de sua credibilidade, seja pelo esgotamento da aposta em um modelo populista, de muita assistência e de pouca gestão, seja pela associação à corrupção, que patrocinou em busca de um governo sem contestação.

Não por acaso, quando a situação de agrava na economia e na política, que intensifica o conflito interno, o partido ressuscita a teoria conspiratória com a qual pretende, dia sim, dia não, justificar o controle da mídia – ora em forma de aplicação da regra democrática, ora em forma de pretenso zelo constitucional pela pluralidade de enfoques jornalísticos.

O PT já vive um conflito interno proporcional ao desgaste da legenda, do que é sinal mais ostensivo hoje o comportamento dissidente da ex-ministra da Cultura, Martha Suplicy. Em que pese sua ação se vincule à percepção de que precisa resguardar seu patrimônio político, Martha não disse uma só frase que possa ser desmentida pelo partido.

Prova disso é a entrevista recente do ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vanuchi, eleito para responder à entrevista da ex-senadora ao jornal O Estado de S.Paulo, em que abriu a temporada de críticas ao partido, ao governo e não poupou sequer o ex-presidente Lula, por cuja candidatura em 2014 se empenhara – segundo ela, com aval do mesmo.

Vanucchi não desmente uma só linha da entrevista de Martha, limitando-se ao velho método do PT de desqualificar seus críticos.Com a diferença, agora, que os críticos estão no próprio partido e, no caso de Martha, entre outros, têm a credibilidade da vivência histórica na agremiação.

Exercem a crítica como testemunhas até ontem engajadas nas causas partidárias e, mais, com um currículo de cargos públicos eletivos e também de nomeação avalizada pelo partido para o primeiro escalão de seus governos.

Esse contexto, associado ao da corrupção, mergulha o partido em uma crise que o consome e limita sua capacidade de enfrentar a oposição externa e, por extensão, estancar a sangria eleitoral visível na última campanha, quando perdeu espaços e viu seu principal adversário, o PSDB, aumentar em proporção inversa a bancada legislativa federal.

Trava ainda uma disputa renhida com seu rival principal na base de sustentação governo, o PMDB, prestes a conquistar a presidência da Câmara, o que se não ocorrer agravará a situação do governo, porque o terá mais hostil na convivência congressual.

Agora mesmo, a presidente Dilma se vê em meio ao conflito tentando o malabarismo de não agravar o descontentamento do PMDB, compensando-o com cargos no segundo escalão, prêmio que o PT queria para si.

O dilema da presidente é esse: para manter o PT na órbita palaciana descontentar o PMDB. Para não ter problemas com o PMDB, desagradar ao PT. É onde surge o plano de criação do PL, capítaneado pelo ministro das Cidades, Gilberto Kassab, com a intenção de , mais tarde, fundí-lo ao seu PSD e gerar um partido com número para rivalizar com os dois principais da base, notadamente o PMDB.

Se tentar agradar a todos, Dilma corre o risco de ampliar sua dependência junto a legendas menores e ao novo partido que resultar da fusão em curso no forno de Kassab. A aposta no programa recessivo de Levy é a melhor escolha, porque tem o ônus da impopularidade, em um primeiro momento, mas pode alcançar o objetivo de melhorar as consequências da crise para a população.

À fala presidencial de hoje à tarde será saudável seguir-se, com alguma regularidade, outras que façam o contribuinte perceber a condução da presidente no processo de rearrumação da economia. Do contrário, dada a gravidade da crise e a característica incontornável da receita para superá-la, o presidente, de fato, chamar-se-à, pelo menos por dois anos, Joaquim Levy.

A entrevista que ele cita da Marta Suplicy foi publicada aqui no blog no sábado. Recomendo que vocês leiam para entender melhor o quadro que ele desenhou. Ele falou também que o motivo do silêncio da presidente é a vontade de não desagradar alas internas do partido. Sabendo que as medidas tomadas por Levy seriam tomadas por qualquer ministro, você concorda com o ponto de vista defendido por João Bosco?

Até o próximo texto!

Por Ana Paula Ramos